Arquivo de 14 de Abril, 2010

Tool – Vicarious (análise do vídeo)

Apesar de não me encontrar em avaliação contínua, o videoclip mostrado na última aula fez-me pensar em aproveitar um dos temas para o trabalho a realizar, e escrever um texto um pouco mais longo do que o habitual sobre um outro vídeo que considero bastante interessante.

O surgimento do canal MTV nos anos 80 foi a principal causa da proliferação dos videoclips, pois permitiu a divulgação de bandas musicais através de um meio de comunicação direccionado para a imagem, e não para o som. Várias bandas aproveitaram para divulgar a sua imagem deste modo, aparecendo nos vídeos a tocar a sua música; outros artistas, sem olhar a limitações financeiras, conseguiram elevar o videoclip ao estatuto de forma de arte. Michael Jackson é considerado o grande responsável por esse desenvolvimento e, de facto, quem consegue esquecer os vídeos de Thriller, Beat It ou Billie Jean?

Porém, mesmo Michael Jackson, que criava vídeos nos quais apresentava a história presente na letra da música, incluía-se a ele próprio como principal actor. Isto prova que a sua música e a sua imagem permaneciam indissociáveis.

Houve algumas bandas que aproveitaram a tecnologia para se libertarem desse costume. Já em 1985, os Dire Straits criaram um vídeo para a sua música Money for Nothing que fazia uso de imagens geradas a computador. A nós parecem-nos amadoras e antiquadas, é certo, mas na época foi uma inovação. Os The Prodigy criaram em 1993 um vídeo para o seu single One Love no qual o cenário inteiro era gerado a computador. Bandas como os Radiohead (com Paranoid Android) ou Gorillaz (Clint Eastwood, entre muitos outros vídeos) apresentaram as suas músicas com um acompanhamento visual no qual os músicos não apareciam, e gozaram na mesma de grande sucesso. O vídeo de que pretendo falar combina estes dois elementos.

Os Tool são uma banda conhecida não só pelas suas músicas, mas também pela sua despreocupação em promover a sua imagem enquanto pessoas (que, sublinhe-se, difere da imagem como músicos): raramente dão entrevistas, e a organização dos eventos onde tocam nunca está autorizada a divulgar vídeos, por vezes até mesmo fotografias, dos seus concertos. Acreditam que o jogo de luzes e de animações que apresentam só pode ser verdadeiramente apreciado ao vivo, e que não tem sentido mostrá-lo num ecrã. Alguns exemplos da complexidade do seu espectáculo dão-nos uma ideia do porquê de tal afirmação:

Foto 1

Foto 2

Foto 3

O primeiro single do seu álbum 10,000 Days1 , de 2006, chama-se Vicarious. É também o primeiro vídeo da banda feito inteiramente a computador, fruto de uma colaboração entre o guitarrista e artista plástico Adam Jones, o artista Chet Zar e o pintor Alex Grey.

Muito se pode dizer sobre esta criação dos Tool. A música contém apenas uma bateria, uma guitarra e um baixo eléctricos, e um vocalista. É fácil constatar que os instrumentos de cordas utilizam bastante distorção, além de outros efeitos (que podem ser adicionados durante a gravação no estúdio, através de pedais próprios para o efeito e controlados pelos músicos), e que tanto a bateria como a voz encontram-se bastante comprimidas, para criar um som mais “seco”. Escutando atentamente, reparamos ainda em alguns sons modificados ou adicionados já a computador, como alguns “jogos” com o volume e a panorâmica do som da guitarra, ou a voz, quase inaudível, de um repórter de jornalismo radiofónico a narrar o mesmo que o vocalista canta, no minuto 2:10, entre outros exemplos. Porém, como este não é um texto de crítica musical, não pretendo desenvolver mais este campo.

Um aspecto curioso é o facto de a música durar cerca de sete minutos, enquanto que o vídeo dura perto de nove. A diferença deve-se a um início com sons ambientais, que pretendem criar desde logo uma certa atmosfera, e um final que pretende demonstrar o desfecho desta história.

Nos primeiros segundos não conseguimos compreender exactamente aquilo que estamos a ver. Apenas percebemos que são imagens geradas a computador, ou CGI, na sigla inglesa. Só quando a música começa é que percebemos que vimos o interior sombrio de uma personagem, e a acção começa com o movimento de duas criaturas semelhantes a vermes, que saem dos olhos dela. Já aqui ficamos sujeitos à subjectividade interpretativa, visto que ninguém poderá dizer ao certo o que esses vermes representam. Pessoalmente, encaro-os como uma representação física da visão e dos interesses da personagem.

No momento em que a intensidade da música aumenta, surge um Sol negro a pairar sobre um deserto árido, seguido de vários planos da personagem da música. Ela não tem linhas bem definidas, é transparente, e falta-lhe tanto um coração como um cérebro. Encontra-se praticamente incapaz de se mover, com os pés colados ao chão mesmo quando observa um enorme olho a aproximar-se. A adrenalina fá-lo tremer, mas pouco depois esboça um sorriso. Tal como o vocalista diz pouco antes, “tragedy thrills me”.

