simplificar=dificultar?

 

Ainda há pouco tempo fui ver uma peça de teatro, no teatro académico gil vicente, intitulada~“concerto à lá carte”, protagonizada por ana bustorff. Tratava-se de um monólogo gestual, sem falas, onde o silêncio,também por parte do público, imperava. A solidão e, consequentemente, todo um conjunto de rituais que a personagem executava para, de alguma forma, “aniquilar” todo este sofrimento, fazem parte da acção principal da narrativa.

Era uma peça extremamente minuciosa e perfeitamente perceptivel a qualquer espectador com gosto e com um grande sentido de compreensão teatral. A verdade é que fiquei abismada com a quantidade de criticas negativas que ouvi, durante, e no fim do espectaculo! Uns defendiam a ideia de que esta peça não fazia qualquer sentido, principamente por ser muda. Outros afirmavam ter sido uma das melhores peças de teatro que viram até agora pois é muito mais complicado representar sem falas, uma vez que com falas se pode improvisar, do que representar como ana bustorff fez, gesticulando e apresentando acções que, com o minimo deslize, tornavam esta peça inperceptivel.

A questão que, com isto, quero salientar é: será que simplificando as coisas, estas se tornam mais dificeis? Ora vejamos no campo do cinema. Uma das questões que está mais em voga é exactamente a distinção entre o cinema convencional e o chamado formato 3D. Se assistirmos a um filme de hitchcock de 1950, por exemplo, verificamos que a caracterização das personagens é mais simples, a representação das mesmas ainda é um bocado teatral, os movimentos de camara assim como a relação campo/contra campo são diferentes daquelas que vemos hoje. Diria até que são muito mais simplistas mas, ao contrário do que se pode pensar, a percepção, por parte do público, vai ser muito mais dificil. Já num filme em 3D, a situação inverte-se. Há um campo tecnológicamente avançado, o som é muito mais real, assim como a caracterização das personagens e a aproximação do real através de manipulação tecnológica, são técnicas extremamente complexas mas, no entanto, é muito mais perceptivel,(para a maior parte das pessoas). Actualmente existe uma necessidade de fazer mais e melhor(a questão do melhor é discutivel). A inovação e a concretização de práticas consideradas impossiveis e improváveis é o objectivo das massas contemporaneas. Apostar na evolução tecnológica, assim como o AVATAR, em vez de retirar de uma pelicula a sua verdadeira essencia a partir da sua história, como o cinema convencional faz, é exactamente aquilo que a industria cinematográfica pretende atingir.

Joana Luciano

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