Ao sincretismo de Hermes na Contemporaneidade.

Vivemos hoje em uma sociedade marcada pelos dispositivos de comunicação. Imagens e sons captados instantaneamente que funcionam como delatores, em busca de fulguração e apelo em meio a alienação e a amotinação de referências do século XXI. Laborando em contraponto a um axioma das informações incontestáveis e falaciosas dos meios de comunicação institucionalizados por meio de uma herança fecunda da apreciação imediata e acrítica dos expectadores, as imagens delatoras e “desautorizadas” explicitam-nos superficialmente a problemática que circunda os meios de comunicação e sua relação com o mercado das notícias, entretenimento, e principalmente política.

Em um movimento anacrónico, tentamos estabelecer uma relação metafórica entre o Deus mensageiro Hermes no envolver da civilização Grega, de forma a ilustrar o paradoxo proporcionado na actualidade pelos meios de comunicação, que por um lado conferem e potencializam em diferentes perspectivas uma dinâmica as configurações da contemporaneidade e que por outro lado, apresentam deformidades de uma utilização condicionada que “aparece-nos dramatizada no modo espectacular, distanciada pelos meios de comunicação e reduzida a signos.” (Baudrillard, 2007, p, 24).

Hermes recebe aqui um carácter metafórico correspondente a comunicação. Dentre os contos que compõem a história de tal personagem, podemos estabelecer a primeira analogia. Referindo-se a forma com que este Deus mensageiro estabelece as suas comunicações, nota-se que a mesma se dá através, ou de uma eloquência oral, ou de pergaminhos escritos, conforme ilustra a ânfora de Kinoxenos. Partindo desta prerrogativa percebe-se que estas duas características não são suficientes para exercer uma mensagem com um carácter fidedigno. Nota-se que a presença do Deus apresenta-se em potência quase que a própria materialidade da informação, visto que o mesmo partilha de um estatuto rijo dentro das configurações da comunicação na Mitologia. Logo não só a eloquência da fala de Hermes, nem a materialidade de uma grafia a cunho singular, mas a própria confiabilidade atribuída a tal mensageiro, símbolo da sabedoria, prudência, persuasão e virtuosismo.

O que acontece hoje é que as instituições fomentadoras de noticias apresentam-se mascaradas em uma atitude passiva em relação a informação, que na verdade não o tem. Tais empresas gozam de um virtuosismo e de uma imparcialidade na transmissão dos factos, falaciosa, pois laboram no recorte de informações em detrimento a conveniências tanto financeiras quanto politicas que apresentam-se veladas, visto que a confiabilidade que o expectador projecta a recepção da notícia se dá a uma credibilidade na comunhão entre os meios de inscrição e nos agentes promotores do mesmo.

Podemos nos perguntar: Então toda a noticia é falaciosa e determinista? Pois se labora através de um olhar específico que promove informar isto ao invés daquilo! Em certo ponto sim, porém a grande problemática que envolve o carácter político da informação é a impossibilidade de uma notícia ser apresentada em um tele-jornal através de uma censura que não pauta-se no conteúdo, mas antes de tudo no capital, e na política. Através disto destacamos o papel das imagens instantâneas dos dispositivos móveis como promotoras, permitindo o outro lado da informação mesmo que descontextualizada e principalmente sem um status rígido.

Como exemplo, relembramos os acontecimentos do genocídio étnico ocorridos em Ruanda em 1994, que foram propagados por meio de uma rádio Hutu, que exaltou e proclamou a morte de milhares de Tutsis. Este exemplo não nos traz apenas a influência dos meios de comunicação como formadores de uma comunidade cega aos olhos do senso comum. Mas mostra-nos um grupo que não pôde recorrer a outros meios que não as cartas e aos telefonemas como forma de apelo mundial. Este genocídio marca justamente a incapacidade de um povo em relatar sua opressão e suas desigualdades em um panorama mundial. Primeiramente pelo facto de não possuir aparatos técnicos para tal, e por outro lado é claro, para uma imprensa que fechou seus olhos para milhares de outros obsoletos que se fizeram invisíveis diante de uma incapacidade fraudulenta.

Por fim pergunta-mo-nos, a partir do pequeno excerto do hino Órfico a Hermes:

 “Com asas nos pés, voas pelo espaço, cantando toda a Música, em todas as línguas… Nós te honramos, Hermes, ajuda-nos em nosso trabalho! Dá-nos um falar eloquente, e um vigor jovial. Supre nossas necessidades, concede-nos clara memória”. (Carvalho -IV Congresso Nacional de Estudos Clássicos/XII Excerto do Hino Órfico a Hermes)

“Supre nossas necessidades(…)”. Hermes sinónimo de prudência e sagacidade é o próprio reflexo da comunicação projectada pela civilização grega. Operando em um movimento sincrético Hermes ganha uma nova nomenclatura na civilização Romana, Mercúrio. E com ela além da sagacidade e prudência, recebe uma adjectivação sob um olhar mercantil, Mercúrio Deus do lucro e do comércio em reflexo a uma sociedade que projecta tais expectativas em relação a comunicação. E na contemporaneidade, qual o sincretismo que podemos atribuir ao Deus mensageiro Hermes em reflexo a complexidade das informações e referências?

                                                                                                                            Pablo Pinho

  


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