Imagem em movimento: a crença em um sentimento de realidade.

  “O cinema é a unidade dialéctica do real e do irreal” (MORIN, 1956)

Em 1897 a barraca de projecção do ilustre cineasta Mesguich foi incendiada por camponeses russos em resposta ao facto de estarem presenciando a imagem do Czar projectada na tela. O acto foi apontado como feitiçaria pelos habitantes da cidade de Nijni-Novgorod. (MORIN, 1956) Posteriormente em um pequeno cinema de uma província italiana, expectadores após ouvirem o estalar do tecto em meio a uma erupção vulcânica que aparecia na tela, precipitam-se em pânico para a saída tamanha a crença na imagem fílmica. Ainda se voltarmos as primeiras imagens em movimento dos irmãos Auguste e Louis Lumière com a chegada do comboio, notaremos que as mesmas causaram um estranhamento e um estado de arrebatamento em seus primeiros expectadores devido a uma projecção gradual das imagens em direcção ao público.

A partir destes exemplos podemos pressupor o que significou ver a imagem que até então assumia um carácter de perpetuação do tempo, ganhar movimento e suscitar um sentimento de realidade ainda maior que a fotografia. A inscrição da luz foi um passo arrojado no âmbito das representações no que compete a fidelidade e o tempo do objecto captado. O cinema veio agregar em primeiro momento uma dinamicidade em uma dada configuração de «frames» correspondentes a uma exacta percepção do olho humano. Com o passar dos anos a música que assumia um carácter secundário na movimentação das imagens, visto que não correspondia as mesmas, ganha as possibilidades técnicas para acompanhar e dialogar à imagem em movimento.

Os exemplo abordados datam do final do século XIX e início do século XX, no entanto esta crença ou adesão na realidade cinematográfica está longe de ser algo distanciado de nós e principalmente ser uma especificidade de espectadores pouco evoluídos cinematograficamente. Quem nunca presenciou uma “tia” avisar o “galam” do filme que o mesmo esta prestes a ser apunhalado pelo “bandido”. Ou chamar a “mocinha” de burra após uma série de acontecimentos que são do conhecimento apenas do espectador. E ainda tapar o rosto após uma cena violenta de um filme de terror.

A imagem em movimento suscita no espectador uma noção de realidade que pode ser suficiente para gerir um movimento em resposta ao acto projectado. O cinema consegue densificar o tempo, labutando no presente da nossa percepção que contempla passado, futuro, visível, invisível, e o pensamento ao mesmo tempo que o vivido. (MARTIN, 2005) O cinema muitas vezes esteve associado a uma noção de magia. Seria este pela ubiquidade que aponta-nos Marcel Martin? Ou a fotogenia com o acréscimo que o cinema proporciona a imagem que dele é resultado?

As questões são infinitas, no entanto uma certeza nos resta. O ímpeto em uma representação cada vez mais mimética do real foi uma variável proeminente na história da arte. O cinema levou a fidelidade do real a níveis hiperbólicos a ponto de sucumbirmos entre a fronteira do real e do irreal.

                                                                                          Pablo Pinho


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