Da idade média à idade da media

Longe vão os tempos em que apenas se poderia ouvir música ao vivo e o teatro não se preocupava com o cinema. Hoje, posso estar a escrever este texto enquanto ouço música ou vejo televisão (actividade também apelidada de procrastinação…)

Com a possibilidade de captura de imagem e de som, muita coisa mudou. Não só ajudou a difundir a música, como também abriu novas possibilidades de criação musical. É possível ser se um one-man-band com a simples ajuda de um computador. É possível criar-se vários efeitos harmónicos com pedais de efeitos, que gravam determinada frase musical, repetindo-a até ao infinito, ou, quem sabe, pôr a dar um daqueles vídeos que se repetem vezes sem conta ao longo de dez horas que se encontram em cantos obscuros do youtube no volume máximo enquanto se vai passear, para chatear o vizinho do andar de cima que na noite passada não nos deixou dormir porque se lembrou de ver a repetição do jogo do Benfica, que tinha deixado a gravar.

É possível ao mais comum dos mortais gravar um vídeo e colocar na Internet (mesmo que isso signifique dar a conhecer a toda a gente as suas figuras tristes), enquanto que há uns tempos atrás, ainda andavam os homens das cavernas a brincar com sombras nas paredes.

E claro, devido a estas revoluções tecnológicas ocorridas há relativamente pouco tempo, assistimos à criação de novos meios de entretenimento, e hoje em dia, mães de todo o mundo podem reclamar que os filhos andam demasiado tempo à frente dos videojogos.

Ora, qual é o papel de toda esta tecnologia nos nossos dias? O que mudou em relação ao passado?

Vamos ver os pontos positivos: O primeiro, e mais óbvio, e já abordado, é a criação de novas formas de expressão artística. Óbvio também: Com a gravação de som e imagem, passou a haver um grande nível de democratização do acesso e criação de arte e entretenimento. Não é preciso pertencer-se a uma elite aristocrática para se poder assistir a uma ópera. Todos o podemos fazer com a Internet. O que também implica que os preços de bilheteira se terão tornado mais acessíveis para poder acompanhar a evolução tecnológica dos tempos modernos. (digo isto por dizer. Sei lá qual é a diferença de preços de um bilhete para a ópera entre a época de Monteverdi e o século XXI). Assim, toda a população tem a capacidade de absorver uma grande quantidade de cultura, o que não seria possível noutros tempos.

Assim, também é (supostamente…) mais fácil para uma pessoa dar a conhecer a sua arte ao mundo.  Aqui estou eu a fazê-lo:

É claro que toda esta acessibilidade não é garantia de sucesso no que quer que seja a área em que alguém esteja interessado. É muito fácil uma pessoa perder-se no meio de tanta informação que existe na Internet. E só porque existe a possibilidade de captura de imagem, não quer dizer que seja reconhecido maior valor cultural naquele filme surrealista de nome esquisito que passou outro dia na RTP2 (cuja existência estou aqui a inventar apenas para dar um exemplo) do que na Casa dos Degredos (ou Segredos, sei lá).

E eis que nesta era informática se levanta uma grande questão: a pirataria. Já era possível copiar e partilhar um vinil de forma caseira há décadas atrás. Hoje em dia é mais fácil do que nunca.

E agora?

Agora o que acontece é o seguinte: A indústria de entretenimento vê-se numa posição bastante incómoda, porque sejam filmes, séries, músicas, telenovelas, livros, etc, qualquer coisa pode ser copiada e partilhada a custo zero. Ao contra-atacar com medidas de protecção da sua propriedade, os utilizadores da Internet que se revêem no sistema de partilha fácil de informação vêem-se numa posição igualmente incómoda, porque vêem a sua liberdade de expressão e acesso à cultura a ser ameaçada.

Quem tem razão?

Na minha opinião, ambos os lados. E nenhum deles.

Se por um lado é compreensível que a indústria queira preservar os seus direitos sobre a propriedade intelectual (quem gostaria de compor arduamente uma música só para o vizinho do Benfica, que por acaso até tem uma banda, ouvir e roubar a ideia, sem sequer dizer obrigadinho?) também é compreensível que as pessoas não se sintam bem em abdicar da liberdade de acesso à cultura, tão dificilmente alcançada através dos séculos. Se por um lado as pessoas com rendimentos baixos não tenham outra maneira de conhecer arte e entretenimento senão através da pirataria, o que aconteceria aos artistas se toda a gente passasse a fazer isso? E quem diz aos artistas, diz às empresas de entretenimento, que apesar de serem, grande parte dos casos, geridas por capitalistas abusivos, estão no seu direito de montar o seu negócio. E se por um lado restringir a liberdade dos utilizadores poderia significar o fim da pirataria (supostamente), a que preço iria isso acontecer? O que aconteceria a toda a dinâmica da Internet? Estaríamos perante uma forma de censura à chinesa? Estará o fantasma do Estado Novo prestes a assombrar-nos outra vez?

Eu não sei como resolver este problema, mas sei que é um problema a ser resolvido, seriamente e com urgência. Penso que, se qualquer um dos lados desta guerra ganhasse completamente, isso traria consequências negativas. Consequências éticas, pragmáticas, económicas, sociais…A única solução que vejo a este problema, e a única solução que vejo que seria moral, lógica e, de maneira geral, justa para ambos os lados, seria a erradicação do dinheiro em que todas as civilizações se assentam. Só assim seria verdadeiramente possível a arte pela arte. Claro que isto traria uma revolução inimaginavelmente drástica à maneira como a sociedade é organizada. Mudanças que não só afectariam a arte e o entretenimento, como também todas as outras profissões. Professores, mecânicos, farmacêuticos, varredores, políticos, marinheiros, traficantes de droga, prostitutas….Todo o sistema se basearia em algo para além do dinheiro, com mais significado. Um sistema, talvez, mais humano e menos materialista.

Bem, eu não me importaria. Um pouco de revolução não faz mal a ninguém.

Mas até lá, à face da sociedade em que actualmente vivemos, fico-me pela neutralidade.


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