Tool – Vicarious (análise do vídeo)

Apesar de não me encontrar em avaliação contínua, o videoclip mostrado na última aula fez-me pensar em aproveitar um dos temas para o trabalho a realizar, e escrever um texto um pouco mais longo do que o habitual sobre um outro vídeo que considero bastante interessante.

O surgimento do canal MTV nos anos 80 foi a principal causa da proliferação dos videoclips, pois permitiu a divulgação de bandas musicais através de um meio de comunicação direccionado para a imagem, e não para o som. Várias bandas aproveitaram para divulgar a sua imagem deste modo, aparecendo nos vídeos a tocar a sua música; outros artistas, sem olhar a limitações financeiras, conseguiram elevar o videoclip ao estatuto de forma de arte. Michael Jackson é considerado o grande responsável por esse desenvolvimento e, de facto, quem consegue esquecer os vídeos de Thriller, Beat It ou Billie Jean?

Porém, mesmo Michael Jackson, que criava vídeos nos quais apresentava a história presente na letra da música, incluía-se a ele próprio como principal actor. Isto prova que a sua música e a sua imagem permaneciam indissociáveis.

Houve algumas bandas que aproveitaram a tecnologia para se libertarem desse costume. Já em 1985, os Dire Straits criaram um vídeo para a sua música Money for Nothing que fazia uso de imagens geradas a computador. A nós parecem-nos amadoras e antiquadas, é certo, mas na época foi uma inovação. Os The Prodigy criaram em 1993 um vídeo para o seu single One Love no qual o cenário inteiro era gerado a computador. Bandas como os Radiohead (com Paranoid Android) ou Gorillaz (Clint Eastwood, entre muitos outros vídeos) apresentaram as suas músicas com um acompanhamento visual no qual os músicos não apareciam, e gozaram na mesma de grande sucesso. O vídeo de que pretendo falar combina estes dois elementos.

Os Tool são uma banda conhecida não só pelas suas músicas, mas também pela sua despreocupação em promover a sua imagem enquanto pessoas (que, sublinhe-se, difere da imagem como músicos): raramente dão entrevistas, e a organização dos eventos onde tocam nunca está autorizada a divulgar vídeos, por vezes até mesmo fotografias, dos seus concertos. Acreditam que o jogo de luzes e de animações que apresentam só pode ser verdadeiramente apreciado ao vivo, e que não tem sentido mostrá-lo num ecrã. Alguns exemplos da complexidade do seu espectáculo dão-nos uma ideia do porquê de tal afirmação:

Foto 1

Foto 2

Foto 3

O primeiro single do seu álbum 10,000 Days1 , de 2006, chama-se Vicarious. É também o primeiro vídeo da banda feito inteiramente a computador, fruto de uma colaboração entre o guitarrista e artista plástico Adam Jones, o artista Chet Zar e o pintor Alex Grey.

Muito se pode dizer sobre esta criação dos Tool. A música contém apenas uma bateria, uma guitarra e um baixo eléctricos, e um vocalista. É fácil constatar que os instrumentos de cordas utilizam bastante distorção, além de outros efeitos (que podem ser adicionados durante a gravação no estúdio, através de pedais próprios para o efeito e controlados pelos músicos), e que tanto a bateria como a voz encontram-se bastante comprimidas, para criar um som mais “seco”. Escutando atentamente, reparamos ainda em alguns sons modificados ou adicionados já a computador, como alguns “jogos” com o volume e a panorâmica do som da guitarra, ou a voz, quase inaudível, de um repórter de jornalismo radiofónico a narrar o mesmo que o vocalista canta, no minuto 2:10, entre outros exemplos. Porém, como este não é um texto de crítica musical, não pretendo desenvolver mais este campo.

Um aspecto curioso é o facto de a música durar cerca de sete minutos, enquanto que o vídeo dura perto de nove. A diferença deve-se a um início com sons ambientais, que pretendem criar desde logo uma certa atmosfera, e um final que pretende demonstrar o desfecho desta história.

Nos primeiros segundos não conseguimos compreender exactamente aquilo que estamos a ver. Apenas percebemos que são imagens geradas a computador, ou CGI, na sigla inglesa. Só quando a música começa é que percebemos que vimos o interior sombrio de uma personagem, e a acção começa com o movimento de duas criaturas semelhantes a vermes, que saem dos olhos dela. Já aqui ficamos sujeitos à subjectividade interpretativa, visto que ninguém poderá dizer ao certo o que esses vermes representam. Pessoalmente, encaro-os como uma representação física da visão e dos interesses da personagem.

