Escrita e História

O prestígio da escrita é inegável. Outrora qualificada como imperfeita e perigosa por Aristóteles, este relegava-a para um segundo plano, tendo aqui Saussure encontrado uma fonte de inspiração no seu trabalho como linguista, ao impor a oralidade à escrita. No entanto, e conforme dito por mim primeiramente, a escrita exerce um efeito especial sobre a linguagem. Ela tem a capacidade de alterar o modo como vemos o Mundo.

Muitos foram os que, seguindo o exemplo de Aristóteles e Saussure, relegaram a escrita para segundo plano. Erradamente, a meu ver. Citando Ricouer: “(…) a escrita oferece recursos para o desenvolvimento de géneros literários distintos, como a narrativa, lírica, ensaio, entre tantos outros.”. Aqui está uma das maiores provas do carácter imperioso da escrita. Ela é, possivelmente, uma das formas mais lídimas que possuímos de modo a podermos exteriorizar o que vai dentro do nosso ser. Nos apogeus das diversas correntes literárias, com Alves Redol, Fernando Pessoa, Eça de Queiroz, Garrett, entre outros, era bem visível o poder que a escrita exercia no quotidiano. A ausência de elementos que pudessem facilitar o exercício da habilidade criativa da escrita foi, neste caso, um factor positivo. Ainda hoje o podemos constatar, na medida em que não há tantos autores que se evidenciem como outrora o faziam, isto no panorama nacional. Com o passar do tempo, a escrita atinge a imortalização, funcionando como que um meio de transporte entre a mente do autor, no passado, com a nossa, que estamos a ler no presente.

No entanto, o que é facto é que a escrita manual tem vindo a “perder terreno” para a escrita digital. A meu ver, tal sucede devido a um processo comunicativo, o qual temos necessidade de ampliar, mesmo que inconscientemente. Nas salas de aula, os cadernos e as canetas cada vez mais têm vindo a dar lugar aos computadores e tablets, fruto do avançar dos tempos. Apesar de ser apologista das TIC, defendo também que o método de ensino não seja alterado. Sim, aquele ao qual fomos sujeito e que, graças a ele, nos encontramos aqui, na condição de estudantes universitários. A passagem à escrita digital é etapa constituinte de um processo de evolução na mente humana, estando ao alcance de cada um aprender mais, ou menos, tendo em conta as suas apetências.

A sensação de ter um papel e uma caneta na mão é incomparavelmente distinta à de ter um teclado à nossa frente. Eu, como aspirante a jornalista, revejo-me em ambos os campos. Nada me tira a satisfação de poder encher uma folha de gatafunhos, desabafos, o que quer que seja, até porque foi a partir daí que saíram grandes obras da literatura; no entanto, também o meio digital se veio a revelar completamente substancial no meu modo de vida.

O aparecimento da era digital não deverá ser um argumento válido na aprendizagem deficiente da escrita manual, bem de como tudo o que lhe é inerente. Ambas se complementam.

Para finalizar, ressalvo algumas palavras outrora proferidas por Clarice Lispector, que foi jornalista e uma escritora bastante apreciada: “A minha liberdade é escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo”.

Rui Tomás

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