Imediacia e Hipermediacia: do meio oculto ao meio revelado na pintura

 

“O que há de mais real para mim são as ilusões que crio com a minha pintura. O resto são areias movediças.”

(Eugène Delacroix)

  

Uma afamada lenda, contada por Plínio, o Velho, descreve uma disputa entre dois pintores gregos, Zêuxis (464 – 398 a.C.) e Parrásio (470 – 400 a.C.). Zêuxis pintava frutos com tal precisão que iludia até mesmo os pássaros, estes, vinham até diante da pintura tentar bicá-los. Parrásio, dizendo ser um melhor pintor, apostou que enganaria seu rival – convidou Zêuxis para ir até seu ateliê onde, supostamente, estaria uma pintura ocultada atrás de uma cortina. A curiosidade de Zêuxis em ver a pintura o fez tentar levantar o tecido que a ocultava. Mas, neste exato momento, ele percebeu que o tecido não era real; tratava-se de uma pintura feita sobre a parede, tão perfeita que enganou seus olhos.

De fato, das pinturas realistas de Zêuxis e Parrásio só restaram lendas. Mas os conceitos de imediacia e hipermediacia, propostos por Bolter e Grusin no livro Remediation: Understanding New Media (1999) podem ser elucidados a partir desta narrativa.

A imediacia pode ser entendida como um desejo de se aproximar da realidade, através da ocultação da presença do meio que cria a representação. Na hipermediacia o espectador percebe o meio utilizado para a representação. Ambas são elementos da remediação que, em síntese, é a evolução ou renovação das tecnologias, que se apropriam da tecnologia anterior para criar algo novo que cumpra as mesmas funções, mas de forma melhorada.

Salvo raras exceções, a quebra de tal desejo por uma representação realista na pintura surge somente ao final do século XIX com os impressionistas, as vanguardas que os sucederam elevaram tal iniciativa ao extremo.

Imediacia

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William-Adolphe Bouguereau – Flagellation of Our Lord Jesus Christ (detalhe), oil on canvas / 212 x 309cm,1880.

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Taner Ceylan – Spiritual, 140x200cm, oil on canvas / 2008, Private Collection.

Hipermediacia

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Claude Monet – The Beach at Trouville, 1870.

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Claude Monet – The Beach at Trouville (detalhe), 1870.

Podemos dizer que o desejo de representação do real sempre acompanhou o homem, não só na pintura e escultura, da Renascença até a Pop Arte – com Hiper-realistas, mas também nas diversas tecnologias de captação, apresentação e recriação da imagem, quase que seguindo os dizeres de Leon Battista Alberti (1404-1472) ao comparar o quadro a “uma janela aberta para o mundo”. Exemplos de meios que surgiram buscando simular a realidade são vários, da pintura à fotografia, do cinema até as filmagens em 3D. Atualmente os meios digitais, como os jogos (videogames) e a realidade virtual, são a prova de que tal desejo ainda não se esgotou.

 

Evandro Santos

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Referências:

BOLTER, Jay David; GRUSIN, Richard – Remediation: Understanding New Media. Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 1999.

HIPER-REALISMO. Disponível em http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=329

PARRÁSIO DE ÉFESO. Disponível em http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/Parasio0.html

ZÊUXIS. Disponível em http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/Zeuxis00.html


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