A “caixa” de Pandora

O pequeno aparelho que veio substituir tudo ( ou pelo menos quase). Não nego a sua utilidade, nem o modo como agiliza diversos processos no nosso dia, nem que com ele é possível “viajar” do Porto a Lisboa em segundos. Contudo acho que é necessário ( e entenda-se urgentemente necessário ) não deixarmos que a pequena “ caixinha dos microchips” controle cada ação que fazemos ao longo do dia. A quem é que já não aconteceu, vá-se lá saber por obra do acaso ou talvez vontade própria do aparelho, não tocar o despertador na hora que o era devido… Tragédia das tragédias que faz com que todo o dia esteja já sentenciado por esta “birra” do aparelho teimoso que não tocou.

E é assim que nós, os seres humanos, os ditos dos racionais, nos deixamos dominar pela “vontade própria” do pequeno rectângulo que nos acompanha todos os dias no bolso do casaco. Convém é não esquecermos que como produto de toda uma centelha de evoluções técnicas e científicas , a máquina acabou por adquirir uma característica intrínseca ao seu criador : a de ser falível. Mas a questão preocupante não se baseia nisso, mas sim no facto de termos-nos tornado tão dependentes desse mesmo aparelho que somos incapazes de “reagir” perante uma situação em que este nos falhe, quase como se o mundo fosse acabar apenas pelo simples facto de não termos bateria no telemóvel como se a chamada das nossas vidas fosse realmente perdida nesses 5 minutos de desconexão com o mundo da mediação digital.
É flagrante que por mais que queiramos, já se tornou impossível levarmos uma vida completamente normal sem a presença dos mais diversos aparelhos. A mediação digital tornou-se um essencial em diversos pontos da nossa vida, começando pela educação onde a maioria dos trabalhos já é entregue por e-mail, onde o caderno e a caneta foram substituídos pelo tablet ou pelo computador, sendo que a maioria dos estudantes atualmente já não faz ideia onde se situa a biblioteca da sua escola. E sucessivamente esta cadeia se transpõem para o mundo do trabalho, e para as funções que qualquer cidadão desempenha no quotidiano. A conta da luz ou da água já não chega por carta do correio, mas por e-mail ou uma simples mensagem de telemóvel. Certo tipo de “operações” de pagamentos de impostos já só podem ser realizadas através da internet. A generalidade dos nossos serviços de atendimento ao público é informatizada, sendo que se ocorrer o infortúnio de falhar a energia elétrica criam-se filas enormes e podemos observar todos os presentes a perder a compostura e tornarem-se autênticas “baratas tontas”.

Pois bem, como já referi, não questiono os avanços que ocorreram galopantemente nas últimas décadas, pois o seu objetivo principal ( sendo esse mesmo o objetivo de qualquer invenção ) é o de colmatar as necessidades com as quais nos confrontamos. Contudo não podemos descartar determinados factos óbvios: o isolamento, a quebra das relações pessoais, e o fosso social que tais avanços vieram agravar, sendo que para mim este último ponto é de facto o mais flagrante. Tenhamos em consideração, por exemplos, todos aqueles que nasceram antes desta “ era do progresso” e que hoje em dia são obrigados a lidar com aparelhos com os quais não se encontram minimamente familiarizados para, por exemplo, pagarem as suas contas ( sendo que os seus “velhos” métodos, com todas as reformas tecnológicas, lhes estão completamente vedados ). Tudo isto nos passa totalmente despercebido, tal como não reparamos quando passamos uma hora numa mesa de café onde não ouvimos a voz das pessoas que estão connosco por todos estarmos “ de pescoço vergado”.

Ana Francisca Cruz


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