Verba volant, scripta manet. Mas e o netspeak?

A escrita assumiu ao longo da história da humanidade um estatuto de factor cultural, capaz de veicular valores, crenças e costumes de um determinado povo. Conhecem-se vários tipos de escrita desde as figurativas como os pictogramas Astecas ou os hieróglifos egípcios até a escrita alfabética nascida na Fenícia.1

A grande parte das escritas coloquiais alfabéticas que utilizamos no Ocidente, apresentam sinais visíveis (símbolos) que veiculam sons, formando palavras que correspondem a ideias referentes a coisas ou a processos.2 Seus símbolos afastam-se completamente da figuração, ou seja, são altamente abstractos  a não ser por algumas reproduções figurativas como as poesias Concretas e Neoconcretas, ou, em segundo plano, algumas figuras de linguagem como as onomatopeias.

Hoje em dia, em meio a dinamicidade das redes sociais e aparelhos electrónicos capazes de veicular mensagens instantâneas, nos deparamos com novas características, ou “bengalas”, como queiram, para uma linguagem escrita em que a velocidade e a expressividade são seus sinónimos.

Deonísio da Silva, em um artigo publicado no site observatório da imprensa, ao referir-se ao novo idioma assinalado por alguns autores como “internetês” aponta que é um besteirol que assassina a tecladas a língua portuguesa”. Mattoso Câmara,por outro lado, designa estas formas inéditas de expressão escrita como processos graduais e coerentes da linguagem. No entanto serão estas afirmativas contentoras de verdades que correspondam a pluralidade das características do Neatspeak?

Palavras como “você”, “aqui” ou “não” assumem no princípio básico das escritas em um ciberespaço uma simplificação sob três perspectivas básicas. A primeira referente ao abandono das vogais em detrimento as consoantes que carregam em si mesmas o som vocálico. Ou seja, no caso de “aqui” opta-se por“aki”. Vocábulos muito utilizados como o “você” ignoram-se as vogais em detrimento ao carácter marcante das consoantes em meio a frase. Ou seja “vc ta ai ou naum?”.

E por fim vocábulos que apontam contra a perspectiva sinóptica da escrita criada por usuários da Internet  ou por uma eventual necessidade às próprias características do meio, como a palavra “não” que assume no internetês o acréscimo das letras “um” ou seja, “naum”. Pode-se notar que a política da praticidade não condiz exactamente com este exemplo. A explicação para este fenómeno dar-se-a na não quebra do ritmo da digitação. Ou seja, para pessoas que estão com “milhões” de janelas abertas em redes sociais, um acento são “milésimos de segundo indispensáveis”, na hora de estabelecer um diálogo, optando-se desta forma para letras próximas que correspondam em parte a uma percepção fonética a palavra original.

David Crystal, apresenta-nos dois conceitos fundamentais para que entendamos as linhas que delineiam a expressão escrita pelos usuários das mensagens instantâneas  O primeiro conceito é o de “output”, que refere-se as várias entidades que compõem o discurso electrónico. O autor atribui factores equivalentes tanto para a linguagem escrita quanto para a falada, de modo a apontar algumas características que são correspondentes entre as mesmas, direccionando seu discurso para a vertente de que “a linguagem escrita foi empurrada em direcção à fala”3 dando-se pela necessidade de tornar a comunicação mais ágil e veloz, tal como é a língua falada.

O outro conceito levantado pelo autor, e mais importante, é o de “netspeak”, em que ele pautado nas características equivalentes da fala e da escrita, aponta-nos que a comunicação em chats , blogs, e-mail etc, apresentam propriedades selectivas e adaptáveis presentes em ambas. O netspeak extrapola o híbrido entre escrita e fala. Na busca de extrair o essencial de cada palavra potencializa o discurso com vocábulos que exercem transformação onomatopaico e pictogramas (emoticons) símbolos de estados de espírito com um significante muitas vezes abstrato remontando os pictogramas antigos.

O netspeak é uma forma de escrita que labuta na volatilidade do meio de modo a estabelecer um diálogo mais dinâmico, buscando suprir as nuances que somente um contacto visual é capaz de expressar através das potencialidades de construções silábicas e pictogramas.

No entanto se fosse-me colocada uma questão referente aos efeitos do neatspeak em relação a língua portuguesa, acredito que ele por si só não teria efeito próativo diante da mesma, visto que tanto no âmbito da concordância quanto do significado, não há uma reconfiguração, pois a mudança estabelece-se apenas na atmosfera do signo. Porém acredito que a perda actua se sobre a simplicidade destes diálogos  pois a linguagem tanto falada quanto escrita é resultado de prática, principalmente nos primeiros anos de escola. Logo, em meio a dinamicidade destes espaços virtuais palavras resumidas ocultam as deficiências da gramática que são trabalhadas diariamente, e não abrangem um património vocabular de uma comunidade linguística  que é trabalhada na escola, mas que não é reforçada fora e ainda é desvirtuada pela escrita digital.

1SARAIVA, António José – O Que é a Cultura: Cultura e Linguagem. Lisboa: Gradativa, 2003, pp.13-18.

2BARTHES,Roland – O Grau Zero da Escrita. Lisboa: Edições 70, 2006, pp. 21-28.

3http://www.maxwell.lambda.ele.puc-rio.br/9755/9755_3.PDF. Internet uma nova Forma de Comunicação, p.22.

Pablo Pinho


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