De seguida, são-nos apresentadas umas caixas transparentes a flutuar à frente da personagem. Captam de imediato o interesse dela, e voltamos a ver os vermes a espreitar pelas pupilas. Quando duas caixas se tocam, surge o brilho azul típico dos ecrãs, pelo que podemos interpretá-las como sendo televisões.

Ouvimos então o vocalista a dizer “I need to watch things die/ From a distance / Vicariously, I live while the whole world dies”, ao mesmo tempo que aparece na imagem um insecto que me parece ser uma cigarra. Fico mais seguro da minha opinião devido ao facto de esta personagem, este telespectador, preferir ficar a observar o que o rodeia em vez de se mexer, tal como a cigarra na famosa fábula de Esopo. Ao olhar atentamente para os ecrãs à sua frente a fragmentarem-se, entra num estado de transe, e os vermes abandonam o seu corpo por alguns momentos antes de regressarem ao seu interior.

Com novos ecrãs à sua frente, o Telespectador olha para várias personagens esbatidas, todas semelhantes a ele próprio. A cigarra, entretanto, aproxima-se novamente dele, e das suas costas “nasce” outro olho. Numa questão de segundos, vemos o enorme olho do início do vídeo a aproximar-se, e a personagem principal a cair. Enquanto está no chão, ouvem-se de novo relatos de notícias, e vê-se uma criança a nascer dentro do seu crânio. Interpreto isso como uma pequena brincadeira com o termo inglês brainchild, deixando prever uma mudança na história a partir deste momento.

Deitada no chão, a personagem nada pode fazer a não ser olhar para o seu interior. Começa por observar um mundo curioso (baseado na pintura Net of Being de Alex Grey), mas repetido até à exaustão. Os vermes arrastam a personagem por este mundo, no qual existem imensos ecrãs e olhos, mas basicamente nenhuma acção: “the universe is hostile, so impersonal”. No momento em que tentam penetrar uma área extremamente condensada, um raio de fogo abandona o interior da personagem, sai pela sua mão, e atinge-a na região da glândula pineal, simbolicamente associada à evolução da espécie humana.

Estamos, portanto, perante o momento de iluminação da personagem. Os ecrãs desfazem-se, a cigarra morre, o olho gigante, que agora percebemos que simboliza uma visão unilateral do mundo, tomba, e a personagem move-se finalmente, para se libertar deste mundo. Quando a música acaba, observamos novamente aquilo que nos parecia um Sol negro: é na verdade um olho gigante, que paira sobre o mundo.

Tendo em conta a globalidade do trabalho dos Tool, encontro três ideias fundamentais neste vídeo, que me fizeram escolhê-lo como tema para este texto: a crítica a uma sociedade de “ovelhas”, todas igualmente obcecadas com a tragédia alheia; o papel dos média, em particular da televisão, que se aproveita deste fenómeno para criar algo a que gosta de chamar jornalismo; e a necessidade de emancipação de cada indivíduo, que precisa de observar primeiro o seu interior e depois o mundo que o rodeia, não através de um ecrã, mas pelos próprios olhos, pois essa será a única forma de se evoluir.

Espero, ainda, ter conseguido mostrar como uma música que não depende de um vídeo para ter valor artístico pode ser acompanhada por um vídeo que, por sua vez, não depende de uma música para ter também esse valor.

Daniel Sampaio

1este álbum é um bom exemplo de luta contra a pirataria: a sua caixa contém duas lentes estereoscópicas, para observar o artwork que acompanha o álbum.

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Exercício de análise de ‘Neon Bible’ em 1000 palavras

Três aspectos devem ser considerados em todas as análises: a) identificação dos diferentes elementos formais que compõem a obra (num videoclipe, por exemplo, deveriam ter-se em conta a narrativa, a letra da canção, a música, os elementos gráficos, a sintaxe cinematográfica [planos, movimentos de câmara, montagem], as emoções sugeridas, etc.); b) identificação das referências externas à obra (experiências concretas; contextos sociais; práticas culturais; etc.); c) identificação dos modos de presença do(s) meio(s) na própria obra (visibilidade/invisibilidade; remediação de formas de outros meios; paródia de outras obras; etc.).

Considerado enquanto objecto digital, sublinho desde logo o aspecto central desta obra: trata-se de uma obra programada interactiva, cujo decorrer permite um conjunto de intervenções do leitor/espectador realizadas através de movimentos ou cliques do cursor. Nessa medida, a presença do meio digital encontra-se na produção (captação de imagem com câmara digital, edição digital da imagem e do som, programação das animações dos diversos elementos recorrendo ao código ‘ActionScript’, etc.), na distribuição (alojamento num servidor, para acesso remoto em linha, com o URL http://www.beonlineb.com/click_around.html) e na recepção (execução da obra no computador local do utilizador, com recurso a um navegador web – Explorer, Firefox, Safari, etc. –, a um ‘plug-in’ do programa Flash que permite executar o áudio e a animação da imagem, e as demais configurações do sistema operativo).

