humano desumanizado

Tema de escrita: Como descrever/exemplificar os conceitos de ‘relocalização’ do sujeito na sua relação com os processos de mediação?

 

A alteração da vida normal do Homem pela tecnologia é algo que me assusta bastante. É claro que aquilo que é “normal” na vida é relativo e varia ao longo do tempo ou do espaço, mas há coisas que, a meu ver, não podem nem devem ser alteradas – coisas que existirão sempre enquanto houver Homem a viver na Terra. Assusto-me não pelo facto de ser a tecnologia a alterar as coisas, mas pela facilidade enorme que ela tem em alterá-las, pelo grau que essas alterações conseguem atingir e pela vulnerabilidade do Homem perante o poder dela (para mim, o mais assustador).

Isto, a propósito das mudanças que a tecnologia trouxe ao relacionamento social do Homem. Como o trabalho de Sherry Turkle demonstra, verifica-se uma relocalização do sujeito nos processos de mediação. A presença física deixou de ser tão necessária na relação social do Homem, que passou a ser feita com este isolado. Agora, o sujeito situa-se entre o mundo virtual e o mundo real. Isto não seria um problema tão grande como é se o Homem conseguisse controlar o poder da tecnologia e não permitisse que ela ganhasse um poder tão grande sobre si, ao ponto de definir e alterar a normalidade das interações sociais. Como Turkle argumenta, o Homem vive cada vez mais dentro do mundo virtual do que no real. Ou, pelo menos, o mundo virtual está a interferir e a confundir-se com o real mais do que devia.

A autora dá o exemplo de espaços de grande convergência de pessoas onde é possível constatar a inexistência de interação social física, como uma estação de comboios. Um exemplo gritante que pessoalmente sempre me chocou é o cibercafé – um espaço público como um café onde os clientes vão apenas para… estar “sozinhos”. Mas os exemplos que se poderiam dar são muitos… Basta olhar para os lados ou até mesmo para nós próprios para nos darmos conta do quanto a tecnologia destruiu as nossas interações sociais verdadeiras. Verdadeiras porque aquelas mediadas pela tecnologia não o são totalmente, por muito que nos iludam.

E isto atinge o extremo, por exemplo, ao tornar normal a virtualidade das relações sociais mais importantes, como as afetivas ou familiares. Quando reflito sobre este assunto, pergunto-me: porque é que isto acontece? Afinal, as relações sociais virtuais não se tornaram tão importantes por acaso… Isso acontece porque hoje é, de facto, mais difícil haver relações pessoais “normais”, isto é, cara-a-cara, físicas. E, novamente outra questão: porque é que é assim? Os tempos são outros, o Homem também… mas a importância das relações sociais físicas será sempre algo indispensável à existência e ao bem-estar humanos. Talvez se tenham alterado os valores… Ou talvez o mundo se tenha tornado tão “virtual”, tão maquinizado que já não importa tanto a interação social… Questões que, infelizmente e para aumento do meu assombro perante este tema, apenas se fazem por pouquíssimos indivíduos pensantes que se preocupam com a humanidade, que não se preocupa consigo mesma.

Ricardo Almeida


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