Pormenor(es)

Passaram-se aproximadamente 500 anos desde que Miguel Ângelo pintou o teto da Capela Sistina, 500 anos esses que parecem demasiado tempo, mas que na verdade são uma ínfima quantidade, tendo em conta que esta é uma obra para a vida toda. Na altura em que Miguel Ângelo a pintou teria, certamente, o intuito de que esta pudesse ser vista por todos, que pudesse ser contemplada como se estivéssemos de olhos postos no céu, ou mesmo noutro mundo transcendente.
Teoricamente para que qualquer obra de arte possa ser experienciada esteticamente na integra, nós temos que ter um contacto direto com ela, colocarmo-nos frente a frente para que consigamos captar os mais pequenos detalhes, quer tenham estes a ver com o próprio conteúdo ou com a maneira como foi trabalhado e para isso teríamos de nos deslocar aos locais onde pudéssemos encontrá-las. Os Museus, por exemplo, são locais onde estão guardadas as mais valiosas obras de arte, assim consideradas, onde para as visitarmos temos que pagar uma quantia (normalmente), pois sabemos que à partida aquilo para que estamos a pagar é verdadeiro, é único, e os Museus dão-nos uma garantia disso, atribuindo ainda a cada uma obra em particular a ideia de autenticidade e aura, aura essa que é validada por estes.
A verdade é que hoje em dia visitar um museu, ou outro sítio qualquer é possível à distância de um “click” ou de uma breve pesquisa e tudo isto vai de encontro à ideia de Reprodutibilidade Digital da Obra de Arte, pois há uma reprodução da obra de arte através de meios digitais, pensamos na arte como uma arte digital. Nesta ideia encontramos o processo que Walter Benjamim descreve – a utilização de uma câmara digital, de um meio digital para podermos aceder a uma obra singular, que na verdade passa a ser uma reprodução, mas tem na mesma a ideia de autenticidade, de aura como a original, pois mesmo sendo virtual, acaba por se tornar em algo novo, original.

http://www.vatican.va/various/cappelle/sistina_vr/index.html
Aqui coloco um site (como tantos outros existem), onde é possível vermos esta ideia de reprodutibilidade digital. Neste exemplo temos uma visita virtual à Capela Sistina onde podemos ver muito minuciosamente cada pedaço da pintura, onde temos ainda a possibilidade de ouvir uma música que recria todo aquele ambiente espiritual.
Mas será que a perceção é a mesma? Apesar de todas as inovações, o melhor ainda é o natural, aquilo que é sentido e visto como um frente a frente entre o olhar e a obra que muitas vezes não confere especificamente minuciosidades, mas sensações e emoções que serão o maior dos pormenores.

Inês Pina


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