Posts Tagged 'João Pereirinha'

Só Porque SIM?

Estava eu num site sobre tecnologia, que costumo visitar habitualmente, e deparei-me com um anúncio que me chamou à atenção. Era diferente, não o consegui associar a nenhum outro televisivo, e fiquei curioso. A única coisa que me reconheci foi marca que publicitava ou a que estava associado, que é o mesmo. Assim fui parar à página do movimento SIM – Movimento pela Criatividade em Portugal by Samsung.

Se já foram a este sítio deverão concordar que é um pouco difícil de perceber ao certo o que é mesmo este movimento, nem mesmo lendo o manifesto do movimento nem vendo o videoclip do mesmo, que de resto não mostra muita inovação. Ok, apela à criatividade e à inovação em diversas áreas em Portugal, mas porquê, como e a que propósito? Pois, porque todas as coisas têm um propósito. Bem, então tive que ir procurar notícias referentes ao assunto. E o motor de busca só me conseguiu dar um resultado favorável. Da qual pude ler que é um projecto desenvolvido pela marca Samsung com o objectivo de:

Promover e envolver a sociedade no apoio à criatividade no País é intuito do projecto, que pretende impulsionar a aliança entre a tecnologia e a criatividade na dinamização de trabalhos nacionais.

E:

onde é ainda feito aos interessados o convite para deixar a sua marca e apoiar a criatividade de origem portuguesa.

In http://www.marketeer.pt“Samsung cria movimento de apoio à criatividade nacional”

Continua a não me responder à questão me saltou de imediato à cabeça. Qual é o objectivo? Sim, qual foi a ideia da empresa, neste momento, de criar este movimento? Virou mecenas das artes ou das ideias inovadoras em Portugal? Bem, se assim é porque é que não foi falar com as universidades do país a fim de promover essas mesmas ideias dos estudantes que não têm possibilidades de as desenvolver só por sim, por exemplo? E comecei a pensar que, talvez não fosse tudo tão simples ou formidável como o site do movimento nos parece querer entender.

Primeiro veio-me à memória o facto de esta empresa promotora ser a mesma que, ainda há poucos dias, foi acusada pela marca Apple pelo facto de “os seus últimos produtos se parecem bastante com o iPhone e o iPad”.

Depois, há um pormenor no vídeo de propaganda do manifesto do movimento qua não pode ficar de parte: além de não haver criatividade nenhuma, aquilo que mais se pode ver no vídeo e que mais salta aos olhos de qualquer um é o telemóvel utilizado, de forma natural, para as montagens.

Ou seja, mesmo sem ser grande perito em semiótica dá para ver que este movimento é mais uma campanha de publicidade do que de outra coisa. Assim, a marca aproveita um momento e uma conjuntura social e política em que: há cada vez mais movimentos e manifestos que nascem e proliferam na internet; as dificuldades orçamentais que o estado e a economia atravessam levam a uma diminuição do investimento em projectos arriscados e/ou inovadores; as artes e a cultura são sempre onde se corta mais nos investimentos. E então, cria este movimento, onde mata uma família de coelhos de uma cajadada. Primeiro, associa a sua marca à inovação e à proliferação e partilha de ideias novas que possam ajudar a sociedade; segundo, consegue imiscuir-se numa franja de possíveis consumidores e associar-se a eles e aos seus pares, como os jovens e os artistas; terceiro, com o actual momento de contestação social e a facilidade de propagação de mensagens pelas redes sociais espalha a imagem criada da empresa muito mais facilmente e, talvez, com menos custos.

Ora, posso ser eu demasiado desconfiado, mas já se dizia no tempo do meu avô, que “não há almoços grátis”. E mesmo que houvesse, um bom samaritano não tem necessidade de apregoar a sete ventos quando dá uma esmola. Pelo que, se não há interesses por de trás do financiamento e ajuda a movimentos destes, quem financia e patrocina podia pura e simplesmente fazê-lo sem colocar o seu logótipo ou slogan no fim. Como tal este não é um movimento porque sim, é, antes, mais uma campanha de publicidade. Isso sim!

