Superficialidade da Era digital

Tema de escrita: “De que forma a reprodução técnica altera a natureza e a função social da obra de arte?”

Pensar obra de arte nos dias atuais significa pensar na forma como ascendemos à elas, porque é a forma pelo qual tomamos contato com a obra que influencia nossa percepção e apreciação do objeto artístico.Hoje em dia não precisamos correr o mundo e visitar museus e galerias para ver uma obra que nos interesse, ir as principais salas de espetáculos para ver uma encenação à diversos concertos e apresentações para usufruir das diferentes produções e práticas artísticas que desenvolveram-se no mundo ao longo de séculos de criação.Podemos conhecer um objeto independentemente de sua localização ou época em que fora criado, a medida em que retiramos o objeto de seu tempo e espaço e disponibilizamos em outros canais que mediam esse contato, trazendo até nós esses objetos.

Durante muitos anos os museus serviram como canais que proporcionavam o encontro do homem com as produções artísticas de diferentes tempos e lugares, e já ele, de certa forma,retirava a contextualização das peças que ali se encontram expostas.O individuo que vai até esses espaços tem a oportunidade de estabelecer contato com peças artísticas que ali foram reunidas para essa finalidade, portanto independe da função ou contexto pela qual foi criada, e assim sua significação genuína perde-se.

Hoje, para alem de vermos uma obra de arte apenas como uma peça artística, com valor estético e sujeita a fruição e analise intelectual (independendo muitas vezes do contexto e da motivação que levaram os artistas a produzirem), a exploração da obra tende novamente a ser remodulada, a mediada em que, se por um momento deixamos de ir ao local para o qual a obra fora feita e articulada para irmos á grandes salões que reúnem diferentes peças , hoje nem isso mais tendemos a fazer.Não vamos até o objeto.Ele vem até nós.Com a reprodução técnica das obras de arte temos acesso a produções que sem essa intermediação se calhar jamais conheceríamos.Mas, ao mesmo tempo em que temos á nossa disposição um grande numero de informações e uma proximidade no contato com as obras, é essa mesma proximidade que de certa forma nos afasta da verdadeira matéria.

Considero que os médias possuem e produzem sobre o ser humano um efeito bastante ilusório, que nos afeta em todos os segmentos- nossas relações , forma de ver , pensar e representar o mundo e nossa própria existência.Estamos em constante conectividade mas cada vez mais presos em uma realidade paralela onde o dinheiro, os amigos, as relações tornaram-se virtuais, e vivemos cada vez mais em um mundo pouco concreto mas que recebe efeitos concretos da virtualização.

Nossa relação com a obra de arte através de reproduções é tão frágil quanto qualquer relação do homem da era digital.Nos tornamos superficiais e perdemos a noção de originalidade.Acreditamos apreciar uma obra quando baixamos em nossos computadores os melhores ângulos dos quadros expostos no Louvre, e nossa ingenuidade e falso intelectualismo ainda nos fazem pensar que somos apreciadores da verdadeira obra de arte.Temos contato com a obra de arte tal como é, mas mediada por um meio digital, portanto o que conhecemos das peças do Louvre ( se nunca lá fomos) é na verdade a representação digital de uma obra original.Não conhecemos a matéria, mas seu espectro representado.

E é exatamente pela característica volátil do mundo moderno e pela não concretização das coisas que é reafirmado pela velocidade com que as coisas se propagam, e a facilidade com que os indivíduos têm para chegarem á elas. Podemos assistir a um concerto musical em tempo real e em simultâneo sem que toda a orquestra esteja dentro dos nossos quartos, mas a experiência de estarmos frente a um dispositivo que media essa relação entre a performance e o espectador causa-nos a ilusão de apreciação da obra, enquanto o que presenciamos não é a obra pura e genuína em si mesma, mas a forma como se faz efetivar e representar através de um dispositivo.É uma obra artística enquanto elemento remediado e não enquanto elemento original que efetivamente oferece a possibilidade de exploração bastante diferentes dos que uma remediação digital possa oferecer por mais fidedigna que seja, a medida em que retira sua materialidade.

Amanda Gomes


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