No final dos anos 40 do séc. XX, quando a televisão começava finalmente a massificar-se, George Orwell publicava o livro “1984″. Nesta distopia marcada inevitavelmente pela Guerra Fria , o autor descreve um mundo futuro divido em três grandes blocos a que correspondem 3 estados concorrentes e em constante conflito: Eurasia, Eastasia e Oceania. A acção decorre neste último, regime totalitário chefiado pelo Partido. O seu representante máximo é o “Big Brother”, termo hoje conhecido por todos (entre outros, sendo também conhecida a expressão “Big Brother is Watching You”, usada ainda hoje um pouco por todo lado precisamente quando se pretende criticar qualquer tipo de controlo sobre as massas) foi cunhado pelo autor desta obra.
Não querendo entrar numa descrição detalhada do enredo, é necessário referir que a engenharia social era levada ao extremo, através do uso da propaganda ,do reescrever da história, do raciocínio (punição dos “crimes de pensamento”) e da própria língua (a “Newspeak”), do controlo/abolição da vida privada. Neste último ponto, entrava em cena o telescreen , uma espécie de emissor/receptor semelhante a uma televisão que tanto emitia a propaganda do regime como servia coma uma espécie de circuito interno de TV, gravando e transmitindo ao partido todos os movimentos de cada um, eliminando, à partida, qualquer possibilidade de desvio ás normas.
De facto, o exercício de futurologia praticado pelo autor, é assustadoramente próximo dos potenciais (ou reais) usos para o controlo das massas que essa nova tecnologia (e qualquer outra, a partir daí) colocou à disposição das lideranças. No entanto, alguns defendem que a distopia não passa disso mesmo e que a televisão foi, afinal, um catalisador da democracia.
Hoje vivemos numa época em que a internet, para além de todos os novos esquemas sociais que possibilitou, se consagrou definitivamente como um campo onde se desenrolam eventos que influem directamente na vida de comunidades e até estados. E como esperado, estes mesmos estados começam já hoje a tentar perceber como se pode controlar este sistema sem líder. Bom exemplo é a última reunião do G8 (intitulada e-G8), que juntou os lideres mundiais e representantes das maiores empresas do planeta no que diz repeito a conteúdos, meios e tecnologias relacionadas com a web. Congratulou-se o papel da internet nas revoluções mais recentes mas também se questionou como ter mais controle sobre o que se passa na rede…
De qualquer forma, numa sociedade que cada vez mais se define pelos media, esta distopia será sempre um ponto de partida, de passagem ou chegada numa dicussão sobre o poder e os media.
Rui Carvalho