João Miguel C. Pereirinha

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Como utilizamos a tecnologia

Eu não sei quem está a ler esta frase neste momento, nem onde está a ler, ou mesmo se a está a ler na língua em que originalmente a escrevi, mas sei, com toda a certeza, duas coisas sobre cada um dos que me lê: a) possuí pelo menos um telemóvel, que neste momento não deve de ter a mais de cinco metros, no máximo noutra divisão (e caso se tivesse esquecido dele em casa ou o tivesse perdido não conseguiria estar a ler este texto); b) tem uma ligação à internet, que utiliza frequentemente, privada ou pública, com a qual consulta todos os dias, mais do que uma vez, a conta de e-mail.

Derivado do facto de termos uma identidade cada vez mais móvel, associada a um número, podemos estabelecer contacto com qualquer um dos nossos pares estejamos nós, ou eles, onde quer que seja. E, de facto, estamos sempre a contactá-los. E a cientista, Stefana Broadbent, diz-nos que essa ligação permanente aumenta a nossa intimidade entre os pares. Aumenta e fortalece os nossos elos afectivos precisamente pelo facto de podermos comunicar com pessoas em locais onde não seria normal.

Ora, como observador, o que eu acho extremamente curioso é, como eu costumo dizer, ver que estamos todos no lugar errado. Isto é, um dos efeitos perversos da comunicação móvel permanente é o facto de a maioria das pessoas, quando está com outras pessoas, estar mais interessada nas mensagens que recebe no telemóvel que na conversação que está a estabelecer pessoalmente. E aposto que isto também já aconteceu a todos. E estamos sempre no local errado precisamente pelo facto de não ser uma situação pontual, mas uma constante. Felizmente, explica a autora, só estamos frequentemente em contacto com quatro amigos, e só ligamos insistentemente para dois.

Agora, os telemóveis também evoluíram. E, além das muitas funcionalidades que adquiriram nos últimos anos, permitem agora aceder facilmente à internet. E faz-se aqui a junção entre dois mundos, alargando-se horizontes. As redes móveis associaram-se à grande rede, internet, e as pessoas além de receberem e enviarem mensagens também actualizam os seus perfis nas redes sociais; actualizam o e-mail; fazem compras; vêm a meteorologia; etc… O telemóvel tornou-se num verdadeiro canivete suíço, serve para inúmeras coisas. E está na lista das tês coisas que nunca, instintivamente, deixamos em casa: dinheiro, chaves, telemóvel. Como nos explica o investigador da Nokia, Jan Chipchase:

Pois se as tecnologias, e os meios digitais, nos viciam e fascinam, não é por acaso. É também porque eles vieram realmente criar barreiras que nos podem ajudar a transcender as nossas capacidades. O facto de estamos sempre no local errado, há vinte anos, poderia ser dramático. Mas hoje em dia podemos quebrar o espaço e o tempo ao enviar uma mensagem ou ao fazer uma chamada, a pedir a alguém que está em casa para desligar o interruptor que nos esquecemos por exemplo.

É claro que há muitos aspectos negativos associados às novas tecnologias. Mas isso não será transversal a todas as áreas do conhecimento? Não estão todas elas envolvidas em problemáticas deontológicas, morais, éticas, económicas e sociais? E quando identificamos os problemas quem é o agente transgressor, a máquina ou o programador? Cabe a cada um saber utilizar os meios de que dispõe em prol da melhoria da sociedade em que está inserido, do mundo em que vivemos e das pessoas que o rodeiam. Mas, sobre tudo, de si mesmo e saber identificar as fronteiras que deve ou não ultrapassar. Não são os telemóveis que nos dispersam a atenção o nos tornam mais malandros; não é a internet que senta na secretária e modifica a nossa forma de comunicar. Somos nós que, de forma mais ou menos conscientes, acabamos sempre por escolher o que fazer.

