O sujeito-tecnologia

Tema de escrita: Em que medida os dispositivos são extensões psíquicas e emocionais do sujeito?

Sherry Turkle é uma estudiosa do efeito das tecnologias no ser humano. Escreveu livros como: The Second Self: Computers and the Human Spirit (1984), Life on the Screen: Identity in the age of the Internet (1995), Alone Together: Why we expect more from technology and less from each other (2011).

Sherry Turkle analisa a relação do mundo digital e das pessoas, concluindo que devido aos dispositivos móveis (por exemplo, o telemóvel, munido de Internet) , estamos permanentemente conectados ao mundo que nos rodeia (e não só), portanto estes mesmos dispositivos tornam-se em extensões do ser humano, fazendo parte dele. Começa a ser considerada parte do nosso corpo.

Sendo uma extensão, o computador (aqui, é o objecto amplificado como dispositivo), é na realidade, mais do que isso, tornando-se o espelho da pessoa para o mundo. Podemos ser o que quisermos atrás de um computador, até mesmo não sermos nós próprios. É um mundo fantasioso que geramos e que se gera. Muitas vezes, a identidade que as pessoas fazem passar nas redes sociais, não é igual à da realidade.

O computador tem, portanto, dois papéis a desempenhar relativamente ao seu possuidor: o the second self e o a tethered self.

Na verdade, sem a presença do computador, o ser humano perde uma parte de si, podendo só se sentir completo quando o tem de volta. Há uma relação de dependência.

Vimos os computadores saírem de gigantescas salas com ar condicionado para cubículos, passarem para as secretárias e, agora, para o nosso colo e para o nosso bolso. Mas ainda não chegámos ao fim. – Nicholas Negroponte.

Perde-se a noção do convívio físico, para que seja substituído pelo convívio virtual. Por vezes, sentimo-nos melhor e mais à vontade se falarmos com alguém através do Facebook ou de mensagens no telemóvel, do que se for pessoalmente. Ou chegamos ao ponto de estar rodeados por pessoas desconhecidas, mas com quem poderíamos estabelecer uma relação, e optamos por enviar uma mensagem a um amigo, evitando, portanto o contacto físico. Ou pura e simplesmente estarmos “connosco”, sem a necessidade de estar sempre em contacto com alguém, ainda que este esteja longe.

Somos solitários e a Internet traz a falsa sensação de amizade. – Sherry Turkle.

Não aprendemos a estar sozinhos, preferimos enviar mensagens ou e-mails, a conversar pessoalmente. A verdade é que as redes sociais acentuam a distância entre as pessoas.

A palavra comunidade banaliza-se, na medida em que, supostamente, estaremos mais perto uns dos outros, morando num pequeno mundo, que a internet permite que se aproxime; e amizade também, já que qualquer um pode tornar-se nosso “amigo”, sem que haja uma amizade real, na verdadeira acepção da palavra.

Para ilustrar o meu texto, chamo a atenção para este vídeo, onde podemos ver Sherry Turkle em primeira mão (ironicamente, através de um computador): http://www.ted.com/talks/lang/pt/sherry_turkle_alone_together.html

Beatriz Barroca.

A (Re)produção da arte

De que forma a reprodutibilidade técnica altera a natureza e a função social da obra de arte?

Walter Benjamin foi um crítico literário, filósofo, sociólogo, tradutor e ensaísta alemão. Escreveu A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica em 1936. Aqui analisa a potencialidade artística (essencialmente a nível político) a partir da reprodutibilidade técnica. Fala-se da “aura”, ou seja, a veracidade da obra. A fotografia começa, de certa forma, a “destruir” essa aura.

Mas é através da dita reprodutibilidade, que é possível democratizar as obras e, assim, a arte.

Para o autor, as coisas vistas pelos olhos são diferentes das vistas através de um aparelho (por exemplo, a câmara).

Há dois tipos de reprodução:

  1. Reprodução manual
  2. Reprodução mecânica/técnica

Há uma aceleração na passagem da reprodução manual (por exemplo, xilogravura) para a reprodução mecânica/técnica (por exemplo, fotografia ou cinema). A reprodução mecânica/técnica é imediata, ao contrário da manual, que leva tempo a ser produzida.

