Mão Autonóma

A máquina de escrever foi engolida pelos dispositivos digitais.

Penso que a escrita digital veio tirar significado à escrita, no seu conceito original. Nós nos tornámos independentes da máquina de escrever, no momento em que este instrumento foi substituído pelos processadores de texto, o teclado, que terá grande impacto nos modelos da escrita convencional.

Ao assistir o vídeo “Hands and Writings”, de Sarah J. Arroyo, apercebi-me de certas condições e consequências, onde a escrita digital nos afecta. Uma das vantagens desta substituição se deve ao facto do computador/teclado ser mais eficiente, e mais rápido, onde temos as portas para a comunicação e o conhecimento abertas. Mas é difícil sentirmos a necessidade de escrever uma carta a alguém, ou a uma entidade à mão, tal situação é rara acontecer, por ser muito mais práctico o computador. A questão aqui colocada é ao escrever no teclado, e não à mão, se se nos modifica como indivíduos, como seres criadores, e neste aspecto concordo com a afirmação de Kittler “ Para mecanizar a escrita, a nossa cultura teve de redefinir os seus valores ”, pois ao transpor a escrita para um suporte digital, tivemos de criar um novo universo de linguagem, de conceitos, em que temos ao nosso dispor um mundo de comunicação a explorar.

Um dos problemas que este novo mundo criou foi a banalização de certas palavras, de certos conceitos, como por exemplo a amizade, em termos virtuais, pois as intenções modificaram-se. Torna-se o discurso mais informal, mais descuidado, e talvez mais repetitivo. Há um certo distanciamento da pessoa e da intenção do seu discurso. A comunicação devia, supostamente, ser uma extensão do ser, como Nietzsche afirma “ As nossas ferramentas de escrita, não só trabalham no nosso pensamento, mas também é algo como eu”.

Outra questão levantada no vídeo, é o sentido da escrita no ‘teclado’, evocar comunidades de conhecimento, em que nada está protegido, todos podem ler, e onde permanece a necessidade de partilhar conhecimento, mas também a necessidade de partilhar experiências, estados de espírito, principalmente em redes sociais, que te fazem sentir num ambiente de comunidade. Reichelt diz “Ambiente Intimo: sensação de conexão que nós temos, ao participar nas ferramentas sociais online”. Até mesmo o conceito de intimidade tem de ser redefinido.

Sendo assim, concordo inteiramente quando Kittler diz “Armazenamentos tecnológicos para escrita, imagem, e som, só poderiam ser desenvolvidos, após o colapso deste sistema ”, pois, embora a tecnologia seja produtiva, útil, funcional, práctica, a acumulação das tecnologias para a escrita, a imagem, o som, só poderiam evoluir independentes do sistema.

Sofia Maia

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