Finalmente, para descontrair, aconselho ainda o visionamento desta paródia às funcionalidades do telemóvel. Clica aqui

João Miguel C. Pereirinha

Addicted

Hoje quero principalmente que seja cada um a reflectir sobre este tema e, caso se sinta confortável, a partilhar a sua opinião na caixa de comentários. E a reflexão recai sobre a adição que os meios de comunicação geram.

No fundo, em toda a cadeira de Introdução aos Novos Média, é quase sempre disso que estamos a falar. A humanidade tem vindo a criar meios, que até ao momento da sua criação não eram fundamentais, mas que depois, se tornam imprescindíveis na evolução e nas formas de convivências sociais posteriores. E tudo começa a girar à volta dele. Isto é, antes da roda não eram necessárias estradas. Mas depois da roda começaram a haver estradas. Houve a necessidade de criar caminhos convencionais e funcionais para que a roda, a nova invenção, pudesse passar e subsistir. Da mesma forma que, antes de haver televisão, podíamos viver sem ela. Mas depois de esta existir, a adição que esta nos causou com as suas novas capacidades, levou a que toda a nossa rotina e até a organização das nossas casas fossem alteradas em função das mesmas. Assim aconteceu com os telefones móveis, com a proliferação dos computadores de secretária e posteriormente com os portáteis. E mais recentemente com o acesso à internet em quase toda a parte do mundo. Isto é, estamos a assentar a estrutura da nossa sociedade em formas e convenções sociais geradas por uma criação nossa. Estamos a moldar a sociedade à medida das funcionalidades dos meios e dispositivos que vão surgindo de tempo a tempo. Será que isso é positivo ou negativo? Será que nem uma coisa nem outra, ou seja, nem branco nem preto mas sim cinza?

Eu acho que é cinza realmente. Pois, se por um lado há uma panóplia de funcionalidades inerentes a qualquer meio, como diz Marshall McLuhan, por outro lado, ao assentar a sociedade na fiabilidade desses meios estamos a construir um castelo de cartas que facilmente pode ruir. Pois o que nos acontecerá se deixar de haver internet? O que acontecerá se as ondas de rádio forem desligadas? O que acontece às nações se os satélites em orbita falharem?

Acho que poucas pessoas estão cientes de que a sociedade não pode continuar a colocar a sua funcionalidade somente nas capacidades fascinantes de cada meio ou dispositivo interprete. Por outras palavras, há que haver consciência de que muito do fascínio que nutrimos pela internet, televisão, rádio, etc., advém, sobre tudo, do grande nível de adição que estes provocam em cada um de nós.

João Miguel C. Pereirinha

Arte e Hypertext

Zach Tutor criou o SuperSonic Electronic em 2008 como um blogue em ia escrevendo aleatoriamente sobre o que encontrava na net, mas acabou por evoluir para um blogue de arte e cultura ou uma galeria virtual em que é ele o curador.

As obras de arte, na sua maioria ilustrações digitais, têm sempre links para os websites originais dos autores, mas é no arquivo que o SuperSonic Electronic mostra toda a sua graça.

 In http://www.ionline.pt –“Arte supersónica em blogue” por Marco Dinis Santos, Publicado em 27 de Julho de 2010

Foi esta notícia que me levou a conhecer o blogue que aqui é mencionado. E desde logo fiquei fã. Considerei-o simplesmente como uma forma muito inovadora de divulgar cultura. Claro que na altura, há quase um ano, não tinha ainda travado contacto com a teoria de Jay David Bolter e Richard Grusin, acerca da remediação de uns meios nos outros. E, neste momento, tenho já a capacidade de fazer uma análise sob essa perspectiva, além da admiração que sinto pela plataforma montada por Zach Tutor. Mas desse tema já escrevi aqui no blogue e, é evidente, que há aqui uma remediação e uma relação entre toda uma panóplia enorme de meios que se cruzam: o site do jornal que vai procurar conteúdos de outros blogues existentes na rede, divulgando-os através da sua plataforma; e este blogue por si vai buscar conteúdo a todos os meios, e mais algum possível, divulgando-os também na sua plataforma com uma posterior ligação ao original.

