Arquivo da categoria 'Literatura Digital'

Ode Triunfal

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical -
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e fôrça -
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro -
Porque o presente é todo o passado e o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão de ir ter febre para o cérebro de Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por êstes êmbolos e por êstes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modêlo!

Ode Triunfal, Álvaro de Campos
Londres, 1914

Neste excerto do enigmático heterónimo de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos exalta a força do pensamento para a evolução tecnológica da humanidade. Campos relaciona o conceito cérebro/máquina, considerando que funcionam de forma idêntica, destacando a relação de simbiose entre estes dois termos.
Deste modo, Campos refere a sabedoria de grandes figuras do passado, como os grandes filósofos da Antiguidade Clássica, como meio para atingir o conhecimento presente, “há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas.”.
Isto é, a sociedade, em 1914, enfrentava o espectro do desenvolvimento tecnológico, estimulado pela Revolução Industrial, que só foi possível de alcançar graças ao facto de o Homem ter utilizado a sua própria Máquina, a “caixa pensante”, para desenvolver extensões de si próprio, dispositivos que desempenhassem as mesmas funções que uma mão ou pé humano, contudo, e eventualmente, com uma mais eficácia e velocidade, como “Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modêlo”.
Campos reforça, ainda, o ideal de perfeição que pode ser encontrado numa máquina. Este ideal afasta-se, forçosamente, do cérebro humano, que, segundo o sujeito poético, nunca poderá ser tão perfeito como um dispositivo fabril ou um automóvel. Tal facto acontece pois a auto-conscienciaque o Homem tem das suas emoções, distancia-o do rigor na execução de determinadas acções. Desta forma, Campos anseia ser como as máquinas que o envolvem, criando uma ruptura na inevitável dor de pensar que o atormenta, “Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime”.
Em suma, o pensamento Humano é um factor que abalava a sociedade em 1914 e prevalece até aos dias de hoje, Faz o sujeito comum afastar-se dos seus sentimentos e emoções, canalizando a força do seu pensamento para a construção de um mundo tecnológico, num crescimento proporcional ao agravamento do seu isolamento interior.
Hoje em dia, nesta era Digital são encontrados elementos que vencem dificuldades naturalmente humanas, que existiam também aquando do tempo do sujeito poético. Estas faziam-no ansiar por uma perfeição artificial, tal como hoje em dia a aldeia global, em que nos inserimos, deseja.

Fernando Pessoa

“DA MINHA ALDEIA vejo quando da terra se pode ver no Universo….
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura…

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver.”

Alberto Caeiro, em “O Guardador
de Rebanhos”
.

Será que não podemos comparar um pouco este poema ao que acontece com as novas tecnologias actualmente?

Diana Reis

Internet Archive

O Internet Archive é uma NPO (non-profit organization) que foi fundada com o objectivo de criar uma das maiores e mais proliferas bibliotecas digitais da internet, oferecendo acesso permanente a pesquisadores, historiadores, e académicos a conteúdos históricos que existem em suporte digital e que estejam livres das restrições genéricas do copyright, sob a doutrina “Fair Use” ou a recém-concebida Creative Commons License.

Fundado em 1996 e sediada em San Francisco (CA), o IA vive de donativos de documentos de organizações conceituadas como a Alexa Internet, entre outros. A partir de 1999, o IA começou a incluir diversos suportes multimédia, como ficheiros de texto (p.e. livros digitalizados e jornais), ficheiros audio (p.e. registos de musica ao vivo), imagens (p.e. fotografias ou scans), videos/filmes (p.e. cinema sem copyright por ser independente ou ter expirado) e software (aplicações open-source), assim como paginas Web extintas e que foram arquivadas.

Aqui fica um pouco do mantra desta instituição:

Libraries exist to preserve society’s cultural artifacts and to provide access to them. If libraries are to continue to foster education and scholarship in this era of digital technology, it’s essential for them to extend those functions into the digital world.