Apesar de as reproduções serem, na maioria dos casos, exemplos perfeitos de cópias dos originais, faltam-lhes o aqui e agora do original. O simples facto de ser A obra de arte. A história formou-se sobre o original, a passagem do tempo incidiu sobre o original…

O aqui e agora do original encerra a sua autenticidade. – Benjamin.

Com o fenómeno da reprodutibilidade facilitada, verifica-se a perda da aura dos objectos artísticos, esvai-se o sentido da tradição e da história que a obra original encerra e assistimos à sua massificação.

Na minha opinião, a reprodutibilidade é uma “espada de dois gumes”, com as suas vantagens e desvantagens.

É certo que a natureza da obra de arte original é afectada, pois perde o estatuto de singularidade, de ser “a única”, mas ao mesmo tempo penso que isso não é de todo negativo, pois permite que a maioria das pessoas possa ter acesso à obra, mesmo que seja “apenas” uma reprodução. Temos uma cultura de massas? Sim, o que faz com que não haja grande diversidade do meio cultural e que sejamos, de certa forma, obrigados a que todos gostem das mesmas coisas. Mas isso vai ao encontro do que disse anteriormente, pois dá a possibilidade a que todos (ou quase todos) possam ter um maior contacto com a cultura, não estando esta cingida a uma “elite”.

Penso que este vídeo se adequa à temática aqui apresentada:

Beatriz Barroca.

O Meio é a Mensagem ou A Mensagem é o Meio?

A partir da década de 40, começaram a surgir várias tentativas de análise e explicação dos fenómenos dos meios de comunicação, e o seu papel.

Herbert Marshall McLuhan foi um sociólogo canadiano, que viveu no séc. XX (1911-1980). McLuhan interessou-se por estes fenómenos. Escreveu duas grandes obras: The Gutenberg Galaxy: The Making of Typographic Man (1964) e Understanding Media: The Extensions of Man (1962).

Os três aspectos mais importantes do McLuhanismo são: 1. The Medium is the message (o meio é a mensagem), 2. Os média como extensões do ser humano e 3. Meios frios e meios quentes.

The Medium is the message: este foi o ponto que gerou maior controvérsia, pois até então, tinha-se estudado o efeito dos média quanto ao conteúdo, para o que difundiam e transmitiam, sem se dar grande importância a o que é que o disseminava (jornal, rádio, televisão, cinema…). Para McLuhan, o mais importante não é o conteúdo da mensagem, mas o veículo através do qual a mensagem é transmitida. Desta maneira, estuda-se a relação entre a forma e o conteúdo da transmissão da mensagem.

Cada meio de difusão tem as suas características próprias, e por conseguinte, os seus efeitos específicos. Qualquer transformação do médium é mais determinante do que uma alteração no conteúdo.

Desta forma, estuda-se as características específicas de cada medium, com o objectivo de saber as qualidades e defeitos de cada um, e que impõem ao conteúdo, para assim definir a melhor forma de os utilizar. Esta investigação remete-nos para os Meios frios e meios quentes.


2.

Os média como extensões do ser humano: os média recorrem aos nossos sentidos para se fazerem transmitir. Passámos por três eras: a Era Tribal (oralidade; multi-sensorial), Era da Escrita (escrita – visão), Era da Imprensa (imprensa – “ainda mais” visão); e actualmente vivemos na Era Electrónica (média electrónicos; aldeia global).

3.

Meios frios e meios quentes: hot (meios quentes) transmitem uma mensagem clara e precisa, que se impõe ao receptor de forma muito forte. A leitura desta mensagem não exige grande esforço, por exemplo: imprensa, escrita alfabética, rádio, cinema (excepto animação). Têm alta definição e baixa participação do receptor. Cool (meios frios) fazem passar uma mensagem menos óbvia que a dos meios quentes, sendo necessário alguma dedicação para a compreender, por exemplo: televisão, escrita ideográfica, fala, telefone, animação. Têm baixa definição e alta participação do receptor.

Atente-se que, actualmente, esta categorização já não está propriamente correcta, na medida em que haveria meios, como a televisão, que se podem encaixar nos meios quentes e nos meios frios. A Era Electrónica, com os meios digitalizados, confere aos média a alta definição e a participação, o que torna difícil a distinção entre quente e frio.

