A “verdadeira pureza” da escrita perdeu-se com o teclado!…

Tema de escrita: O que significou deixar de escrever à mão? O que acontece quando se escreve num teclado?

Sei que já lá vão alguns anos, mas ainda sou do tempo em que a escrita era, quase totalmente, feita à mão. As novas tecnologias ainda estavam no “segredo dos Deuses”. Sou também do tempo da máquina de escrever, tanto da manual como da eléctrica. Ambas utilizei como ferramentas de trabalho.

Relembro que, quando cumpri o serviço militar, tive de escrever à máquina longas listas de revistas da especialidade que eram assinadas pela Chefia das Transmissões.

Sei, portanto, as diferenças de escrever à mão e à máquina. Quando escrevia à mão, havia uma espécie de pureza emocional naquilo que escrevia. Chamar-lhe-lhe-ia uma “verdadeira pureza”. Tudo o que escrevia vinha de dentro de mim, do meu pensamento, da minha “alma” que, depois, era exteriorizado no papel. Havia uma ligação entre o que escrevia e as ideias que transmitia. O erro ficava a descoberto quando errava uma palavra ou uma ideia, riscando-as no papel, caso não quissesse escreve tudo de novo. Errava menos vezes. Poderia andar à procura das ideias, mas não das letras.

Esse sentimento que eu genuinamente sentia de “verdadeira pureza”, perdeu-se quando comecei a escrever à máquina ou no teclado de um computador. Digamos que o teclado, para falar genericamente, leva-nos a dar mais erros, pois eles podem ser apagados e reescritos. Escreve-se mais rápido e, talvez, seja por isso que o erro surja mais depressa, porque também sabemos que o podemos voltar a emendar sem que fique qualquer rasura do mesmo.

Com a máquina de escrever há uma despersonalização da escrita. A escrita na máquina desfaz a ligação emocional ao indivíduo que escreve à mão. Digamos que ao escever à mão deixamos de ser o “eu individualmente” e passamos a ser o “eu colectivo”, porque todos escrevemos da mesma maneira. Deixa de haver a nossa própria marca na escrita – perdemos, digamos assim, a nossa própria identidade, que está na maneira de escrever, na forma como escrevemos e a nossa própria caligrafia dilui-se com o tempo – enfim, deixamos de ser nós e passamos a ser um outro qualquer, porque todos escrevemos com a mesma ferramenta que é o teclado. Perdeu-se a genuinidade e a diferenciação. Como diria Friedrich Kittler “a máquina de escrever acabou com a alma humana”. 

Quando ao comentário ao vídeo de Sarah J. Arroyo, Hands and Writing (2007), diria que vai no sentido daquilo que escrevi anteriormente, ou seja, na evolução da escrita à mão para a escrita no teclado, embora acrescente mais um detalhe, devido à readaptação das mãos, ou seja, devido à escrita, sobretudo nos telemóveis, em que já não é necessário utilizar todos os dedos das mãos no processo de escrita, bastando para tal, utilizar essencialmente, os dedos polegares, por serem eles os que melhor se adaptam ao espaço físico, minimalista, que é o teclado deste novo média.

Pedro Oliveira


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