Many early movies were recycled to recover the silver in the film. The Library of Alexandria – an ancient center of learning containing a copy of every book in the world – was eventually burned to the ground. Even now, at the turn of the 21st century, no comprehensive archives of television or radio programs exist.

But without cultural artifacts, civilization has no memory and no mechanism to learn from its successes and failures. And paradoxically, with the explosion of the Internet, we live in what Danny Hillis has referred to as our “digital dark age.”

The Internet Archive is working to prevent the Internet – a new medium with major historical significance – and other “born-digital” materials from disappearing into the past. Collaborating with institutions including the Library of Congress and the Smithsonian, we are working to preserve a record for generations to come.

Open and free access to literature and other writings has long been considered essential to education and to the maintenance of an open society. Public and philanthropic enterprises have supported it through the ages.

The Internet Archive is opening its collections to researchers, historians, and scholars. The Archive has no vested interest in the discoveries of the users of its collections, nor is it a grant-making organization.

 

 

Open and free access to literature and other writings has long been considered essential to education and to the maintenance of an open society. Public and philanthropic enterprises have supported it through the ages.

The Internet Archive is opening its collections to researchers, historians, and scholars. The Archive has no vested interest in the discoveries of the users of its collections, nor is it a grant-making organization.

Contudo, a oferta do IA não se limita a conteúdos de cariz académico.  Sou um adepto devoto deste projecto e recorro a ele regularmente para consulta de informação e encontrar música nova. Contribuo esporadicamente para a secção LMA (Live Music Archive), onde registos audio de concertos ao vivo feitos por tapers são colocados para partilha permanente num servidor dedicado (mediante aprovação previa da banda por escrito).

-j.mart

Magnética Magazine

     A Magnética Magazine é a primeira revista portuguesa totalmente digital. Inicialmente “transmitida” ao público em formato PDF (via Podcast, através de RSS), a revista evoluiu para uma representação em Flash permitindo uma maior interactividade com o leitor.

     O primeiro número foi lançado em Dezembro de 2008, celebrando em grande o final do ano com a “invenção” de uma nova forma de leitura para o público português. O ano de lançamento coincide com os 120 anos de nascimento de Fernando Pessoa, o centenário do mais antigo realizador de cinema português no activo (Manoel de Oliveira) e os dez anos da entrega do Nobel da Literatura a um português (José Saramago), razões para os criadores da Magnética revelarem expectativas elevadas acerca deste projecto inovador.

     Com um design cuidado e apelativo e uma equipa de grandes profissionais e colaboradores (incluindo, por exemplo, o conhecido músico David Fonseca), esta revista interessa-se sobretudo por cultura e arte, incluindo artigos acerca de música, cinema, arquitectura, moda, literatura, dança, teatro, design e fotografia, atraindo (daí o nome) um público vasto e diferenciado.

     A revista engloba uma versão em inglês, com o objectivo de se difundir num espaço internacional e tem recebido um grande apoio da parte dos “e-readers”. Para os amantes das revistas impressas, a Magnética funciona exactamente como uma revista normal (incluindo até as usuais publicidades), tendo a particularidade de ser lida através de um ecrã e de dar a possibilidade de associar os seus artigos a vídeos, a outros artigos relacionados ou “sites”. Como não existem custos de impressão, a revista ganha a possibilidade de artigos mais pormenorizados e extensivos para os mais curiosos, tendo como objectivo uma revista, nas palavras da Directora Editorial Ana Catarina Pereira, “não consumível em cinco minutos do primeiro dia de cada mês”.

 

Magnética Magazine, 001
Magnética Magazine, 001
Magnética Magazine, 002
Magnética Magazine, 002
Magnética Magazine, 003

Magnética Magazine, 003

 

Magnética Magazine, 004

Magnética Magazine, 004

 

Magnética Magazine, 005

Magnética Magazine, 005

Até hoje existem cinco números. A revista é, portanto, mensal, virtual e totalmente gratuita. O único pedido é que respeitemos as árvores: “Gostamos do verde das árvores. Por favor, não nos imprima.”.

Ana Teresa Santos


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