 

A mudança do meio de comunicação, modifica, de facto, a mensagem, e o seu conteúdo. Apesar de a mensagem ser a mesma, o efeito causado não é o mesmo.

Por exemplo: O site da Rádio Antena 2.

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Linearidade: Ao ligar o rádio e sintonizar a frequência, “sujeitamo-nos” a ouvir o que está a passar naquele momento.

Na versão online, podemos ouvir a música/programa do momento ou escolher o programa que queremos ouvir, já que temos a opção de Programas Podcast. Assim, é-nos permitido ter acesso a programas já passados, por exemplo. Vemos os destaques com um slide-show que é impossível de passar despercebido, podemos partir para blogs e sites relacionados com o conteúdo da estação de rádio, etc.

Qualidade: Nem sempre conseguimos ouvir os programas radiofónicos com qualidade através do rádio, e nem sempre nos é possível deixar o que estamos a fazer, para ir ouvir rádio. Nestes casos, temos a possibilidade de ouvir em directo, através do site desta estação.

Concentração: No rádio, estaremos mais atentos ao que estamos a ouvir, pois à partida não estaremos a fazer mais nada.

Na versão online, os nossos sentidos fazem-nos dispersar, pois “hiperligação-aqui”, “hiperligação-ali”, há uma certa tendência para nos distrairmos. Não só no site da rádio há a propensão de nos distrairmos, como em todas as ferramentas que o próprio computador nos oferece e na possibilidade de abrirmos novas janelas da internet. É de salientar, por exemplo, a publicidade, as chamadas pop-ups, que se movimentam no ecrã, constituindo mais um factor de dispersão.

Interacção: Não há qualquer interacção entre nós e o rádio, ao contrário do site do canal: por exemplo, no link + Lidas, para além de termos acesso a uma compilação dos artigos/notícias mais lidos no site, podemos ainda deixar o nosso comentário (escrito) no site.

Links: A versão digital da rádio dá-nos a oportunidade de navegar por outros sites relacionados com o que lemos/ouvimos.

Redes sociais: A nível digital, a rádio está ainda nas redes sociais, como por exemplo, Facebook e Twitter. Deste modo, o ouvinte não terá sequer de aceder ao site, já que muitas das vezes, as actualizações do site, são feitas também, pelo Facebook e Twitter. Assim, o ouvinte poderá apenas ler estes “pedaços de texto” ou integralmente, se assim o quiser, bastando-lhe clicar no link do artigo.

McLuhan mostra, desta forma, como o meio interfere no produto final da mensagem, que é a sua transmissão. Assim, o meio é, de facto, a mensagem.

No caso da rádio na internet, temos de compreender que a rádio deixa de ser rádio. Há uma remediação do meio.

Beatriz Barroca.

Fotografia: Uma tecnologia visionária

Fotografia: foto = luz + grafia = escrita. “Escrita da luz”.

A fotografia, antes de tudo, é um testemunho. Quando se aponta a câmara para algum objecto ou sujeito, constrói-se um significado, faz-se uma escolha, selecciona-se um tema e conta-se uma história. Cabe a nós, espectadores, o imenso desafio de lê-las. – Ivan Lima.

O desejo da captação da realidade, transformado em imagem, imobilizado na imortalidade, fascina o Homem desde sempre, como provam as pinturas rupestres da Pré-‑História, por exemplo.

Julgava-se existir uma relação mágica entre as coisas e a sua captação, que se vem a acentuar no séc. XIX, com a invenção da fotografia. Esta foi a primeira forma de registar “para todo o sempre” os acontecimentos, que, de outra forma, seriam efémeros e facilmente susceptíveis de serem esquecidos. Deste modo, qualquer um pode ser o seu próprio repórter.