Ora, segundo fiquei a saber, também há poucos dias, a maioria dos leitores de artigos on-line quando encontra o primeiro link num texto carrega imediatamente nesse e navega para outra janela, podendo ou não voltar atrás, segundo me explicou o professor da Universidade da Beira do Interior e investigador no Labcom, João Canavilhas. Desde já muito obrigado a todos os que aqui continuam.

Assim sendo, além da remediação, vejo o blogue aqui referido como uma espécie de utopia do Hypertext . Principalmente a sua página de arquivo, também referida no artigo do i. Pois nós estamos dentro de uma galeria que cria uma enorme teia de ligações a uma enormidade de fontes para onde podemos navegar, voltar atrás e consultar outra fonte.

Apelo vivamente à experiência. E é disso que se trata este poste, a partilha da experiência que é navegar nesta galeria, quase interminável, que nos leva a mergulhar no mundo da arte que é divulgada e impulsionada pela experiência da navegação.

É tentadora a comparação que poderíamos fazer com outros projectos de galerias de arte, como o Google Art Project, que tendem a desvirtuar a obra de arte, como explica Walter Benjamin (em 1936). Porém, não é isso que encontramos aqui. Pois todas as obras que o autor selecciona são obras que os próprios autores tiveram intenção de divulgar, e até mesmo criar, através dos novos meios digitais. Como tal, são obras que nascem muitas vezes através do vínculo dos autores com os novos média, para os novos média e que aqui são aproveitadas e difundidas de uma forma excepcional.

Arquivo do Blogue

João Miguel C. Pereirinha

Debate Digital

Estamos numa altura em que se debate muito sobre qual o verdadeiro papel da internet, ou melhor, das suas possibilidades de ligação, na sociedade em geral. Se é algo que vem revolucionar a nossa forma de comunicar ou falar ou nem por isso; se é algo que irá impulsionar os movimentos intelectuais e a proliferação das democracias por todo o mundo ou se não passa de um meio de propagação da dita cultura de massas; se nos está a ligar cada vez mais ou a afastar-nos uns dos outros drasticamente. Estas são só algumas questões.

E não é fácil conseguir um consenso, nem mesmo entre académicos que estudem áreas relacionadas com estes problemas. Por exemplo, no caso da linguagem. Se por um lado ouvimos e vemos professores de línguas por todo o mundo a tentar evidenciar que as crianças hoje não sabem escrever correctamente porque estão viciadas nas formas textuais que utilizam na internet ou nos telemóveis, por outro Davida Crystal diz-nos que nada disso é novidade. Segundo explicações e estudos deste, as fórmulas de abreviação utilizadas, principalmente pelos adolescentes, são algo que já existe há séculos e, como tal, não há motivos para alerta, como ele explica num vídeo já aqui colocado [no blogue].

Relativamente à questão da proliferação de conhecimento e opiniões intelectuais através da internet, também já vimos aqui um vídeo do jornalista, Evgeny Morozov, onde ele estuda “o que chama de «liberalismo-iPod»- a presunção de que a inovação tecnológica promove a liberdade, a democracia- dando exemplos concretos de formas como a Internet auxilia regimes opressivos a sufocar a dissidência.” – Explica o site da TED acerca da sua palestra.

Pois bem, ainda hoje, e porque estamos praticamente em campanha eleitoral, na revista Visão vem um artigo que aborda a relação que os partidos políticos (do “arco do poder”) têm com a propaganda on-line e com as redes sociais.

As conclusões tiradas são parecidas ao que nos diz EvgenyMorozov, pois este conclui que os regimes opressores acham mais rentável “atolar” a rede de opiniões ou conversas paralelas que proibir simplesmente a troca de ideias, o que conduz ao mesmo objectivo: abafar o diálogo. Mais ou menos o mesmo explica João Tocha, da First Five Consulting, no artigo, evidenciando alguns dos motivos para haver propaganda on-line:

Uma campanha na internet mobiliza nichos de apoiantes; (…) leva à criação de influência junto de opinion makers; (…) pode ter uma função (…) difundindo rumores sobre os apoiantes ou suscitando o debate (…).

