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Tema de escrita: Qual a dimensão política das tecnologias de comunicação e de informação? 

Refletir sobre a dimensão política das tecnologias de informação e de comunicação (TIC) é, de facto, um exercício tão grande quanto a enormidade delas… Algo bastante complexo, apesar de parecer (e de se fazer parecer) simples. Pensando nesta última ideia, encontro já política em torno do assunto.

Mesmo antes de partir para uma análise muito profunda, penso que, antes de mais, as TIC são elas próprias uma dimensão da política. Usando o pragmatismo que me é característico, passo a enumerar alguns exemplos de meios de informação e comunicação que são propriedade de alguns indivíduos. Ainda que sejam apenas algumas gotas no oceano imenso que é o universo das TIC existentes sob o poder de um pequeno grupo de influência (individual ou grupos), servem para espelhar o estado das coisas.

No Reino Unido, Rupert Murdoch é dono dos jornais The Sun, The Times, e Sunday Times, três dos maiores dali, e detém 39% da Sky, a maior transmissora de televisão paga do país, com 10 milhões de subscritores. Em Itália, Silvio Berlusconi é o maior acionista da maior operadora privada de televisão gratuita, a Mediaset, sendo que o seu irmão é dono do Il Giornale e a sua mulher, dona do Il Foglio, dois dos maiores jornais do país. Em Portugal, o grupo Impresa, de Francisco P. Balsemão, detém a SIC, uma das maiores operadoras de televisão, um dos maiores jornais, o Expresso, assim como várias revistas, sítios web, etc. Ora, a dimensão política destes casos é óbvia: os donos destes média são políticos – primeiros-ministros de dois países e um outro indivíduo com atividade política. A enumeração podia e devia estender-se muito mais para além disto, mas nem tenho espaço nem vontade de me arreliar com a realidade, já que a maior parte dos média são dominados por políticos ou por pessoas ligadas à política.

Afinal, a internet nasceu de uma dimensão política, como ferramenta no mundo dos políticos, um poder. E, apesar de ser verdade que já não é exclusivamente assim, continua a ter uma forte dimensão política e é bastante politizada. Sendo as TIC propriedade dos políticos, parece-me óbvio o que se faz com elas: política.

Aprendi na escola que o nosso mundo tinha encolhido, isto é, que os diferentes lugares do mapa tinham ficado aparentemente mais próximos uns dos outros devido ao desenvolvimento das redes de transportes e comunicações. Isso é verdade, mas não posso deixar de ficar intrigado com a noção de mundo que me é passada pelas TIC em situações de guerra, por exemplo. Eu estou consciente dos conflitos armados que vão havendo por esse mundo fora, mas a maior parte das pessoas não. Elas apenas vão sabendo o que ouvem, vêm ou lêem nas TIC controladas, o que representa uma fração muito pequena da realidade e, quase sempre, um ponto de vista preferencial acerca do assunto. Ora, parece-me evidente que o conteúdo que chega às massas é limado pelo remetente, não esquecendo aquele que é posto de parte porque talvez seja do interesse dos “donos” das TIC. Tudo isso é política. Então, o mundo que, afinal, estará mais pequeno, parece ainda ser muito grande, quando há conflitos armados por vários lugares, que merecem preocupação, parecem ter lugar num lugar longínquo, sem impacto na nossa pacífica vida, pela maneira que nos são relatados.

Exemplos como a Coreia do Norte, onde não há internet disponível à população, ou o Egito, onde se proibiu o Youtube por ter exibido um vídeo ofensivo de cariz religioso, são o reflexo do poder imenso que a internet tem e pode ter.

Metaforizando e sendo um pouco simplista, penso que se pode dizer que se trata de um caso como a escolha entre uma maçã muito saudável, benéfica para a saúde e um chocolate prejudicial. A maior parte das pessoas, confrontada com uma escolha assim, optaria pelo chocolate, pois o prazer de o comer é enorme, mesmo sabendo que é a opção menos acertada para a sua saúde, tendendo a esquecer isso. Claro que haveria sempre alguns que escolheriam a maçã, mas uma minoria: aqueles que o faziam por teimosia ou grande consciência do potencial prejuízo do chocolate perante o benefício da maçã.

É isto que acontece com o mundo das TIC. Os utilizadores usam (e abusam) delas, mesmo estando disponível informação acerca dos seus malefícios e até ser escandalosamente evidente o rol de imoralidades que as rodeiam. E continuam a fazê-lo, pois é demasiado incómodo, trabalhoso ou cansativo preocuparem-se com esses aspetos. Isso poderia ser alterado, alertando as pessoas acerca dos aspetos positivos e negativos de cada escolha e consciencializando-as sobre o papel e importência das TIC. Mas isso não se faz… Porque quem tem o maior poder de o fazer não está interessado nisso, pois talvez tenha uma fábrica de chocolates…Fica-se apenas pela aceitação não refletida das coisas, nada mais, como se estivesse tudo bem…

Não quero nem posso alongar-me muito mais sobre o assunto, mas sinto que é alarmante esta falta de participação das massas no controlo das TIC, assim como acho que não é o legítimo elas serem tão controladas por pequenos grupos de indivíduos, que têm em si o poder de fazer das “suas” TIC o que bem entendem. Simplesmente não deveria ser assim. As TIC são de e para as massas. Portanto, são elas que devem preservá-las e dinamizá-las. Não creio que isso já aconteça, como me querem fazer crer. Sim, as massas já têm liberdade para criar conteúdo, mas isso não é o suficiente para deixar de haver uma preferência ideológica permanente no conteúdo que nos é massivamente apresentado. Isto, porque é humanamente impossível haver uma situação ideal em que cada um vai à procura do conteúdo que mais serve o seu interesse. Assim, deve procurar-se atingir uma forma de fazer das TIC um espaço aberto a todos, comum, isento de ideologia política, que albergue e transmita os conteúdos de todos os pontos ideológicos, de maneira a que, depois de ser confrontado com eles, o indivíduo possa partir para uma pesquisa pessoal sobre um ponto e escolher seguir um modelo de ação que ache o ideal para si.

No filme do Homem-aranha diz-se, a certa altura, isto: “Com grande poder, vem grande responsabilidade”. E é esta verdade universal que devia estar refletida nas TIC. Elas são um enorme poder ao nosso dispor e, portanto, há uma enorme responsabilidade em nós para com elas. Hoje em dia, não penso que haja.

Agora, depois de uma muito breve pesquisa eletrónica e de uma reflexão não muito exaustiva sobre o assunto, concluo que a minha ideia inicial se mantém verdadeira e ainda é reforçada. As TIC são elas próprias política e, para o bem e para o mal, estarão sempre ligadas com o poder, já que são uma poderosa ferramenta para inúmeros fins. O ideal não existe, mas o mais vantajoso sim, e é esse ponto que devemos procurar atingir. Enquanto as TIC forem controladas como são hoje, sentir-me-ei muito triste, pois acho que estamos a menosprezar e a não aproveitar o potencial que elas têm para a humanidade. É preciso cuidarmos do que é nosso por natureza, tomar conta disso, procurar o seu bem e não deixar que alguém se apodere disso. Se isto é algo que se ensina às crianças, porque será que nós, os crescidos, não o fazemos?

Ricardo Almeida


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