Numa entrevista publicada em Julho de 2009, na revista Mojo, Jack White, num comentário veemente acerca da forma como a Internet pode ser corrosiva para a música, disse:
“It’s so hard to surprise anyone with anything anymore. Say tonight we’re going to play a show, and our album’s not coming out for two months. Should we think about the YouTube clips that are going to be up tomorrow? I don’t want to have to think about it.”
Interesses comerciais à parte, este comentário parece focar-se num tópico interessante: a forma como a internet facilita o acesso a música no geral e o impacto que isso tem na forma como a vemos hoje em dia.
Nos bons velhos tempos, em que o acesso à música era relativamente limitado, ter um CD novo ou poder assistir ao concerto de uma banda era algo de mágico. Como tudo o que não se consegue facilmente, tinha um sabor diferente, era uma pequena vitória. Hoje em dia, com o advento do YouTube, o iTunes e todos os sites de download ilegal, a música acabou por se banalizar. Podemos fazer o download de um CD que acabou de sair há dias ou mesmo horas ou ver um concerto inteiro online. Estes são os argumentos dos puristas, que subscrevem ferozmente o regresso do vinil e que olham com despeito para quem saca a sua música da Internet. No entanto, qualquer jovem ainda dependente dos pais e com uma mesada normal não se pode dar ao luxo de comprar todos os CDs das bandas que gosta nem de ir, numa base regular, a concertos. A música, para muitos, ainda é um luxo, com o preço regular de um CD entre os 15 e os 30 euros. Além disso, quando aquilo que queremos está à distância de um clique e alguns minutos de espera, é fácil cairmos na tentação de descarregar aquele novo álbum que queremos ouvir há meses. É claro que existe sempre a questão ética: estará certo sacar um CD, sabendo que estamos a privar os seus autores de lucros que lhes são devidos? É verdade que a indústria musical perde bastante dinheiro com os downloads ilegais mas nos últimos anos os músicos têm conseguido dar a volta à situação, disponibilizando os seus trabalhos inteiramente grátis através dos sites oficiais ou por preços bastante reduzidos. Vai haver sempre maneira de dar a volta à situação.
Como amante de música que sou, devo dizer, e não sem um bocadinho de vergonha, que é a Internet que me alimenta este vício. Percebo e até concordo com aqueles que dizem que a Internet está, cada vez mais, a tornar a música trivial. Preferia, como é óbvio, comprar um vinil ou CD ou poder ir a concerto em vez de ter que ver pequenos clips online. Mas, para mim, a solução anda pelo meio: compro alguns CDs, principalmente antologias e best ofs, e acabo por sacar o resto. É uma questão de estabelecer um compromisso entre aquilo que devemos fazer e aquilo que podemos fazer.
Maria Leonor de Castro Nunes



