A Espiritualidade e a Internet

Grosseiramente, podemos dizer que a espiritualidade é a actividade através da qual se desenvolve o espírito; por espírito, podemos entender a fracção menos densa e corpórea da nossa existência, aquela que para os mais cépticos provém da mente e contempla a razão e as emoções. Será sempre um percurso de aperfeiçoamento, com objectivos claros de aumento dos níveis de consciência e de sabedoria ou de comunhão com Deus ou com a Criação, tal como é descrito por Platão na Alegoria da Caverna (in livro VII da República) ou por Teresa de Avila nos seus Textos do Sec XVIII.

As várias religiões encaram a espiritualidade como uma experiência mística e na realidade numa visão mais tradicional, equaciona-se maioritariamente a espiritualidade num contexto religioso, ou seja num quadro cultural que de forma simbólica relaciona a humanidade com o transcendente mas também com os valores morais.   

Esta busca de um significado maior foi definida pelos homens das Ciências Sociais como a busca do “sagrado” e nesse no sentido lato, é uma referência constante em cada contexto cultural cuja sequência constitui afinal a história da Humanidade.

No Ocidente e acompanhando o declínio recente e crescente das religiões dominantes, assistiu-se nas últimas décadas ao advento do movimento “New Age”. De génese fundamentalmente espiritual é uma espécie de “filho bastardo” dos movimentos elitistas e esotéricos muito populares em determinados círculos intelectuais, na transição entre os séculos XIX e XX na Europa, cruzados com velhas superstições populares vindas de todos os cantos do globo.

Constitui-se assim como uma espécie de cocktail místico, uma fusão de ensinos metafísicos  de influência oriental, de linhas teológicas, de crenças espiritualistas,  animistas e paracientíficas, com uma proposta de um novo modelo de consciência moral, psicológica e social, que propõe a integração e simbiose com o meio envolvente, a Natureza e até o Cosmos. Ou seja possui uma matriz de uma abrangência quase inimaginável que opera afinal numa convergência inesperada, na procura de um modelo social ecológico onde o reconhecimento individual é orientado para uma ideia espiritual de comunidade harmonizada com o ambiente cosmológico envolvente.

O espaço virtual proporcionado pela Internet surgiu como o meio natural de divulgação e crescimento desta nova busca do sagrado; respeita a individualidade mas oferece uma interacção cómoda; a multiplicidade de meios proporciona locais de encontro ideais para os grupos e subgrupos realizarem trocas de experiências, aprendizagens. De facto o movimento New Age é uma teia muitíssimo ramificada de pequenas células autónomas, ligadas entre si pela temática genérica que abordam e pelo fluxo de informação que circula pela Internet, da qual em última análise, dependem. Cresceu de acordo com as características intrínsecas desta forma de relacionamento virtual e foi por ela funcionalmente modelado.

Assim as pesquisas que efectuamos na Internet, devolvem-nos uma multiplicidade de possibilidades e “produtos” de tal forma variadas que apenas para aqueles que aí chegam com algumas ideias definidas sobre aquilo que procuram e com critérios bem estabelecidos, essas pesquisas se tornam de facto objectivas.

Podemos concluir que o movimento New Age tal qual ele existe hoje, é um produto exclusivo da Internet; que se institui gradualmente como o padrão de busca pelo sagrado da sociedade global dos nossos tempos. Como em todas as áreas, o verdadeiro e genuíno convivem pacificamente com o embuste e o mercantil e é deixada a cada indivíduo a responsabilidade integral pela sua escolha.

Maria Pires

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