Arquivo de 21 de Março, 2009

Dependência tecnológica

dsc02044     A maior parte de nós não tem consciência da sua dependência face à tecnologia. Eu própria não tinha noção que a maior parte da minha vida se regia por dispositivos digitais até nos ser proposta uma auto-análise. No meu dia-a-dia, as acções de enviar uma mensagem ou de verificar se existe novo correio no e-mail são tão naturais que passam quase despercebidas. No entanto, quando tomei atenção a todos os passos que dou durante um dia (aliás, durante uma semana toda), apercebi-me que, de facto, a tecnologia é um vício. Todos os dias sou acordada por um despertador digital, envio cerca de cem mensagens escritas (e recebo um número semelhante), faço dois ou três telefonemas, passo em média três horas ao computador (embora haja dias em que estes cento e oitenta minutos se transformam em tardes inteiras), vejo cerca de uma/duas horas de televisão (a maior parte das vezes não estou a assistir aos programas mas encaro a televisão como uma companhia), utilizo o microondas e a máquina fotográfica digital… E não posso esquecer as facilidades do multibanco, do mp3/rádio/telemóvel, ou mesmo da máquina fotográfica incorporada no telemóvel que à falta da “verdadeira” serve para registar os momentos dignos de figurar nos blogues, hi5’s e afins…

     Se multiplicarmos tudo isto por 365 dias, o resultado é absolutamente assustador. Pior ainda quando me lembro da quantidade de telemóveis que já comprei (e por vezes troco não porque o antigo se estragou, mas porque o novo é melhor), dos computadores que já tive, das várias consolas que já não utilizo, da quantidade de vezes que fui ao cinema durante um ano ou que passei uma tarde em frente ao televisor… Até as aulas são, muitas vezes, dadas com o recurso às novas tecnologias.

     Apesar de todas as vantagens que estas tecnologias nos trazem, tudo o que é em demasia não pode trazer apenas benefícios. Onde estão as tardes passadas a ler um livro, ou a conviver ao ar livre? As crianças/jovens de hoje em dia não sabem escrever porque nunca leram (é muito mais fácil ficarmos sentados à frente da televisão e ouvir as notícias/documentários). Até os nossos pais, que com a nossa idade não sabiam o que era um telemóvel, já se renderam aos seus encantos mesmo que seja só para saberem o que fazemos a qualquer hora do dia.

     Temo o dia em que formos privados de meios tecnológicos. O que fazer para (sobre)viver?

Ana Teresa Santos

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Friedrich A. Kittler, Art and technology (2005)

Análise digital da cultura digital [«Cultural Analytics»], segundo Lev Manovich (2008)

Representação numérica, modularidade, automação, variabilidade e transcodificação

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In section “Media and Computation” I show that new media represents a convergence of two separate historical trajectories: computing and media technologies. Both begin in the 1830’s with Babbage’s Analytical Engine and Daguerre’s daguerreotype. Eventually, in the middle of the twentieth century, a modern digital computer is developed to perform calculations on numerical data more efficiently; it takes over from numerous mechanical tabulators and calculators already widely employed by companies and governments since the turn of the century. In parallel, we witness the rise of modern media technologies which allow the storage of images, image sequences, sounds and text using different material forms: a photographic plate, a film stock, a gramophone record, etc. The synthesis of these two histories? The translation of all existing media into numerical data accessible for computers. The result is new media: graphics, moving images, sounds, shapes, spaces and text which become computable, i.e. simply another set of computer data. In “Principles of New Media” I look at the key consequences of this new status of media. Rather than focusing on familiar categories such as interactivity or hypermedia, I suggest a different list. This list reduces all principles of new media to five: numerical representation, modularity, automation, variability and cultural transcoding. In the last section, “What New Media is Not,” I address other principles which are often attributed to new media. I show that these principles can already be found at work in older cultural forms and media technologies such as cinema, and therefore they are by themselves are not sufficient to distinguish new media from the old.

