A música e os novos media

Com o aparecimento de novo software dedicado ao som, a produção musical para além de mudar em estilo, mudou principalmente em quantidade. Hoje em dia a produção de música é gigante. Com programas como o finale, qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento de teoria musical pode compor para a sua própria orquestra. O programa apresenta-nos uma folha de partituras ao nosso gosto que pode ir desde uma orquestra sinfónica a um grupo de blues. Temos a liberdade de escrever, ouvir e rescrever a nossa própria sinfonia. Podemos imaginar como seria se compositores como Mozart ou Beethoven tivessem acesso a tecnologia como esta.

Para além deste há programas como o Sownd Forge que nos permitem gravar instrumentos, misturá-los e editá-los, tudo isto em tempo real. É então possível a uma banda de garagem, por exemplo, editar a sua música a custos muitíssimo reduzidos.

Como vimos a música pode, hoje em dia, ser produzida por qualquer pessoa que tenha interesse pela matéria. Só requer um bom microfone, um bom interface e um bom computador. Mas para além disso, o mais fantástico é que, com a Web 2.0 a produção caseira de música pode ser gratuitamente divulgada a nível mundial. Um dos meios mais conhecidos de divulgação de música online é o MySpace.

O MySpace, é o novo cartão profissional de qualquer banda musical. Desde uma banda de garagem aos RollingStones praticamente todas as pessoas que fazem música com intenção comercial têm MySpace. Através do site é possível postar texto, fotos, vídeos e músicas da banda. É possível também adicionar outras bandas ao site criando assim links que as dão a conhecer aos visitantes do MySpace de um grupo, mais grupos idênticos dos quais poderão vir a gostar.

Mas nem tudo são rosas na produção barata e em massa da música. Há algumas décadas atrás, quem queria ouvir música, ou a fazia, ou pagava a quem a fizesse. Não havia dispositivos que reproduzissem música quando se queria. Hoje em dia estamos sob um bombardeamento musical constante. Quer queiramos quer não, ouvimos música o dia todo. Quando acordamos o nosso despertador presenteia-nos com música. Quando viajamos de carro temos música. O mesmo se passa quando vamos ao centro comercial, ou ao cabeleireiro e até algumas ruas têm música ambiente. Quando o meio envolvente não tem música, sacamos do nosso minúsculo leitor de Mp3 e temos em nossa posse algumas dezenas de horas de música. Ora, esta overdose de música faz com que haja uma desvalorização da mesma. Afinal, só damos valor ao que não temos…

Os ouvintes de música modernos, muito ao contrario dos ouvintes de à um século atrás, ouvem música sem atenção. É como se a vida de um humano do século XXI tivesse a sua banda sonora particular e constante. Algumas pessoas nem dão conta dos instrumentos que estão a ouvir. Ora, isto faz com que haja uma menor preocupação estética por parte de quem compõe a música comercial actual. Na verdade, grande parte da música que ouvimos hoje é baseada na mesma progressão (sucessão de acordes).

O vídeo que vimos (uma paródia) critica um factor bem presente na composição actual. Todos fazem mais do mesmo no ramo da música. O pior, é que como nos tornámos ouvintes desatentos nem nos apercebemos disso.

Como se não bastasse não prestarmos atenção ao que ouvimos, o rácio dos sentidos também sofreu alterações relativamente à música. É estranho estar a afirmar que se alterou o rácio nos nossos sentidos relativamente a um media que só utiliza um deles, mas o que fez com que se alterasse foi a constante presença de vídeos a acompanhar a música. Chega a um ponto em que podemos questionar o que é que acompanha o quê. Será que o videoclip é a moldura da música ou é a música, a moldura do vídeo?

A música comercial vive de repetições. O músico que quer vender tem uma receita fácil: faz dois versos, alternados com um refrão que é repetido pelo menos três vezes no final (normalmente em fade out) e algumas vezes faz o que se chama uma ponte (uma alteração ao tema principal) para não maçar o ouvinte. Este tipo de música torna-se cansativo, mas com a presença de um vídeo o cansaço é anulado. O vídeo é então, não só um complemento à música, mas também uma distracção da monotonia da mesma. Será tudo isto favorável ao futuro da música?

A desvalorização da música é também visível na própria compra. Com a facilidade de distribuição online e o aparecimento do Mp3 já não precisamos de comprar música para a poder ouvir. Temos que ter consciência da raridade de pessoas que resistem ao download ilegal. Chegámos a um ponto em que já não são poucas as bandas que disponibilizam a sua música gratuitamente na internet dizendo a quem a baixa que se quiser pode deixar um donativo. Tendo então a possibilidade de obter gratuitamente música, quando compramos um CD estamos a comprar música, ou o plástico e o design da capa? Há quem chegue ao ponto de ir ouvir música online para decidir se compra ou não essa mesma música. Não estou a criticar de maneira nenhuma quem compra CDs, muito pelo contrário. A minha pergunta é: se o comprador já tem a música porque é que compra o CD? É para comprar a música? Para não se sentir mal a ouvir algo roubado? Ou para ter algo físico que não seja só informação codificada?

Emanuel Taborda

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