A nível formal, refira-se, em primeiro lugar, a natureza minimal e modular dos elementos visuais, que funcionam quase como elementos autónomos (rosto, duas mãos, olhos, cone de luz, chamas, macã vermelha, maçã verde, quatro cartas de jogar com um símbolo diferente em cada uma das faces, versos da letra da canção, sombra ou linha de água que percorre o ecrã de cima para baixo e de baixo para cima), dispostos sobre um fundo preto. Em segundo lugar, destaca-se a possibilidade de gerar pequenas modificações em cada um dos objectos ao mover ou ao clicar o rato sobre os pontos activos: clicar sobre as costas das mãos, na sequência inicial, pode fazer com que (a) revelem uma maçã (ora à esquerda, ora à direita), (b) se movam agitadamente ou (c) surjam com as palmas para cima; na sequência final, o clique sobre cada uma das mãos faz com que estas se desloquem para agarrar e apagar as chamas que estão no lado direito do ecrã. Refira-se ainda a deslocação do rosto e das mãos ora para uma posição de perfil no lado esquerdo do ecrã, ora para a posição frontal inicial. Refiram-se ainda mais três comportamentos interactivos: o surgimento inicial de um cone de luz sobre o rosto ou sobre as mãos quando se move o cursor do rato; a possibilidade de virar as quatro cartas que aparecem na sequência intermédia do vídeo; e o aparecimento de uma forma escrita do verso que está a ser cantado no instante em que o cursor se move sobre os olhos, fazendo desaparecer o resto do rosto ao mesmo tempo. Como se vê, a base de dados dos objectos digitais que compõem o videoclipe permite ao leitor/espectador uma espécie de jogo combinatório com os seus elementos. Refira-se ainda o desenho das letras do título na cortina inicial (a sugerir a oscilação de luz dos filmes mudos a preto e branco, ou das próprias luzes de néon) e o seu aparecimento no corpo do vídeo como letras oscilantes.

De que fala este vídeo? Para percebermos as suas referências externas é necessário prestar atenção à letra e à relação da letra com as imagens e com a narrativa cinemática. A letra é composta por três estrofes e um refrão:

Estrofe 1
A vial of hope and a vial of pain,
In the light they both looked the same.
Poured them out on into the world,
On every boy and every girl singing

Estrofe 2
Take the poison of your age
Don’t lick your fingers when you turn the page,
What I know is what you know is right
In the city it’s the only light.

Estrofe 3
Oh God! well look at you now!
Oh! you lost it, but you don’t know how!
In the light of a golden calf,
Oh God! I had to laugh!

Refrão
It’s the Neon Bible, the Neon Bible
Not much chance for survival,
If the Neon Bible is right.

De facto, neste videoclipe a imagem não é mera ilustração da letra – ela serve antes para tornar mais densas as referências crípticas da letra. Reconhecemos, por exemplo, a presença do tema da prestidigitação (através do modo de presença das mãos e das cartas, em particular) e do tema da ocultação/revelação do real. Ora a letra parece descrever precisamente os próprios actos de interpretação como modos de dar sentido à experiência e aos sinais do mundo: a Bíblia de Néon parece ser uma descrição da experiência do mundo urbano e da dificuldade de descodificação ou de leitura dos seus sinais. O narrador da letra projecta nesse universo um conjunto de referências bíblicas (como a alusão aos falsos ídolos – episódio do bezerro de ouro no Livro do Êxodo) e parece sugerir essa dificuldade de interpretar o mundo. A referência a ‘poison of your age’ e a um certo destino apocalíptico (‘not much chance for survival’)  mantêm a sua natureza críptica e oracular. A forma elíptica do texto da canção e a forma elíptica da animação contida no vídeo acentuam a ambiguidade dos sinais e o mistério da decifração desses sinais. Nas três ocorrências da palavra ‘light’, que representam modos diversos de presença da luz (luz natural, conhecimento, luz divina), parece estar concentrada a simbologia da video-canção.

A presença do meio pode ser considerada na relação com outros meios e na relação com o próprio meio digital. Parece haver, pelo menos no início, uma espécie de evocação do filme a preto e branco, conseguida sobretudo através do desenho das letras iniciais e também através da iluminação das letras e dos objectos. Embora o género do videoclipe musical se caracterize frequentemente pelo predomínio da velocidade da montagem sobre a duração do plano (isto é, pelo predomínio da justaposição de múltiplos planos e sequências muito breves), neste caso temos sobretudo dois planos contínuos (frontal e lateral). A visibilidade do meio digital está justamente na organização topográfica e hipermédia do vídeo como um conjunto de elementos discretos recombináveis. Ao decompor a obra em elementos que o leitor pode percorrer individualmente, Vincent Morisset cria uma simulação do acto de leitura e de decifração (que a letra refere) no acto de interacção com os diversos objectos. A possibilidade de fazer aparecer pequenas animações dentro da sequência pré-definida, sem com isso interferir na sequência da canção, implica também tornar mais densa a relação entre letra, música e vídeo digital.

MP_14_04_2010


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