Arquivo de 25 de Março, 2010

A cultura digital e os novos média

Reflectindo sobre os novos média, queria dizer que nem tudo sempre se trata de avanços tecnológicos. É bastante importante ter em claro o que eles trouxeram de novo para as novas sociedades e quais as suas consequências. Podemos hoje em dia ter a possibilidade de comunicar, representar, manipular e explorar de uma forma como há cem anos não se imaginava. A nossa cultura e as nossas vidas são hoje muito diferentes do que eram antes, fazendo parte de um fenómeno chamado revolução digital. É surpreendente como as ideias de um senhor nos anos 60, chamado Marshall Mcluhan, sobre “Global Village”, “Gutenberg Galaxy”, “Medium is the Message/Massage”, fazem hoje mais sentido que nunca, fazendo dele um profeta da mediatização.

Com a emergência da tecnologia digital e do uso individual do computador, o mundo têm-se vindo a alterar de forma muito rápida. Nunca na história do ser humano num tão curto espaço de tempo existiram tão rápidas e dramáticas transformações sociais e culturais como agora. Dia após dia novas ideias, teorias, máquinas são inventadas ou imaginadas.

Voltando aos efeitos da era digital, podemos com os novos média estar em contacto com pessoas ou eventos a nível internacional com uma frequência e rapidez que não se imaginave na era analógica. Aqui faço mais uma alusão à importância do conceito de “Global Village” de Mcluhan e ao crescente processo de globalização que se traduz pela combinação de forças económicas, socio-culturais, tecnológicas, políticas pelas quais as pessoas deste mundo estão conectadas.

No entanto, o que não falta são críticas e diferentes opiniões que esta cultura digital pode trazer. Alguns crêem que agora vivemos dentro de um mundo com maior diversidade cultural, onde podemos através dos novos média participar e dar mais as nossas opiniões ou ter acesso a qualquer tipo de conhecimento. Por outro lado, é também dito que esta forma de cultura ainda pode vir a tornar o ser humano mais desigual. Nos países menos desenvolvidos está mais que visto que são poucos os que têm acesso a estas novas tecnologias. Nos países desenvolvidos, os jovens cada vez mais possuem uma quantidade de informação desnecessária e fútil, tornam-se mais comodistas, consumistas e preguiçosos.

Pedro J. Chau

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De “o meio é a mensagem” até à “aldeia global”

As duas obras mais importantes de Marshal McLuhan são fundamentais para entendermos a sua teoria relativamente ao estudo dos média. Na sua principal obra “The Gutenberg Galaxi” (1962) McLuhan faz uma análise dos efeitos e evolução dos média, onde mostra o modo como a escrita altera a cultura (por exemplo, a mecanização da escrita na imprensa).

Na obra “Understanding Media” (1964) procura estabelecer as características dos vários média (por exemplo da escrita, da imprensa, da fotografia, do telégrafo, do telefone, do cinema, da rádio, da televisão, entre outros). McLuhan defende a tecnologia electrónica como uma extensão do sistema nervoso central, ou seja redefine a tecnologia dos média como uma extensão da consciência humana. Os média enquanto extensões das faculdades humanas (dos nossos sentidos e do nosso corpo) proporcionam consequências culturais e sociais, uma vez que modificam a forma como o ser humano age e pensa.

Marshall McLuhan defende uma teoria global dos média “o meio é a mensagem” porque o meio determina a forma e o conteúdo que a mensagem pode ter, o meio não é um mero canal por onde a mensagem passa: “o que determina a natureza de uma sociedade não é tanto o conteúdo mas o meio”. Por exemplo quando se cria a escrita forma-se uma relação mais individual com a linguagem, que por sua vez cria a racionalidade (a imprensa intensifica todas as relações culturais que a escrita foi proporcionando).

Então o que significa dizer “o meio é a mensagem”? As práticas que um determinado meio implicam são determinadas pela introdução do próprio meio. Por exemplo, as práticas da escrita eram diferentes até à introdução da máquina de escrever. Os escritores não têm a mesma relação com a língua quando escrevem à mão e quando escrevem à máquina, uma vez que a máquina de escrever permite organizar a escrita na página de maneira diferente e cria uma nova consciencialização da própria escrita. O conteúdo de um meio é sempre outro meio.

