Reprodutibilidade nas relações: Redes sociais ou técnicas?

A evolução dos meios tecnológicos tornou possível a reprodução das obras de arte em escala industrial, entretanto, em alguns aspectos, um dos efeitos desse processo foi a banalização de tais, e não efetivamente sua democratização, fazendo o público perder o  senso crítico, apenas importando-se com o consumo passivo de mercadorias anunciadas pelos meios de comunicação em massa. A discussão levantada por duas vertentes de pensadores no início do século passado situa de um lado o pensamento que afirma que a reprodutibilidade técnica e os meios de comunicação em massa são fundamentais para o controle e manutenção da sociedade capitalista, e uma segunda vertente a defender que os mesmos funcionam para a manutenção e expansão de uma sociedade democrática. Walter Benjamin analisou que essas interações alteraram sim o papel da arte e da cultura, mas não prejudicialmente. Segundo ele, a reprodutibilidade técnica, ao tornar a obra acessível, contribui para formação política, a emancipação do pensamento crítico e ampliação do conhecimento. A cultura da reprodutibilidade técnica atingiu um estágio tão avançado que não se limita a reproduzir apenas obras e objetos tangíveis, mas também se aventura na reprodução de relações sociais, conexões entre as pessoas e na construção do pensamento.

O caráter único e mágico da obra de arte, denominado por ele como “aura”, coloca como princípio de reprodutibilidade técnica a perda desta aura ao reproduzir a obra de arte, a qual se evidencia, por exemplo, nas próprias marcas deixadas pelo tempo na obra. Benjamin cita diversos exemplos de reprodutibilidade técnica, sua teoria debruça-se no conceito de autenticidade da obra arte em seu “aqui agora”, que é frustrada na medida em que a reprodução técnica ocorre. Entretanto, faço minha reflexão, apanhando como exemplo as próprias relações sociais, sobretudo nas características em que se constituem atualmente. Ao analisar por esse prisma, a reprodutibilidade das relações sociais decorrentes da utilização de ferramentas digitais, como as redes sociais – facebook, twitter, youtube, etc – acaba com o caráter autêntico dessas relações, que só pode ser construído de modo jacente a partir da experiência da tradição – desentendimentos, lembranças, saudade, etc – e em tais relações são imperceptíveis ou inexistentes. As interações proporcionadas por essas relações virtuais perdem o seu “aqui agora”.

O antropólogo britânico Robin Dunbar pressupõe em sua pesquisa que um indivíduo possui um limite cognitivo para estabelecer relações sócio-afetivas sólidas.

[…] o interessante é que você pode ter 1.500 amigos, mas, quando você olha o tráfego dos sites, é possível notar que as pessoas mantêm o mesmo círculo de amigos que gira em torno as 150 pessoas, o que ocorre também no mundo real […]

Logo, não há consistência em tais relações, são conexões vazias, interações sociais constituídas por experiências em ambientes virtuais, portanto, volúveis, e, à medida que esses ambientes se transformam, altera-se também a identidade dos próprios usuários. Não existe “aura” na artificialidade dessas relações sociais.

A utilização de tais ferramentas como facilitadoras na construção do comportamento social está sendo abandonada ou subvertida para fazer delas a própria natureza das relações. Quando a relação social é concebida no próprio modelo da reprodutibilidade técnica, essas ligações efetivas e permanentes não ocorrem entre os indivíduos, mas entre os meios (máquinas). Passa a ser uma rede técnica e não social, podendo ser alterada por qualquer outra ferramenta, uma vez que os valores autênticos são praticamente inexistentes nessas relações.

Sidney Góes


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