(re)versos das plataformas digitais

Nos nossos dias, é incontornável a centralidade assumida pela tecnologia digital no desempenho das mais diversas tarefas do nosso quotidiano, desde as mais complexas até às mais simples e triviais, como sejam o simples consultar uma pauta ou acordar ao som de um despertador incorporado no telemóvel. Tudo o que fazemos é cada vez mais mediatizado pela tecnologia digital, de tal forma que se afigura praticamente indispensável para qualquer pessoa que queira sobreviver na era digital o domínio dessas novas ferramentas. De facto, a ditar essa capacidade de nos movermos digitalmente está, desde logo, e entre outros aspectos, a crescente “onda” de conversão de grande parte dos serviços públicos e privados em plataformas digitais, on-line, em ordem a uma simplificação/ desburocratização de procedimentos. A título de exemplo, no quotidiano académico, a consulta de uma pauta, de material de apoio e das mais diversas informações passou a conseguir-se on-line, suprimindo-se a distância entre o aluno e a faculdade, assim como os aglomerados de pessoas que se juntavam ansiosamente nos átrios das faculdades, no dia em que previsivelmente seriam publicados os resultados. Este cenário não é do século passado, remonta a uma meia dúzia de anos atrás, reflexo evidente (entre muitos outros) da rapidez com que se vão pondo de parte os meios tradicionais de acesso à informação. Se, por um lado, são óbvios muitos dos benefícios inerentes à criação dessas plataformas, traduzidos essencialmente na rapidez de execução das tarefas, por outro lado, não é de descurar as suas fragilidades. Se ganhamos tempo ao não necessitarmos de nos deslocar aos serviços “físicos” para entregar um documento, a verdade é que as plataformas digitais, como qualquer objecto da criação humana, não são infalíveis, e quando a falibilidade vem à tona, vemo-nos forçados a regressar ao mundo do suporte em papel, com todos os entraves daí decorrentes para o normal funcionamento dos serviços, já que a respectiva informatização foi de tal forma profunda que se tornou irreversível para certos procedimentos, que não são concretizáveis com a entrega em mão em papel. Foi o que aconteceu há bem pouco tempo com a plataforma digital “Citius” – usada pelos profissionais da Justiça -, cuja inoperatividade durante uns escassos dias causou o caos nos tribunais.

Paralelamente, também as relações sociais e o conhecimento sobre o mundo que nos rodeia são intermediados por plataformas digitais, contribuindo decisivamente para uma nova forma de o perspectivar: deixamos de estar condicionados pela rigidez dos horários do telejornal, para termos à nossa disposição 24h por dia, on-line, uma vasta corrente de informação, veiculada por diversos sites de canais noticiosos; também as redes sociais, criadas a partir do modelo Web 2.0, contribuem para a difusão de notícias, ainda que muitas vezes o consigam de forma pouco selectiva, naturalmente ao sabor da sensibilidade e interesses de quem posta as notícias, e sem a observância de critérios de interesse público que deve nortear a intervenção do jornalista num telejornal (o que também nem sempre acontece, se tivermos em conta as notícias sensacionalistas que passam nos telejornais). Como qualquer meio ao alcance do livre arbítrio humano, o Facebook, Youtube e tantas outras redes sociais e canais de informação, podem ser usados de forma muito útil e positiva para o indivíduo e para a sociedade, ou de uma forma menos socialmente comprometida (sem que seja minha intenção “diabolizar” essas utilizações mais supérfluas). Podem ou não criar mundos à parte do real, dependendo da intenção que move o seu utilizador, sendo certo que muitas vezes são uma mais-valia na divulgação de eventos, ideias e projectos de grande interesse, e um reflexo do dinamismo de grupos e pessoas reais. Penso, por exemplo, nos grupos que integram as secções culturais da Associação Académica de Coimbra, cuja divulgação “em campo” é fortemente complementada pela divulgação via facebook. Uma utilização saudável das redes sociais passa talvez, em boa parte, por avaliar se as acções que tomamos enquanto facebookianos terão correspondência no mundo palpável do “cara a cara” ou se, pelo contrário, são uma exposição ostensiva e exagerada da privacidade de cada utilizador, que não aconteceria no mundo não digital.

Sara Luísa Silva


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