Adivinhação e futuro técnico-mediático: representações e visões possíveis

“Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos…”

(Charles Dickens, Um conto de duas cidades)

Com a disponibilidade, cada dia maior, de ferramentas tecnológicas mais precisas e em constante inovação, não é difícil para nós imaginarmos um futuro totalmente tecnológico, interativo e mediatizado, pois de certo modo já vivemos tal realidade. Existem centenas de produções, que vão dos filmes de ficção científica a documentários, em que podemos visualizar um futuro hipertecnológico. O vídeo «A Day Made of Glass…» (2011) da empresa «Corning Incorporated» é só mais um exemplo em que podemos ver tal projeção. E partindo dos vários meios que possuímos hoje, não nos parece estranho que, em muito pouco tempo, este futuro se torne uma realidade possível.

As diversas tecnologias estão envolvidas com tal força na sociedade e novos meios surgem tão rapidamente que a sociedade mal tem tempo para assimilá-las. Hoje em dia a comunicação, interação e principalmente informação que os médias oferecem nos chegam de forma fluida e rápida, como jamais antes. E se tratando das possibilidades tecnológicas-mediáticas, temos um universo quase ilimitado.

Hoje é fácil imaginar, ou se preferirmos “prever” o futuro, adivinhações sobre o universo do qual tratamos aqui, já há muito, não nos parecem tão impossíveis. Muitos são os teóricos que, em maior ou menor grau, arriscaram prever um futuro no qual as ciências tecnológicas e multimédia se apresentariam de forma intrínseca ao ser humano, como algo inimaginável em tempos passados. Em Heidegger, neste caso a dizer sobre a cibernética, podemos exemplificar tal possibilidade, pois se manifestaram como certa visão futura:

“Não é necessário ser profeta para reconhecer que as modernas ciências que estão se instalando serão, em breve, determinadas e dirigidas pela nova ciência básica que se chama cibernética. Esta ciência corresponde à determinação do homem como ser ligado à praxis na sociedade. Pois ela é a teoria que permite o controle de todo planejamento possível e de toda organização do trabalho humano. A cibernética transforma a linguagem num meio de troca de mensagens”. (HEIDEGGER, 1983, p.72)

“É o melhor dos tempos. É o pior dos tempos”. Aludindo a Charles Dickens, assim começa o vídeo «EPIC 2014» produzido em novembro de 2004, por Robin Sloan e Matt Thompson, no qual em 8 minutos de duração nos é mostrado as várias mudanças que ocorreriam, entre 2004 e 2015, em um dos principais meios de busca e informação, o Google, dialogando com outros diversos veículos de comunicação de massa e entretenimento. Penso que no ano da produção do vídeo, a previsão feita pelos realizadores parecia algo distante para o público, mas ao assistirmos «EPIC 14» hoje, podemos dizer que tais projeções sobre o futuro destes meios, ou destas empresas, não se mostraram tão ficcionais.

Vários episódios apresentados no vídeo não se concretizaram. Outros meios de comunicação e informação, redes sociais e de entretenimento surgiram ou se desenvolveram de forma bem maior do que o mostrado. Podemos citar, dentre muitos, a expansão do Facebook e da Wikipédia, a criação do YouTube e Twitter… Mas é certo que as projeções futuras vistas em «EPIC 14» estão para longe de serem tidas como totalmente fracassadas.

Algo interessante que é descrito no vídeo é a surgimento do «Googlezon» que, “aliado a uma tecnologia de busca insuperável” (Google) e “mecanismos de recomendações sociais” (Amazon), juntos utilizariam “os conhecimentos detalhados sobre a rede social de cada usuário, dados demográficos, interesses e hábitos de consumo para promover uma personalização total de conteúdo e de propagandas”. O «Googlezon» nunca existiu. Mesmo assim podemos dizer que os produtores do vídeo acertaram em algo, pois o que vemos hoje no Google, Facebook, YouTube ou qualquer outra plataforma de informação ou redes sociais, são ofertas de produtos e informação voltada ao consumo, baseados nos dados colhidos pelos usuários.

Uma vez conectados a internet nossos perfis, dados de busca e acessos são armazenados e posteriormente utilizados pelo Google ou Facebook por exemplo. Assim uma quantidade ilimitada de propagandas estritamente voltadas ao nosso gosto, ou muito próximo disso, nos é mostrada toda vez que estamos em frente ao computador ou conectados a rede através de qualquer dispositivo, em diversas plataformas ou sites. Esta é apenas uma ligação que podemos fazer relacionando o vídeo ao que hoje é realidade, ao o assistirmos muitas outras associações podem ser feitas.

A ideia foi lançada. Navegamos em um oceano ilimitado, que para a maioria é ainda incerto e desconhecido. O que iremos ver e vivenciar em um futuro próximo? Quais serão as descobertas e mundos possíveis que encontraremos ao pensar ou tentar adivinhar sobre as diversas tecnologias, atreladas aos multimédia ou a própria cibernética? O que restará depois do maremoto? Fantasiem, arrisquem adivinhações, quase tudo é possível em um oceano de possibilidades.

Evandro Santos

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Referências:

DICKENS, Charles – Um conto de duas cidades. São Paulo: Estação Liberdade, 2010. ISBN 9788574481807

HEIDEGGER, Martin – O fim da filosofia e a tarefa do pensamento. In: HEIDEGGER, Martin. Conferência e Escritos Filosóficos. 2ª ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

EPIC 2014. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/EPIC_2014

EPIC 2014 legendado em português. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=4OZ-ANCEchM


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