Para McLuhan, os meios electrónicos “retribalizam” a humanidade, porque dão importância à interactividade e à comunicação, ou seja, valorizam de uma nova maneira as relações sociais. Isto significa a emergência da “aldeia global” onde cada pessoa pode comunicar directamente com outra (valorização da oralidade).

Portanto na teoria de Marshall McLuhan, os meios de comunicação não são neutros, pois determinam os próprios conteúdos da mensagem e influenciam as práticas sociais e culturais, e a organização social. É o meio que dá forma e controla a escala de acção humana (por exemplo, na introdução do automóvel há uma série de práticas que se desenvolvem e modificam o meio, as nossas actividades).

Mónica Lima

simplificar=dificultar?

 

Ainda há pouco tempo fui ver uma peça de teatro, no teatro académico gil vicente, intitulada~“concerto à lá carte”, protagonizada por ana bustorff. Tratava-se de um monólogo gestual, sem falas, onde o silêncio,também por parte do público, imperava. A solidão e, consequentemente, todo um conjunto de rituais que a personagem executava para, de alguma forma, “aniquilar” todo este sofrimento, fazem parte da acção principal da narrativa.

Era uma peça extremamente minuciosa e perfeitamente perceptivel a qualquer espectador com gosto e com um grande sentido de compreensão teatral. A verdade é que fiquei abismada com a quantidade de criticas negativas que ouvi, durante, e no fim do espectaculo! Uns defendiam a ideia de que esta peça não fazia qualquer sentido, principamente por ser muda. Outros afirmavam ter sido uma das melhores peças de teatro que viram até agora pois é muito mais complicado representar sem falas, uma vez que com falas se pode improvisar, do que representar como ana bustorff fez, gesticulando e apresentando acções que, com o minimo deslize, tornavam esta peça inperceptivel.

A questão que, com isto, quero salientar é: será que simplificando as coisas, estas se tornam mais dificeis? Ora vejamos no campo do cinema. Uma das questões que está mais em voga é exactamente a distinção entre o cinema convencional e o chamado formato 3D. Se assistirmos a um filme de hitchcock de 1950, por exemplo, verificamos que a caracterização das personagens é mais simples, a representação das mesmas ainda é um bocado teatral, os movimentos de camara assim como a relação campo/contra campo são diferentes daquelas que vemos hoje. Diria até que são muito mais simplistas mas, ao contrário do que se pode pensar, a percepção, por parte do público, vai ser muito mais dificil. Já num filme em 3D, a situação inverte-se. Há um campo tecnológicamente avançado, o som é muito mais real, assim como a caracterização das personagens e a aproximação do real através de manipulação tecnológica, são técnicas extremamente complexas mas, no entanto, é muito mais perceptivel,(para a maior parte das pessoas). Actualmente existe uma necessidade de fazer mais e melhor(a questão do melhor é discutivel). A inovação e a concretização de práticas consideradas impossiveis e improváveis é o objectivo das massas contemporaneas. Apostar na evolução tecnológica, assim como o AVATAR, em vez de retirar de uma pelicula a sua verdadeira essencia a partir da sua história, como o cinema convencional faz, é exactamente aquilo que a industria cinematográfica pretende atingir.

Joana Luciano

Será o 3-D uma maravilha tal como o País da Alice de Tim Burton?

Nos últimos anos, com o surgimento dos filmes em 3-D, os cineastas podem enganar melhor os nossos olhos como se estivéssemos a ver o filme através de uma janela entre o mundo real e a ficção. Mas, não é assim tão simples, tudo depende de ilusões de óptica para criar cenas com profundidade ou objectos que parecem saltar da tela do cinema.

E, é exactamente esse o objectivo do mais recente filme do realizador norte-americano Timothy Walter Burton. Alice in Worderland” foi um dos filmes mais aguardados e mais falados dos últimos tempos. Logo na semana de lançamento nos Estados Unidos da América, o filme foi considerado o mais visto e o que mais facturou no país, conseguindo assim ultrapassar o até então campeão de bilheteiras, “Avatar”. Segundo o Instituto do Cinema e do Audovisual (ICA), em Portugal o filme também liderou as salas de cinema, batendo mesmo recordes com 129.816 espectadores logo nos primeiros quatro dias de exibição.

Sendo assim, só podemos concluir que o filme é, sem dúvida, um sucesso. Talvez sim, mas, para mim, nem por isso.