In Visão nº 949, O Facebook (ainda) não matou a TV, por Francisco Galope

Mais à frente podemos perceber também que, afinal, não dá para ganhar claramente eleições na internet, pois a taxa de penetração desta ainda é relativamente inferior a 50% da população e nem todos os utilizadores têm idade para votar. Também nos é evidenciado o papel de remediação para que esta serve, pois, como diz Rui Calafate:

 muito trabalho e muitos conteúdos (…) vêm, sobretudo, dos media tradicionais.

Idem

No final, o artigo conclui, novamente, o mesmo que EvgenyMorozov, quando utiliza o exemplo do encerramento da página de Facebook de Fernando Nobre pelos repetidos insultos nos comentários: cancelar uma página para que não haja interactividade é pior que a deixar proliferar.

É claro que a é difícil comparar as campanhas eleitorais on-line com a actuação dos regimes opressores face ao debate na rede. Seria como comparar uma galinha com uma águia. Porém, ambas são aves e têm asas. Ou seja, há pontos em comum.

Se a internet pode promover o contacto entre pessoas de diferentes contextos, a verdade é que ela tem servido mais para criar diversos nichos e grupos restritos, que se relacionam com base na semelhança de ideias e interesses.

Por outro lado, a internet é um meio. E pode ser utilizado para o bem e para o mal. Se há quem organize manifestações para derrubar ditaduras através dela, também há quem organize manifestações de apoio aos regimes através dela ou atentados terroristas convocados por e-mail. Ou simplesmente quem se infiltre nos nichos para confundir opiniões, criar divisão, desviando o essencial para o acessório, dissipando as opiniões.

Por fim, e como ideia de reflexão para outro texto, tudo fica registado para sempre, e à vista.

João Miguel C. Pereirinha

Linguagem On-line

Nas aulas de Introdução aos Novos Média temos vindo a discutir acerca da “linguagem on-line”, ou melhor, da forma como a linguagem se modifica numa conversa ou contexto on-line, seja numa rede social, fórum, etc.

De facto, todos estamos de acordo em relação a este assunto, pelo menos todos conseguimos identificar essas variações. E nem precisamos de nos ligar à internet para constatarmos esse fenómeno, basta que passemos uma vista de olhos nas mensagens (SMS) que trocamos através dos nossos dispositivos móveis. Não falamos da mesma forma sem dúvida.

Ou seja, o simples facto de a comunicação estar a ser mediada por um dispositivo conduz a uma alteração na forma como apresentamos o conteúdo. Quer seja através da utilização de abreviaturas (ex.: ñ), “sorrisos” (ex.:  =’) ) ou expressões (ex.: LOL), que verdadeiramente não verbalizamos no dia-a-dia. Contudo, também há quem tente resistir a esta tentação mas, por mais resistente que qualquer um seja a utilizar estas formas, é inevitável depararmo-nos com elas. Quer seja para se poupar espaço/caracteres, quer seja para se teclar mais rápido ou simplesmente por vício e descuido, todos nós acabamos por beber um pouco desta água.

Além disso, parece que a comunicação mediada por dispositivos nos leva, por vezes, a descuidar-nos na formalidade/informalidade com que comunicamos. E assim, talvez por força do hábito, há quem não tenha cuidado nenhum, ou quase nenhum, quando redige um e-mail, ou redige num local de acesso público ou semipúblico, como num blogue ou no Facebook por exemplo. O que leva a muitas gafes, como foi o caso de José Lello (dirigente do partido socialista) no passado 25 de Abril. Claro que o mesmo justificou o assunto com um erro.

