Sujeito ininterrupto

Pensar o “eu” é pensar o “outro” ao qual desconhecemos, a partir de questionamentos que projectamos acerca das crenças, valores e hábitos que nos são comuns. O “eu” é ponto de partida para uma relação com outrem, e finitude para o resultado desta mesma relação.

Segundo Levinas podemos assumir duas perspectivas em relação as reverberações do conjunto de coisas que se vivificam em estatutos do eu. A construção de um sentido de si  é uma projecção que estabelece-se acerca de um “indivíduo potencialmente outro” e um “indivíduo absolutamente outro”. Ele aponta-nos o pão, ou a paisagem que contemplamos como alteridades que são incorporadas em uma identidade de possuidor. Logo potencialmente outros.“Dessas realidades, posso ‘alimentar-me’ e, em grande medida, satisfazer-me, como se elas simplesmente me tivessem faltado.” (LEVINAS, 1980, p. 21)

Nesta afirmação, poderíamos pensar nos dispositivos digitais como indivíduos potencialmente outros, em que o ser humano projecta-se em uma noção de possuidor e incorpora-o em uma noção de identidade. Mas no entanto e o “absolutamente outro?

O absolutamente outro não é mais o ser humano sujeito do encontro com o sentido da diferença de uma ontologia existencial. Mas antes um sujeito digital conjugado e/ou remediado pelos dispositivos tecnológicos. Um ciborg acoplado as suas próteses e identidades digitais em constante conectividade. As características singulares deste novo sujeito da contemporaneidade modificam os processo de construção e auto-avaliação do “eu”, criando inevitavelmente um ciclo em que o próprio sujeito torna-se mercê do dispositivo técnico, em um movimento constante de relações mediadas.

O “eu” não repousa em sí como forma final de perspectivar-se, mas esta interseccionado em um movimento que projecta-se sempre na relação com o outro delimitada pelo mediação do aparato técnico. Sherry Turkle referindo-se as projecções do sujeito pauta-se em uma das mais notáveis mentes dos últimos tempos, Michel Foucault, para ilustrar-nos a alienação do eu através do conceito de tecnologias do sujeito. Sublinhando algumas práticas como a oração, e a confissão  Sherry explicita-nos o esvaecimento da auto-construção do sujeito. O sentido de si próprio projecta-se para fora e não para dentro, e esta projecção limita a relação consigo mesmo. O “eu” está sempre ligado aos outros e nunca ligado a si próprio.

Ao mesmo tempo que a conectividade labuta em um espaço e uma intimidade delimitada ela consegue construir uma noção de identidade através de avatares. O paradoxo entre o estar junto e estar sozinho é uma variável proeminente nesta discussão  Restando estabelecermos a fronteira entre qual a limite e a distância entre a viabilização do meio em detrimento ao contacto e a relação física com o “outro”.


Calendário

Maio 2013
M T W T F S S
« Abr   Jun »
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  

Estatística

  • 524,910 hits

Enter your email address to follow this blog and receive notifications of new posts by email.

Junte-se a 1.226 outros seguidores


%d bloggers like this: