Arquivo de 31 de Maio, 2015



C!B0RGU€S

O termo ciborgue surgiu nos anos 60, através de Manfred E. Clynes e Nathan S. Kline, ambos cientistas que investigaram nas áreas da saúde e tecnologia, e consiste num organismo cibernético dotado de constituintes orgânicas e cibernéticas, com a finalidade de melhorar as capacidades do ser humano através da tecnologia. O desejo do Homem de explorar o Espaço e de estabelecer uma ligação humano-máquina fazem parte do contexto que contribui para a criação deste conceito, à cerca de 50 anos atrás.

Atualmente, já existem vários casos de implantação de dispositivos e chips em organismos humanos. Ciborgue seria, então, uma mistura de um ser humano com um robot, dando origem a uma espécie de homem-máquina, dotado de um organismo cibernético. Mas não será isto mais um indicador da constante dependência da tecnologia por parte da sociedade atual? As debilidades ou deficiências físicas do ser humano parecem já não ser uma limitação. O aumento da utilização da tecnologia na área da saúde torna-se justificável e até compreensível, na medida em que contribui para melhorar a qualidade de vida das populações.

Neil Harbisson é considerado o primeiro ciborgue da história, ao instalar no seu cérebro um dispositivo que lhe permitiu recuperar parte da sua visão. Esta prótese artificial contribui indubitavelmente para melhorar o seu bem-estar e qualidade de vida. No entanto, esta tecnologia não é totalmente transparente, apesar de já ter adquirido um tamanho bastante reduzido. Considerando isto, qual seria o impacto deste mecanismo na sociedade? Seriam os ciborgues bem aceites pelo seu aspeto exterior? Contudo, toda a tecnologia parece caminhar no sentido da transparência total do meio e, dentro de alguns anos, estes dispositivos irão adquirir tamanhos tão reduzidos que passarão desapercebidos. Atualmente, já existem microchips, quase ‘invisíveis’.

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Neil Harbisson, o primeiro ciborgue.

Mas, considerando que os ciborgues têm como finalidade melhorar a qualidade de vida dos seres humanos e são dispositivos cibernéticos, não serão os simples aparelhos auditivos também um ciborgue? E, da forma como a tecnologia penetrou na nossa sociedade, não seremos todos ciborgues? Será mesmo necessária a implantação de dispositivos no interior do organismo humano para este se poder considerar ‘ciborgue’? O ser humano parece «alimentar-se» de tecnologia, não o tornará isso numa máquina?

Nota: Cibernética é a ciência que estuda os mecanismos de comunicação e de controlo nas máquinas e nos seres vivos.

 Diogo Martins

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“O caráter, assim como a fotografia, desenvolve-se no escuro.”

Segundo Sherry Turkle, as tecnologias e o seu avanço provocaram em nós um desequilíbrio, a convicção de companhia constante. Esse desequilíbrio, chamemos-lhe assim, trata-se (não só, mas também) da nossa incapacidade de enfrentar a solidão, o medo de estar só. Essa incapacidade é camuflada pelo uso das redes sociais; a substituição dos amigos de “carne e osso” pelos amigos virtuais que nos transmitem conforto através de um simples “like” ou comentário, remete-nos para a ilusão de que não estamos sozinhos. Mas a realidade é outra e muitos dos adolescentes e mesmo adultos não a conseguem percecionar. “Juntos mas sozinhos”, formatados pelas tecnologias presentes em todos os espaços da sociedade, criam uma disfunção ao nível da fala, onde nos é possível percecionar as dificuldades que crianças/adolescentes, que contaminados pelas tecnologias, já não conseguem manter uma simples conversa, onde as perguntas se tornaram básicas e as respostas curtas, tal qual como nas mensagens de texto.

Discernindo sobre dois tipos de solidão, a solidão enquanto opção que é saudável, permite momentos de reflexão, de autoanálise, o entendimento de nós mesmos antes dos demais, o aceitar-se, permitir-se, o olhar para a vida de forma rica e harmoniosa; e solidão enquanto condição que traz infelicidade e que se repercute para doenças do foro psicológico.

Turkle alerta assim para a necessidade da solidão saudável, essencial ao ser humano, o “desligar da conexão” por instantes, para nos permitir-mos ao pensamento e consciencialização. As tecnologias devem ser encaradas como boas quando não substituem a nossa vida real e quando não interferem diretamente com aquilo que somos/queremos ser.

“Os grandes homens estão muitas vezes solitários. Mas essa solidão é parte da sua capacidade de criar. O caráter, assim como a fotografia, desenvolve-se no escuro.”

Yousuf Karsh

Ana Freitas Oliveira

Tecnologias do sujeito

Michel Foucault foi um filósofo, teórico social, filólogo e crítico literário. As suas teorias abordam a relação entre o poder e o conhecimento e, aprofundam a relação destes dois tópicos, assim como a sua utilização visando o controlo social por meio de instituições sociais.

Foucault afirma que as tecnologias do sujeito são tudo aquilo que permite aos indivíduos através dos seus meios, ou com a ajuda de outros, um certo número de operações nos seus próprios corpos e almas, pensamentos, conduta e forma de ser, de modo a transformarem-se a eles mesmos, a fim de atingir um certo estado de felicidade, pureza, sabedoria, perfeição ou imortalidade.

Na actualidade, a tecnologia pode ser vista como um dispositivo capaz de provocar uma transformação radical no ser humano, desde a informática e contiguamente a realidade virtual, até à biotecnologia e nanotecnologia.

Ao focar uma especial atenção na temática da realidade virtual, quer seja nas redes sociais ou nos jogos online, observamos inúmeras construções e reconstruções do “eu” (em diferentes escalas), uma vez que, na realidade virtual o indivíduo adquire o poder de se moldar ou criar da forma que quiser, obtendo assim uma nova identidade. Através da internet, a identidade estende-se a multiplicidade, onde há a possibilidade de construir e alternar várias “personalidades”. A identidade na realidade virtual é flexível pois, não é vista como algo definitivamente construído ou finalizado, mas sim como algo em construção. As identidades ou representações criadas na rede podem ser denominadas de avatares, o avatar é o sujeito na realidade virtual. É necessário “avatarizar-nos” de forma a podermos actuar dentro da rede, o papel do avatar é expressar o poder da nossa vida em rede.

Contudo a leitura, por exemplo, pode ser também considerada uma tecnologia do sujeito, na medida em que o leitor vai sofrer uma transformação dos seus pensamentos, após ter lido e, tal acção acentua a emergência da consciência individual.

A tecnologia com que vivemos no nosso quotidiano força-nos a colocar a nós próprios questões como “quem somos?” e “o que viremos a ser?”.

Joana Valente


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