Mas muitos são os que não têm cuidado com a forma consoante o contexto, confundindo-se internet com plataformas. A internet é o conjunto de redes sustentadas por servidores, às quais nos ligamos. As plataformas são os sites, blogues, redes sociais, que utilizamos para comunicar. Como tal temos que perceber que, como estar numa sala de aula é diferente de estar numa esplanada, também há uma diferença entre aquilo que é dito entre amigos no MSN e o que é dito para o mundo num blogue ou no mural do Facebook, por exemplo.

Notícia referida:

“Este presidente é mesmo foleiro. Nem sequer convidou os deputados para a cerimónia do 25 Abril”, afirmou José Lello na sua página no Facebook.

(…)

 “Se estivesse a exprimir-me publicamente utilizaria o politiquês e diria que o Presidente da República não foi suficientemente abrangente e, portanto, aquilo que eu disse senti”, acrescentou à RR.

(…)

In www.publico.pt

João Miguel C. Pereirinha

Ligado ao mundo, mas só.

Vivemos na era da informação digital. O que não nos falta por aí, em qualquer canto das nossas casas, são computadores portáteis, telemóveis ou “smartphone’s”, “tablet’s” ou até mesmo os velhinhos computadores de secretária, que nos permitem estar constantemente ligados ao mundo, ou melhor, à Internet.

Porquê esta distinção? Porque na verdade, e acho que todos temos essa noção, é bem diferente dizer que estamos “ligados ao mundo” do que dizer que “estamos ligados à internet”. Embora muita gente não esteja convencida ou consciente desta diferença o facto é que ela existe.

Primeiro que tudo, logo a ideia de “ligação ao mundo” é só por si uma ideia um tanto ou quanto inconcebível e controversa. Se de facto eu me ligasse ao mundo, a cada vez que faço log in no meu servidor de internet, não conseguiria fazer nada em tempo útil, ou não conseguiria chegar a nada do que quisesse fazer realmente. Pois a informação seria tão abundante e aleatória que para poder chegar aos e-mails acerca da universidade, por exemplo, teria primeiro que ver as notícias e e-mails de uma rapariga chinesa que perdeu o gatinho porque deixou a janela da sala aberta sem querer, ou ficar a saber que o José Alberto deixou no Twitter uma mensagem a dizer “olho para os apontamentos e dá-me logo dor de barriga@ já volto#”, por exemplo.

Mas João, a internet não funciona assim, eu acedo só ao que quero nos sites que quero. Exactamente. É por isso que a internet está cheia de filtros. São de interesse, relevância, data, etc. E assim, quando entramos nela, através de um “browser”, temos que aceder aos sites que queremos e nos interessam, e aí procuramos informação. Assim sendo, não estamos ligados ao mundo. Estamos ligados a quem queremos. Se quisermos. Ou será que também não é bem isso?

Continuando com a ideia de ligação ao mundo. A ideia de ligado ao mundo também pode variar de pessoa para pessoa. Imaginemos que para mim não passaria do facto de poder comunicar com alguém do outro lado do mundo ou encontrar, num motor de pesquisa ou rede social, alguém nesse outro lado. Nesse caso bastaria ir ao Google ou entrar no Facebook para que isso acontecesse. Estou ligado a quem quero e quando quero e sei ou recebo notícias desses mesmos, estejam eles na Rússia ou no Paraguai. E já estou efectivamente ligado ao mundo? Na verdade não. E Eli Pariser, no vídeo que deixo em baixo, explica bem porquê. Além de eu próprio já estar, à priori, a escolher a informação a que quero aceder, os filtros utilizados pelos motores de busca ou pelas redes sociais restringem ainda mais o meu circulo de contacto, e eu fico ainda mais isolado da informação e do mundo.

Por isso, além de, normalmente, já estarmos fechados em casa e em frente a um ecrã para poder comunicar pela internet, a própria internet está, digamos, programada para me isolar ainda mais, dizendo-me que o Egipto tem pirâmides mas escondendo-me que era uma ditadura até há bem pouco tempo. Efectivamente, quando saímos de casa e vamos ao pão estamos mais ligados ao mundo que quando fazemos log in.

João Miguel C. Pereirinha


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