remediação da imediacia / hipermediacia

A relação entre conceitos de imediacia e hipermediacia definida por Jay David Bolter e Richard Grusin em Remediation: Understanding New Media apresenta algumas dificuldades que, no meu entender, se devem a uma abordagem indiferenciada de contextos de acção e de representação. A análise que farei de seguida incide sobre uma possível incompatibilidade dessa abordagem com o campo do interface e da interactividade e não com outros aspectos da teoria.

«The desktop metaphor […] is supposed to assimilate the computer to the physical desktop and to the materials (file folders, sheets of paper, inbox, trash basket, etc.) familiar to office workers. […] Immediacy is supposed to make this computer interface “natural” rather than arbitrary. […] »

«With each return to the interface, the user confronts the fact that the windowed computer is simultaneously automatic and interactive. We have argued that the automatic character of photography contributes to the photograph’s feeling of immediacy, but with the windowed computer, the situation is more complicated. It’s interface is automatic in the sense that it consists of layers of programming that are executed with each click of the mouse. Its interface is interactive in the sense that these layers of programming always return control to the user, who then initiates another automated action. Although the programmer is is not visible in the interface, the user as a subject is constantly present, clicking on buttons, choosing menu items, and dragging icons and windows. While the apparent autonomy of the machine can contribute to the transparency of the technology, the buttons and menus that provide user interaction can be seen as getting in the way of transparency.»

O erro de conceptualização que julgo detectar nos excertos citados parece-me ser causado pela confusão entre ferramenta e meio de representação. Esta distinção não parece problemática se considerarmos que um martelo não é uma representação de um objecto e que uma ilustração em papel não é uma lâmina para cortar os dedos. Mas é uma confusão que se é convidado a fazer ao considerar o interface gráfico de um computador. Esta confusão é ainda mais envolvente se ao pensarmos numa representação formos levados a considerar que foi produzida com uma ou várias ferramentas (sendo a mão ou a voz ferramentas prototípicas) ou que uma ferramenta pode ser considerada, de certa forma, uma representação da função que desempenha.

Parece-me, então, que o interface gráfico de um computador é mais adequadamente descrito por analogia com uma bancada técnica de um laboratório do que como um meio de representação. Isto é, um interface seria um aspecto de uma ferramenta e não de uma representação. Dentro de uma bancada técnica de laboratório pode haver uma etiqueta com o nome de uma amostra, ou um livro contaminado cujo conteúdo só possa ser acedido dessa forma, ou numa arma pode haver uma mira telescópica. Mas, independentemente da complexidade, o interface é concebido para permitir o desempenho duma acção; ao olharmos para o interface (enquanto representação) não estamos a interagir com ele ou a usar uma ferramenta. Podemos estar a pensar em optimizar ou em decorar ou em reformular a acção duma ferramenta, o que não é a mesma coisa.

A dificuldade reside na tentativa de colocar o próprio interface sob uma relação concebida para distinguir o meio do conteúdo (uma distinção que coloca ela própria vários problemas que não serão abordados). Ora, se essa relação de imediacia/hipermediacia se pode aplicar com facilidade à implicação de um meio de representação naquilo que é representado, relação esta que é definida pelos autores como uma tensão entre a transparência e a opacidade do meio, quando se tenta aplicar essa relação a um interface não se percebe muito bem o que fazer corresponder aos termos dessa oposição. De facto, um interface transparente é uma concepção sem sentido, uma vez que ao contrário de um meio que pode de certa forma apagar-se em relação àquilo que representa, uma acção cujo interface fosse transparente não seria apenas impossível de agenciar como seria impossível de se lhe determinar a força e a direcção que a definem enquanto acção. Esta determinação pode ser descontínua no tempo ou no espaço com a execução da acção (como no caso do controlo diferido ou à distância) mas é sempre aquilo que distingue este caso de outras acções executadas independentemente de uma deliberação e planificação humana.

No meu entendimento, a interactividade não pode ser definida sem a mediação de um interface (totalmente opaco, se se quiser). Se existe interactividade isso implica um interface e então existe alguma forma de imediacia específica do interface e não de algum elemento de representação que possa fazer parte dele (como um manómetro). Uma interactividade que começa a falhar precipita a situação do contexto da acção para (talvez) um contexto de representação. Nesta circunstância a ferramenta pode torna-se uma representação da sua função, de um acidente, de um antagonismo contrário à vontade do agente ou uma acção que escapa ao controlo da causalidade inscrita no artefacto pelas leis da física, por um fabricante ou por um engenheiro, etc.. A interactividade, neste sentido, não têm graus. Se não é imediada (ou transparente em relação à vontade do agente) então não pode ser a extensão da vontade do agente, mas uma espécie de vontade alheia (indiferente, antagonista ou auxiliadora). Isto não quer dizer que o funcionamento defeituoso precipite esta transferência de um domínio para o outro; esta transferência não acontece enquanto o agente se mantenha no contexto da acção, ou seja, enquanto exista uma aparência de interactividade ou a persistência no contexto da acção.

No campo da constituição do interface gráfico de computador podemos dizer que são estabelecidas equivalências geométricas com quaisquer outros contextos de acção ou de organização. Ou seja, ferramentas e mecanismos ou páginas e contentores, por exemplo. Nenhuma destas geometrias (ou configurações) são “naturais”, são antes determinadas apenas pela acção ou organização que é necessária para resolver um problema. Neste sentido toda a gente sabe que o écran não tem botões mas elementos de interface, com determinadas funções, que podem ser identificados eficazmente por uma imitação da forma de um botão. Eliminar a analogia com o botão num interface gráfico não faz desaparecer o interface mas simplesmente reconfigura o interface segundo uma outra geometria que não é, também, mais ou menos “natural” que a anterior. Uma oficina japonesa é tão “natural” e, em potência, tão eficaz como a oficina típica de um mecânico português.

Em conclusão, podemos dizer que a distinção entre representação e interface parece-nos ser determinante. Que a «presença permanente do sujeito no interface» é o que define o interface enquanto tal. Que uma ferramenta fora do contexto de uso não funciona como uma ferramenta, assim como, inversamente, qualquer objecto de dimensões médias pode entrar num contexto em que existe a necessidade de uma arma de arremesso e passar a ser uma ferramenta. E, adicionalmente, que um interface virtual não é virtual no sentido em que não é um interface de facto. Ou seja, que um interface virtual não é uma representação de um interface mas uma instância de um interface.

A forma de um martelo não serve para martelar pregos e um martelo sem cabeça a que foi retirado o cabo pode ser uma ideia interessante mas é inutilizável para se agir sobre um prego, mesmo telepaticamente.

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