A Máquina do Tempo

Hoje viajo no tempo e no espaço.

Saio de casa, procurando no bolso as chaves da minha novíssima aquisição, a máquina do tempo Speedlightning 3001, obviamente comprada em segunda mão, e diga-se de passagem, está para ali muito mal estacionada.

Entro no pequeno cubículo prateado, e defino como destino: os novos média do século XIX. Sim, porque a máquina é dotada de uma super inteligência, direccionando a viagem para o destino certo!

Passado alguns segundos espaciais, dou por mim numa ampla praça, onde se reunia um vasto grupo de pessoas em torno de um vendedor de jornais. Estão na maioria todos muito exaltados, atiram palavras ao ar, como que procurando uma resposta concreta e imediata. “Será isto possível? Estarei a ler bem? Uma máquina que grava e reproduz som? Não, é impossível! Ou será?”. “É obra do diabo, do diabo!” diziam os mais crentes, ou os descrentes, “Não existem meios para que tal seja possível!”. Já os interessados especulavam, “Será lançado para venda ao público? Para quando?”.

Se eu realmente tivesse uma máquina do tempo, poderia facilmente deslocar-me ao encontro do Sr. Edison, e congratula-lo pelo grande contributo aos seus contemporâneos e às futuras gerações pela sua mais recente invenção, explicando-lhe que o seu fonógrafo seria o grande impulsionador de um mundo tecnologicamente desenvolvido.

Voltando agora a uma escrita um pouco mais realista,  não será difícil imaginar o choque e o entusiasmo dos que presenciaram o nascer de um novo conceito: a fonografia, a escrita pelo som.

Um conceito que foi rapidamente ultrapassado por outros sentidos: a visão, com a fotografia (escrita com luz) e a visão agregada ao movimento, falo portanto da cinematografia (escrita da imagem em movimento). No entanto, o conceito fonográfico não foi sem dúvida esquecido, e séculos depois é ainda utilizado, ainda que através de meios bastante mais desenvolvidos.

Oferecendo um leque variado de funções, a fonografia possibilita-nos, por exemplo, a simples gravação de som e a sua própria reprodução, seja para puro desfruto pessoal do acto de ouvir música, ou para uma documentação sonora de algo que deve ser preservado, ou difusão de informação de qualquer género.

Assim, também funcionam a fotografia e a cinematografia, ainda que num contexto diferente, pois tratam da captação de imagens e movimentos, mas que igualmente servem como utensílio de documentação da vida humana, como para seu próprio lazer.

Estes três meios possibilitaram às gerações seguintes, a libertação das amarras de um mundo bidimensional, abrindo os horizontes à compreensão e utilização dos  sentidos, que desde então estão activos e em constante mutação.

Contribuindo com um exemplo pessoal, posso dizer que até há bem pouco tempo atrás, as únicas referências que tinha dos meus bisavós paternos eram relatos de memórias por parte dos meus familiares, agregados a testemunhos fotográficos, que sem eles ser-me-ia impossível saber, simplesmente, como se aparentavam. E heis que surge uma gravação, um quanto danificada devido ao tempo e aos meios de preservação, que me permitiu pela primeira vez escutar o som das suas vozes, a maneira única de como se expressavam, as suas reflexões sobre os tempos em que viviam, a maneira como cantavam e riam com os seus, num simples encontro familiar e que era feito de tempos a tempos.

Foi como se estivessem do outro lado da sala, criticando a situação política e social da altura, como se eu própria tivesse voltado a entrar na dita máquina do tempo e tivesse viajado até ao mês de Dezembro de 1974.

Fim da viagem.

Inês Arromba

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