Contemporaneidade da imaginação. (Space Oddity por Chris Hadfield)

A adaptação feita pelo astronauta canadiano Chris Hadfield do clássico Space Oddity de David Bowie, uma canção de 1969, é uma remediação entre o contemporâneo e a quase ancestral ideia do universo. No entanto, esta noção, embora antiga, não é nada descabida e podemos aplicar a noção transmitida em 1969 à forma como se processam as coisas em 2013. Foi exatamente isso que Chris tentou demonstrar.

Duas circunstâncias especiais, que influenciaram a criação da música original de David Bowie, valem a pena dissecar, de forma a melhor compreendermos o seu contexto e como o advento da tecnologia influencia ideias que se tornam intemporais. Em 1968, um ano antes de a música surgir, nasce a obra de ficção científica de Stanley Kubrick. O filme retrata os elementos temáticos da evolução tecnológica e humana, da inteligência artificial e da vida extraterrestre. O contexto da época influencia muito a construção desta que é considerada uma das maiores obras de ficção científica de sempre, exemplo disso, são os primeiros lançamentos de naves espaciais ou a ameaça da guerra fria no seu auge. No entanto, o contexto contribuiu, mas foi esta imaginação que nos fez mover em direção ao futuro e sabemos que estamos num bom caminho, quando alcançamos o que descrevemos através da nossa imaginação, como nos fez questão de mostrar Chris Hadfield.

Kubrick recorreu por sua vez, num processo de remediação, ao livro da Odisseia, de Homero, como inspiração para o título da sua obra. O autor do filme achava que a forma como os gregos viam as vastas extensões do mar, se aparentava ao mistério e ao desconhecido, que o espaço proporcionava à sua geração.

David Bowie por seu lado, foi também claramente influenciado pela missão de Apollo 11 que aterrou na lua em 1969, utilizou um ambiente então virtual, imaginário, à época de certa forma desconhecido, para compor a sua música, um astronauta que se perde e não mais volta. Esta personificação do medo que se vivia do desconhecido que era, e ainda é, o espaço, será de certa forma, semelhante ao desconhecido que existia com o espaço virtual. Hoje, já sabemos que o espaço virtual se incorpora no nosso quotidiano, e já nem conseguimos, muitas vezes, prescindir da sua utilização e da forma como nos permite ver o mundo. O virtual é hoje imprescindível para muitos de nós como veículo de interação social ao ponto de ser uma extensão do homem. É interessante que o espaço virtual que falo, se funda com o espaço do universo – motivo da canção de Bowie – nesta canção de Chris Hadfield, que faz uma remediação da canção original, adaptando uma letra com 44 anos a um espaço físico, que foi apenas imaginado e que agora se torna realidade, aparentando ser propositadamente concebido para este fim tal é a consonância da letra com o espaço onde se encontra e as ações que o astronauta canadiano toma.

Fazendo uma análise à letra da música de Bowie, encontramos inúmeros elementos que podemos facilmente associar ao espaço em que Hadfield se encontra. Desde os comprimidos de proteínas, os fatos espaciais, a chamada do “ground control” para o comandante da nave, toda a narrativa do astronauta que sente o medo, quase claustrofóbico, de sair para o desconhecido, e enfrentar o abismo. Esta é uma canção intemporal que se aplica aos dias de hoje tal como foi projetada na ideia de Stanley Kubrick e David Bowie.

 

Tiago Faria


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