No momento em que a intensidade da música aumenta, surge um Sol negro a pairar sobre um deserto árido, seguido de vários planos da personagem da música. Ela não tem linhas bem definidas, é transparente, e falta-lhe tanto um coração como um cérebro. Encontra-se praticamente incapaz de se mover, com os pés colados ao chão mesmo quando observa um enorme olho a aproximar-se. A adrenalina fá-lo tremer, mas pouco depois esboça um sorriso. Tal como o vocalista diz pouco antes, “tragedy thrills me”.

De seguida, são-nos apresentadas umas caixas transparentes a flutuar à frente da personagem. Captam de imediato o interesse dela, e voltamos a ver os vermes a espreitar pelas pupilas. Quando duas caixas se tocam, surge o brilho azul típico dos ecrãs, pelo que podemos interpretá-las como sendo televisões.

Ouvimos então o vocalista a dizer “I need to watch things die/ From a distance / Vicariously, I live while the whole world dies”, ao mesmo tempo que aparece na imagem um insecto que me parece ser uma cigarra. Fico mais seguro da minha opinião devido ao facto de esta personagem, este telespectador, preferir ficar a observar o que o rodeia em vez de se mexer, tal como a cigarra na famosa fábula de Esopo. Ao olhar atentamente para os ecrãs à sua frente a fragmentarem-se, entra num estado de transe, e os vermes abandonam o seu corpo por alguns momentos antes de regressarem ao seu interior.

Com novos ecrãs à sua frente, o Telespectador olha para várias personagens esbatidas, todas semelhantes a ele próprio. A cigarra, entretanto, aproxima-se novamente dele, e das suas costas “nasce” outro olho. Numa questão de segundos, vemos o enorme olho do início do vídeo a aproximar-se, e a personagem principal a cair. Enquanto está no chão, ouvem-se de novo relatos de notícias, e vê-se uma criança a nascer dentro do seu crânio. Interpreto isso como uma pequena brincadeira com o termo inglês brainchild, deixando prever uma mudança na história a partir deste momento.

Deitada no chão, a personagem nada pode fazer a não ser olhar para o seu interior. Começa por observar um mundo curioso (baseado na pintura Net of Being de Alex Grey), mas repetido até à exaustão. Os vermes arrastam a personagem por este mundo, no qual existem imensos ecrãs e olhos, mas basicamente nenhuma acção: “the universe is hostile, so impersonal”. No momento em que tentam penetrar uma área extremamente condensada, um raio de fogo abandona o interior da personagem, sai pela sua mão, e atinge-a na região da glândula pineal, simbolicamente associada à evolução da espécie humana.

Estamos, portanto, perante o momento de iluminação da personagem. Os ecrãs desfazem-se, a cigarra morre, o olho gigante, que agora percebemos que simboliza uma visão unilateral do mundo, tomba, e a personagem move-se finalmente, para se libertar deste mundo. Quando a música acaba, observamos novamente aquilo que nos parecia um Sol negro: é na verdade um olho gigante, que paira sobre o mundo.

Tendo em conta a globalidade do trabalho dos Tool, encontro três ideias fundamentais neste vídeo, que me fizeram escolhê-lo como tema para este texto: a crítica a uma sociedade de “ovelhas”, todas igualmente obcecadas com a tragédia alheia; o papel dos média, em particular da televisão, que se aproveita deste fenómeno para criar algo a que gosta de chamar jornalismo; e a necessidade de emancipação de cada indivíduo, que precisa de observar primeiro o seu interior e depois o mundo que o rodeia, não através de um ecrã, mas pelos próprios olhos, pois essa será a única forma de se evoluir.

Espero, ainda, ter conseguido mostrar como uma música que não depende de um vídeo para ter valor artístico pode ser acompanhada por um vídeo que, por sua vez, não depende de uma música para ter também esse valor.

Daniel Sampaio

1este álbum é um bom exemplo de luta contra a pirataria: a sua caixa contém duas lentes estereoscópicas, para observar o artwork que acompanha o álbum.

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