Memórias de Registro e manipulação temporal

Tema de escrita: o que significou registrar a voz humana pela primeira vez? O que acontece quando se grava o som?

A história da vida humana foi acumulada ao longo de centenas de anos através de memórias de registro que nos permitiram ascender e a conhecer uma realidade existente em um tempo em que não estivemos presentes. Os diferentes tipos de registros encontrados pelo homem como forma de perpetuar um momento seja pela via oral, registros escritos, pinturas ou mais tarde, com o advento das Novas Medias (a fotografia como captação da imagem no presente, o cinema como captação e reprodução do movimento pela manipulação da imagem sequenciada, ou as técnicas de gravação e reprodução sonora como uma extensão do falar e ouvir),permitiram o registro aprimorado do tempo e sua manipulação.

Desde a invenção do Fonoautografo em 1857 pelo francês Leon Scott, o registro sonoro torna-se possível. Mas é somente em 1887, com Tomas Édison que é criado (ou desenvolvido) o Fonógrafo, que diferentemente da invenção de Scott ,que apenas registrava e guardava em um espaço físico o som captado no ambiente, permitia também a reprodução desse mesmo som.

O registro sonoro passa então a proporcionar a manipulação do tempo e do espaço no que diz respeito ao som. Ouvir um som pela primeira vez não foi apenas a audição de um registro sonoro, mas a oportunidade de exploração e manipulação das propriedades do som, seja ele musical, textual ou de qualquer espécie.

O impacto que esse registro\reprodução causou em seus primeiros ouvintes, foi provavelmente semelhante a passagem descrita nas “Palavras degeladas”, onde o escritor francês François Rabelais conta, no Quarto Livro, nos capítulos LV e LVI, as aventuras de Pantagruel ( um herói de inspiração medieval, filho de um gigante, o Gargântua, que parte em diferentes aventuras acompanhado de seu amigo Panurge).Pantagruel e seus amigos estão em um barco em meio a uma atmosfera gélida quando ele desperta a atenção de todos para a PRESENÇA de sons:

“Camaradas, não ouvis nada? Me semelha que ouço algumas

gentes falantes no ar, e não vejo, todavia, ninguém ali.”

Nessa passagem da obra , tanto Pantagruel como seus amigos, tem um contato direto com os sons da batalha ocorrida naquele mesmo local no começo do inverno, onde se congelaram todos os sons da guerra, os ruídos e fragores do combate que com o término dos tempos frios degelavam-se e tornavam-se audíveis.

 “O que formidavelmente nos espantou, e não sem razão, a ninguém vendo

e, no entanto, ouvindo vozes e sons muito diversos de homens, de

fêmeas, de infantes, de cavalos”

Com o registro sonoro de certa maneira, pode-se garantir a presença do corpo produtor do som, a medida que reproduz-se a frequência sonora tal como fora produzida (ou de forma próxima), principalmente hoje em dia em que as tecnologias de captação( ou como na historia de Rabelais, o congelamento dos sons), e reprodução (o processo de degelo)foram bastante aprimoradas.

É bem provável que seja esse o sentimento despertado naqueles que presenciaram o primeiro registro sonoro :“Espanto”.Isso por terem a oportunidade de entrar em contato com sons de diversas naturezas em tempos e lugres distintos ao qual foram produzidos, e sem necessariamente terem um contato direto a fonte produtora que se faz presente por sua reprodução.

Amanda Gomes

Tradução das citações por Antônio Lázaro de Almeida Prado (http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=1473


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