Dactilografia como porta para um novo mundo

“À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica 
Tenho febre e escrevo. 
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, 
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.”

                                                                      Ode Triunfal – Álvaro de Campos

O século XIX pode ser considerado o primeiro da época contemporânea. Revoluções, evoluções, inventos, experiências de todos os espectros da realidade que possamos pensar. Certo é que o mundo, especialmente o ocidental, não mais olhou para trás depois do vislumbre de futuro que os pensadores e criadores deste século apresentaram. A revolução industrial expandia-se, a mecanização e mediação nas vidas comuns começava a tornar-se normal, sobretudo entre as elites. A produção dos bens culturais também não ficou alheada das novas técnicas e até novas formas de arte apareceram nesta época. A fotografia, o cinema, a gravação sonora revolucionou a música e, a escrita nunca mais foi a mesma depois da criação da máquina de escrever.

A introdução de uma mediação através de um teclado entre o papel e o Homem trouxe várias modificações ao acto até aí tão natural da escrita. A despersonalização será o mais relevante. A caligrafia até aí um elemento distintivo entre textos de pessoas diferentes, desaparece, dando lugar a uma tipografia mais industrial onde os caracteres têm um formato mecânico facilmente copiáveis. A presença do teclado com todos os caracteres possíveis à nossa frente permite um tipo de interação totalmente diferente do que acontecia manualmente e, claro, a criação das grelhas onde o texto é inserido desenvolveu uma nova consciência de texto que imediatamente os escritores da época e das seguintes começaram a aproveitar.

O movimento modernista envolveu-se precisamente no uso e abuso da máquina de escrever, numa nova forma de expressão e de entendimento do mundo. Um mundo em mutação rápida e constante e que influenciou indelevelmente uma era e o futuro. É difícil esquecer os versos impossíveis de Álvaro de Campos, expoente máximo daquilo a que gosto de chamar de modernismo industrial com a sua “Ode Triunfal”. Em Portugal e no mundo multiplicaram-se os experimentalismos e os pós-ismos, a literatura, a arte, a cultura, a imprensa e as sociedades mudaram. De novidade em novidade até à cibernética, à computação e ao mundo digital descendentes diretos dos primeiros teclados.

Poder-se-ia mesmo afirmar que a passagem da escrita manual para a escrita mecanizada e seguidamente para a escrita digital foi um dos momentos mais fraturantes na sociedade oitocentista e décadas futuras. Atrever-me-ia a dizer que a génese do nosso tempo está aqui, na dactilografia.

                                                                                                      Paulo Silva


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