“Alice no País das Maravilhas” é realmente um clássico e, talvez por isso, não tenha sido uma total desilusão para mim. Não vou mentir, existem pormenores indiscutíveis no filme que sem dúvida me fascinaram, a fotografia, as imagens, a caracterização, o guarda-roupa, os cenários, as interpretações de alguns actores, é tudo muito bom mas, na minha opinião, o argumento fica muito aquém das expectativas. Carecia de um grande trabalho de aprofundamento das pistas lançadas por Lewis Carrol no seu livro homónimo e, o que constatamos, é que isso seria possível se tivesse havido um verdadeiro interesse em contar uma boa história e não somente fazer um filme bonito.

Mesmo assim, penso que o 3-D trouxe benefícios ao filme. A tecnologia estava bem feita e existia uma certa magia que nos envolvia para aquele “país maravilha”.

Qualquer representação gráfica de um objecto apresenta-se em duas dimensões, 2D (altura e largura) mas, com o auxílio de óculos especiais que transmitem uma imagem diferente para cada olho alterando o ângulo de cada um deles e, fazendo com que o cérebro crie a ilusão de profundidade ou com o auxílio da computação gráfica entre outros recursos, pode-se fazer com que a figura dê a impressão de apresentar também profundidade, o que dá maior semelhança com o objecto representado.

No vídeo que aqui deixo podes conhecer um pouco melhor a maneira como este tipo de filmes são produzidos:

A tecnologia 3-D utiliza o sistema de polarização, ou seja, possui lentes polarizadas que filtram apenas ondas de luz que são alinhadas na mesma direcção. Num par de óculos 3-D, cada lente é polarizada de forma diferente e o ecrã do cinema é especialmente desenvolvido para manter a polarização correcta quando a luz do projector é reflectida. Por isso é que as imagens ficam um pouco embaciadas quando vistas sem os óculos.

Pena que devido a estes mesmos acessórios não consigamos entrar inteiramente na magia de um filme em 3-D pois é através deles que nos apercebemos do que é real e do que não é, ou seja, é com eles que nós temos noção do meio que nos envolve.

Os autores Jay David Bolter e Richard Grusin têm uma teoria sobre a mediação na idade digital. Bolter e Grusin argumentam que os novos media encontram significado cultural precisamente porque prestam homenagem e renovam os media anteriores como a pintura, a fotografia, o filme e a televisão. Ao processo de renovação, eles chamam “remediação”, referindo que os media anteriores se renovaram face aos media ainda mais antigos, por exemplo: a fotografia remediou a pintura, o filme remediou a fotografia, a televisão remediou o filme, o teatro de revista e a rádio. Ou seja, é como o processo “antropotrópico” definido por Paul Levinson, “as novas tecnologias dos media tornam melhores ou rectificam as tecnologias anteriores”. Ao lado da imediacia e da hipermediacia, a remediação é um dos três elementos da genealogia dos novos media.

A hipermediacia é “o estilo de representação visual cujo objectivo é lembrar ao espectador o meio que ele usa para ver.” Já a imediacia é “o estilo de representação visual cujo objectivo é fazer esquecer ao espectador a presença do meio (tela, filme fotográfico, cinema, etc.) e acreditar que ele está na presença de objectos de representação.”

Todos estes três elementos são bastante notórios no filme “Alice in Wonderland”. A remediação está presente não só por ser um filme em 3-D mas também por ser uma adaptação do clássico de Lewis Carrol, “Alice’s Adventures in Wonderland”, uma obra clássica da literatura inglesa. (Percebe-se aqui perfeitamente a tal melhoria das tecnologias anteriores que Bolter e Grusin falam.)

A hipermediacidade também é visível no filme de Tim Burton devido a um aspecto que eu já mencionei que são os tais óculos especiais que nos dão o poder de entrar num mundo que não é o nosso, que não é real.

A imediacia também está presente, segundo a sua lógica da transparência, o meio esconde-se e torna-se invisível. Ou seja, é a sensação de estarmos dentro do próprio filme e vivermos todas as peripécias envolvidas.

Tal como já tinha dito, a tecnologia 3-D foi realmente bem conseguida e interessante neste filme. Mesmo assim, continuo a ser apologista dos bons argumentos, das histórias sólidas e que me surpreendam não só em termos estéticos mas também em termos de originalidade e inteligência. “Alice in Wonderland” não é mau mas a verdade é que poderia ser bem melhor.

Márcia Oliveira


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