Lev Manovich, The Language of New Media, Cambridge, Mass: MIT Press, 2001, p. 20.

Novos média e práticas políticas, segundo Jay David Bolter (2009)

Remediação, imediação e hipermediação

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The two logics of remediation have a long history, for their interplay defines a genealogy that dates back at least to the Renaissance and the invention of linear perspective. We do not claim that immediacy, hypermediacy and remediation are universal aesthetic truths; rather, we regard them as practices of specific groups in specific times. Although the logic of immediacy has manifested itself from the Renaissance to the present day, each manifestation in each age may be significantly different, and immediacy may mean one thing to theorists, another to practicing artists or designers, and a third to viewers. The diversity is even greater for hypermediacy, which seems always to offer a number of different reactions to the contemporary logic of immediacy. Remediation always operates under the current cultural assumptions about immediacy and hypermediacy.

We can not hope to explore the genealogy of remediation in detail. What concerns us is remediation in our current media in North America, and here we can analyze specific images, texts, and uses. The historical resonances (to Renaissance painting, nineteenth-century photography, and twentieth-century film, and so on) will be offered to help explain the contemporary situation. At the same time, the practices of contemporary media constitute a lens through which we can view the history of remediation. What we wish to highlight from the past is what resonates with the twin preoccupations of contemporary media: the transparent presentation of the real and the enjoyment of the opacity of media themselves.

[…]

Again, we call the representation of one medium in another “remediation,” and we will argue that remediation is a defining characteristic of the new digital media. What might seem at first to be an esoteric practice is so widespread that we can identify a spectrum of different ways in digital media remediate their predecessors, a spectrum depending upon the degree of perceived competition or rivalry between the new media and the old.

Jay David Bolter & Richard Grusin, Remediation: Understanding New Media, Cambridge, Mass, MIT Press, 1999; 2ª ed. 2000, pp. 21, 45.

Uma questão de interesses

A propósito do género “notícia televisiva”…

Hoje em dia há uma grande dicotomia entre o interesse público e o interesse do público. Sabendo que os assuntos do interesse do público são os que maior atenção captam, os meios de comunicação social dão relevo a histórias sensacionalistas, tragédias e escândalos ligados, preferencialmente, à vida de figuras públicas.

O vídeo do abandono de Santana Lopes à entrevista na SicNotícias, que uma colega aqui nos mostra, exemplifica bem esta realidade. A chegada de José Mourinho ao aeroporto da Portela é uma “notícia” que podia perfeitamente ter sido difundida em diferido (se é que alguém acha isso necessário). Não havia era necessidade de interromper o Santana que (é válido) se sentiu ofendido. Quer dizer, qualquer pessoa que estivesse interessada na entrevista se deve ter sentido. Qual é o tão grandioso interesse na chegada de um treinador de futebol? É mais importante o futebol que o estado da política em Portugal? Se a entrevista fosse a um político estrangeiro por conversação telefónica, por exemplo, o senhor havia de achar uma graça ser interrompido desta forma. Que imagem isto dá do nosso país?

Lembro-me de os telejornais durarem 30 minutos, já com as notícias desportivas integradas. Hoje, à excepção do Jornal 2 que, nesta altura, deve ser o único que se mantém íntegro na escolha e difusão das notícias, os telejornais chegam a atingir a hora e meia! ¾ das notícias que difundem são de cariz nacional, pregam-nos com “palha” até à exaustão. O mesmo não acontece em países mais evoluídos, onde os telejornais são bem mais curtos e dão bastante mais relevância a notícias internacionais. Será que os portugueses querem mesmo ficar fechados no pequeno mundo do “Jornal Nacional”? É deprimente saber que este formato lidera as audiências e o único ponto que me dá alguma esperança é pensar que pior é impossível e que por isso talvez um dia tenhamos um verdadeiro serviço de interesse público no horário nobre das nossas televisões.

Inês Monteiro


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