É então, em 1837, que surge o primeiro daguerreótipo, pelas mãos de Joseph Nicéphore Niépce e Louis Daguerre, apresentando uma “natureza morta”. A fotografia era considerada uma rival das artes, nomeadamente, da pintura, tendo sido difícil a sua aceitação e tolerância, essencialmente pelo facto de ser considerada um produto industrial. A fotografia opunha-se um pouco à pintura por esta ser uma visão interpretativa da realidade por parte dos pintores, um tanto subjectiva, ao contrário da fotografia, que seria mais objectiva, por representar fielmente a realidade, sem manipulação do homem. Desde o seu aparecimento, actua como uma tecnologia de informação e de comunicação, e como memória. A memória humana sofre de falhas e efemeridade, ao contrário de uma câmara fotográfica.

É nos anos 30 que a fotografia alcança a sua dimensão actual. Hoje em dia, a fotografia já não é vista tanto como uma mera representação do real, mas sim como a possibilidade de o transformar.

A fotografia tornou-se importante, também, no mundo dos média, na medida em que está na origem do cinema, por exemplo. Na verdade, existem poucos mundos de que a fotografia não faça parte: documenta as imagens tiradas do espaço, ilustra livros e reportagens/entrevistas… O jornalista substitui a descrição por uma imagem.

Esta técnica desempenha, essencialmente, o papel de documento, de documentar isto ou aquilo. Permite eternizar uma marca, um vestígio deixado por algo físico ou material. “Recorta” um fragmento de um determinado momento, num determinado lugar. É, também, capaz de criar a sua própria linguagem, uma linguagem que não se limita a reproduzir o real, que na verdade pode manipular. É o caso da fotografia na publicidade, pois esta organiza-se para lá de uma representação “inocente” da realidade, na medida em que ela nos transmite uma mensagem, um texto invisível, que é onde reside a mensagem publicitária. Uma imagem fotográfica pode suportar um inúmero conjunto de códigos, de simbolismos, que cabe a cada um interpretar e compreender.

A fotografia serve como estímulo da imaginação, e proporciona a multiplicidade de interpretações.

Beatriz Barroca.

Política & Internet

Qual a dimensão política das tecnologias de informação e de comunicação?

A internet tem cada vez mais um papel fundamental nas nossas vidas. Já todos sabemos que a usamos para “tudo e mais alguma coisa”, como contactar pessoas (des)conhecidas, ouvir música… Actualmente, deparamo-nos com o facto de que não nos ficamos por aqui, também usamos a internet para ter acesso a informação que acontece do outro lado do mundo, em tempo real (!).

A verdade é que a internet é o meio de comunicação e de acesso à informação mais rápido e mais simples, já que podemos ter acesso a ela em dispositivos móveis e apenas com meia-dúzia de cliques, o que leva à substituição quase total de todos os outros veículos da informação, como os jornais, o telefone, a televisão, as revistas, a rádio, etc…

Com esta plataforma, temos a possibilidade de saber o que se passa à nossa volta, lendo uma notícia, mas também podemos ver vídeos e/ou imagens.

Assim, com toda esta facilidade e comodidade, chegamos à conclusão de que, para além de chegarmos à informação, também podemos ser nós a fazê-la chegar aos outros. Como? Tornando-nos nós os emissores da informação, das notícias.

Convertemo-nos, assim, no “cidadão-repórter”, levando ao mundo inteiro fotografias ou vídeos, que depois são amplificados pelo tradicional meio de comunicação: a televisão. Porque muitas vezes, os verdadeiros repórteres não conseguem estar no local, na hora, mas nós estamos.

E se muitas vezes as nossas reportagens não são transmitidas na televisão, nós podemos fazê-las transmitir, com um simples clique na internet. Temos os blogs e as redes sociais, por exemplo, onde aglutinamos imagem e texto, e no caso de um vídeo, basta usar o portal YouTube. Todas estas ferramentas permitem chegar a muita gente muito rapidamente. Nada mais simples!

Portanto, há mais do que uma razão para sermos nós os repórteres: a internet tem a capacidade de não ser controlada pelo poder político. Ela pode ser usada como denúncia de todo o tipo de atropelos que surgem, sem haver censura. A título de exemplo, vejamos o que se passa actualmente na Síria, em que as primeiras imagens obtidas dos confrontos foram fornecidas pelos civis, e não por jornalistas, como no vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=EJCbKEBMMnI

Todo este desenvolvimento tecnológico produz o domínio da imagem sobre a palavra.

Beatriz Barroca.


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