Viver a Arte, sem sair de casa

“De que forma a reprodutibilidade técnica altera a natureza e a função social da obra de arte?”

 

Os nossos antepassados foram deixando ao mundo relíquias únicas que marcavam a contemporaneidade da época através do quão inovador, misterioso ou fabuloso era o carácter da criação. E são essas criações livros ou um simples poema, pinturas, construções, ou tantos outros tipos de obra que complementam esse todo que é a arte.
O “tesouro” é passado de tempos a tempos, cada vez mais cuidadosamente pois a velhice diminui-lhe a resistência e aumenta-lhe o valor. E aí que se torna restrito o toque, a aproximação, a transmissão de mão em mão. Um exemplo: as mais antigas edições de livros como “Os Lusíadas”, não estão ao alcance de todos, podendo quanto muito ser vistos através de uma “caixa” de vidro bem selada; certos locais que foram em tempos construídos para uso religioso, ou apenas para uso comum da população, são hoje centros turísticos, onde se impõem regras para que possamos aceder ao seu interior, e muitas vezes, não podendo usufruir de uma visita completa, pois a maior parte dos locais está selada.
É aqui que se começa por alterar a natureza e a função social das obras.  Luís Vaz de Camões, terá escrito “Os Lusíadas” para que todos lhe tivessem acesso por certo; mas mais fundo ainda, vai o exemplo de tantos edifícios históricos: igrejas e templos que se tornam museus, e isto na melhor das hipóteses, quando não são transformados em algo que foge completamente à sua realidade inicial. E não precisamos de ir muito longe. Basta para isso sair pela porta da nossa faculdade e estamos rodeados destes exemplos.
Um que me cativa bastante, é a Biblioteca Joanina, sem dúvida uma obra de arte, repleta de arte literária no seu interior, uma das maiores relíquias do nosso país. Hoje, não é mais uma Biblioteca. Nós, estudantes não podemos entrar livremente, pegar num livro e lê-lo, ou estudar nas suas magníficas mesas de madeira exótica. E compreende-se: este é um local demasiado precioso para ser destruído, e com 284 anos, está obviamente frágil, assim como os livros que guarda. Mas mais que isso, o seu acesso é muito reservado, para que não se toque em nada. A sua natureza, foi destruída. A Biblioteca que servia para acolher os estudantes de Coimbra na sua sede de conhecimento, fonte de estudo, é agora autenticamente protegida e a sua função social inicial deixou de existir.
Entra então a tecnologia, vigorosa, apresentando soluções. É certo, que não se pode utilizar da mesma forma estas obras, mas a tecnologia torna-lhes o acesso fácil, rápido e um tanto ou quanto, eficaz. É possível fazer download dos Lusíadas na internet, em minutos, não necessitando de recorrer aos livros (nem antigos, nem novos). A essência inicial da escrita, é perdida. O acesso a um livro é cada vez mais fácil e económico, e muito embora a primeira edição de Os Lusíadas esteja avaliada em cerca de 1 milhão de euros, qualquer um pode lê-lo gratuitamente apenas com um computador e ligação à Internet. Mas mais chocante, é a visita virtual aos grandes museus e locais históricos.
Neste site: http://turismodecoimbra.pt/coimbrainteractiva/  é possível “viajar-se” pela cidade de Coimbra e visitar-se o interior de vários monumentos, entre os quais, a referida Joanina. Comodidade? Sim. E também uma excelente dinâmica, em que se expande o conhecimento do nosso país e da nossa riqueza. Contudo, na minha opinião, um atentado à arte presente nas imagens e a função com que foi criada.
A arte deve ser vista de perto, tocada, sentida. Muito embora a tecnologia facilite o acesso de todos a algo que poderá não estar ao seu alcance, acaba por roubar a certas obras a sua essência original e a função com que nasceu.

Ana Vilarinho


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