Metástase I: Opacidade e Transparência

Em um movimento subtil no dactilografar de uma máquina de escrever as palavras de Luiz de Camões permutam-se em palavras de Alberto Pimenta em meio a uma atmosfera que labuta no contraponto entre claro e escuro. Em uma dialéctica de desconstrução e reconstrução verso a verso, Joana Rodrigues propõem-nos uma reflexão acerca da remediação criativa, de modo a projectar-nos as diferentes potencialidades do meio digital, em rectificar as formas dos média anteriores.

Metástase I problematiza o conceito elaborado por Jay David Bolter e Richard Grusin de «remediação» através de um movimento retilínio uniforme que elucida o funcionar de uma máquina de escrever como alegoria de um dado medium em contraponto a um brotar estantâneo de letras que operam em concomitância a dinâmica da máquina, mas que apontam para as potencialidades da mediação digital. O espectador é apreendido em uma atmosfera de falsos paradoxos representacionais que apesar de assumirem conotações contrárias, veiculam uma formulação que estabelece um sentido por si próprio no âmbito dos “meios que remedeiam outros meios”.

Ou seja, Joana Rodrigues apresenta-nos um oxímoro da remediação que incorpora meios anteriores acentuando a diferença e incorporando outras formas oriundas do seu próprio meio. Assim como os audiovisuais de Vuc Cosik e os trabalhos pictóricos na história da representação em pintura como «Las Meninas» de Diego Velásquez e suas reverberações, como por exemplo a de Pablo Picasso, o referido trabalho apresenta-nos a apropriação de Alberto pimenta potencializada nas mãos de Joana Rodrigues através das características potenciais da remediação digital.

No entanto se colocássemos uma questão no âmbito das perspectivas que o termo «remediação» comporta, este trabalho estaria operando sob a ótica da imediacia ou hipermediacia?

Quando me refiro ao trabalho de Vuc Cosik, a relação que proponho ao mesmo comporta o diálogo que ele estabelece com os filmes da história do cinema como Eisentein, e não no sentido da hipermediacia através das representações numéricas como forma de figuração como ele propõem.

Metástase I, evoca dois mundos de representação distintos, onde explica o abismo estabelecido entre as cores preto e branco. Por um lado opera segundo uma lógica da hipermediacia, ou seja, a remediação digital assume um estatuto de opacidade mediante a características visíveis da maquina de escrever, por outro, o meio labuta através de uma noção de transparência mostrando toda sua potencialidade. Se analisarmos atentamente veremos que ao mesmo tempo que o som das “tecladas” envolvem todo o trabalho audiovisual, o preto que representa a parte que opera segundo a lógica da imediacia engloba grande parte do campo representacional.

O que propõe-se é veicular uma ideia de que esta obra apresenta um equilíbrio, em todas suas características formais, de maneira a contrastar estas três perspectivas problematizadas por Bolder e Grusin entre remediação, hipermediacia e imediacia. 

 

                                                                                     Pablo Pinho

 


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