O pós-modernismo televisivo: o caso de Community

Community é uma sitcom norte-americana criada por Dan Harmon e transmitida em horário nobre pela cadeia de televisão NBC. A série centra-se nas peripécias de um grupo de sete pessoas que frequentam um Community College e que se juntam para formarem um grupo de estudo de Espanhol. Jeff Winger, Britta Perry, Abed Nadir, Shirley Bennet, Annie Edison, Pierce Hawthorne e Troy Barnes todos de idades, backgrounds e motivos diferentes para terem ido parar a este local. Até aqui tudo normal. Os estereótipos habituais nas personagens, uma comédia passada no meio “universitário”. Nada de novo.

O que faz de Community uma série relevante e prezada, não só pela crítica como por uns sedentos (não muito numerosos) fãs, é o seu olho clínico para a sociedade, mas sobretudo para a história da pop culture norte-americana. É aqui que pode entrar o pós-modernismo em Community. O olhar crítico para conceitos pré-estabelecidos. Pegar em ideias e conceitos já praticados e celebrizá-los e remediá-los, fazer algo novo a partir deles, dissecando-os, colocando a nu os seus vícios e gozando com eles. Desde os maiores clichés das comédias românticas hollywoodescas, os westerns, Star Wars, zombies, o cinema de ação, a ficção científica, as séries policiais, os jogos RPG e, como não podia deixar de ser os vícios das próprias sitcoms mainstream. Nada escapa.

 (Para quem está familiarizado com Doctor Who este segmento é prodigioso)

Tudo isto ganha uma nova camada e torna-se absolutamente desconcertante quando o foco está na personagem Abed. A personagem principal, ou pelo menos a partir da qual a história é contada é Jeff, porém com o passar dos episódios vamo-nos apercebendo que Abed, o observador, a consciência do grupo, transforma aquele que seria sempre um bom texto num fenómeno de estudo. Ele tem uma característica muito peculiar: comunica, diálogo sim, diálogo não, recorrendo a expressões, falas e cenas celebrizadas no cinema e na televisão. Condiciona toda a sua ação com se a sua vida fosse um filme, da qual ele próprio é realizador. A recorrência a Abed como escape ficcional cria um paradoxo do qual a série vive imensas vezes. E é neste paradoxo realidade/ficção dentro da própria trama ficcional e o uso e abuso da remediação da cultura popular anglo-saxónica onde reside o seu valor acrescentado. Não existe aqui uma grande história, profunda, complexa, arrastada até ao limite do melodramatismo.  Existe uma simples vontade de criar/recriar e reinventar um género.

                                                                                                       Paulo Silva


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