Modo Avião

Por coincidência neste último domingo, 10 de maio, um programa de televisão brasileiro apresentou uma reportagem que definiu sobre o que eu escreveria como último post desta cadeira. Todos os 14 minutos da matéria que abre o programa abordariam uma questão na qual venho refletindo desde o início do período e que culminou com a apresentação deste último tema nas aulas: a relação entre os dispositivos digitais como extensões do sujeito. Gostaria de apresentar minhas impressões sobre o ‘lado negro’ do uso da tecnologia em nossas vidas e como isso afeta nossa saúde física e psíquica.

Link para a matéria: http://globotv.globo.com/rede-globo/fantastico/t/edicoes/v/apaixonados-por-tecnologia-ficam-48-horas-sem-celulares-em-praia-detox-digital/4168974/

Por si só a matéria do programa Fantástico é autoexplicativa. Além de revelar a incapacidade atual de desligar-se, ela vai além e apresenta uma análise das consequências de se viver online, alertando para a dependência e comparando o uso abusivo da tecnologia com nomenclaturas de sintomas antes utilizado por adictos em álcool ou droga: como a abstinência e o vício. Esse sentimento de falta, a meu ver, está relacionado com a capacidade que os média digitais possuem de proporcionar um sentimento de que nunca estamos sozinhos. De cara, é um sentimento ilusório, uma vez que desligado o dispositivo, nos encontramos a sós com nossos pensamentos, medos e ansiedades. É aí que, ao ligar novamente esses dispositivos, o sentimento de conforto proporcionado pelos mesmos pode acarretar em confusão psíquica, em não conseguir discernir a realidade da virtualidade.

Quando o simples prazer se torna um vício fica cada vez mais difícil conseguir sair do círculo. De um lado o prazer de estar conectado é reconfortante, mesmo que por algum determinado momento, por outro, a realidade urge em ser encarada. Perdem-se pessoas próximas e, mais importante, a própria vida. Na matéria, fala-se em “otimização do tempo”, apontando para a percepção de desperdício de uma vida que não é vivida, senão através do ecrã. Fala-se também em ansiedade, sentimento que surge no imediatismo da comunicação. Perdemos a paciência de outrora e estamos muito mais velozes. Em tempos onde um óculos pode fazer ligações, gravar vídeos e mostrar a caixa de e-mail para o seu usuário é mais do que flagrante o acúmulo de funções ao-mesmo-tempo-agora.

É importante salientar que a utilização dos médias não somente inaugura uma nova forma de conexão com pessoas díspares, aproximadas pela anulação das distâncias. Ela também inaugura uma nova seara em termos científicos. Novas doenças psíquicas que requerem formas distintas de tratamentos e, obviamente, novos padrões de clínicas de reabilitação do indivíduo no contexto social. Assim como a expressão “nomofobia“, ou medo/pânico de ficar longe do celular, citada na matéria, apresenta-se com ares de novidade, uma gama de especializações dos agentes que trabalham a cadeira de psicologia surge para o combate do mal social da internet e afins. O medo de desconectar-se é o medo do estar sozinho, isolado. O medo de nadar contra a maré. Os dispositivos não só desenvolvem novas ações para o nosso corpo através de sua utilização, mas também se moldam de forma a passarem despercebidos quando de sua utilização. São como complementos da utopia de um corpo robótico. Não se pode deixar de usar a tecnologia no mundo de hoje, mas, como qualquer estimulante, ela deve ser encarada em termos de parcimônia.

O dualismo da questão digital está muito longe de se tornar monista. Se por um lado a tecnologia apresenta pontos favoráveis na prática como extensão do sujeito ( o aperfeiçoamento das próteses mecânicas, por exemplo ), por outro ela escraviza o psicológico a partir de convenções sociais postas em prática – a necessidade de se adequar a um mundo cada vez mais online, nonstop e on demand.

André Luiz Chaves

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Espetáculo, Mídia, Sociedade

No primeiro episódio da quarta de temporada da série American Horror Story há um diálogo que julguei apropriado para começar este texto. A história que se passa em um circo de “aberrações humanas” enfrenta problemas financeiros para se manter e o esforço de trazer novas “atrações” para o circo, consequentemente atraindo um certo número de espectadores, é resumido na seguinte frase:

– “Os tempos estão difíceis. Graças aos comediantes no rádio, o pessoal está se divertindo em casa agora.”

Não somente essa frase em particular, mas momentos pontuais durante toda a temporada discutirão a questão do abandono da prática popular do circo e de suas consequências em detrimento ao advento de novas tecnologias. Freakshow se passa no ano de 1954, na Flórida, Estados Unidos. O escopo da série serve para pensar na teoria de Marshall McLuhan que, mais do que pensar nos médias apenas por seu viés evolutivo, coloca a questão da práxis social no entorno destes objetos.

Nesse contexto, a televisão ao mesmo tempo que distancia socialmente, cria um novo nicho, uma nova prática individualista, uma nova extensão humana em sua apreciação. Não mais a reunião coletiva em um determinado local onde códigos de conduta em grupo estariam sendo postos em prática. A televisão, com a sua alta necessidade de atenção e pouca chance de argumentação a partir do espectador acaba por erradicar a conversação social. Além disso, por causa de se alcance imediato e instantâneo, serve de instrumento ideológico.

Em uma entrevista de 1977, Marshall McLuhan afirma que entre o rádio e a televisão, a televisão estaria criando um certo tipo de analfabetismo. Isso é justificado a partir das opiniões professadas pela televisão ( o conteúdo ) e, mais ainda, salienta a eficácia e importância que o objeto eletrônico em si desempenha na sociedade: o que a televisão professa é algo verdadeiro, indiscutível ( o meio ).

Dessa forma, podemos entender o meio, além de um transmissor, como a própria mensagem, o que ratifica a máxima de McLuhan: ‘o meio é a mensagem’. Não só o seu conteúdo transmite, mas sua atualização objetual pressupõe uma série de adaptações pertinentes à sociedade. A “reclamação” que pauta o seriado descrito acima, ultrapassa os limites da pura novidade. Ela se calca na comprovação de que certas formas de cultura, como certos meio de comunicação, se revelam obsoletos conforme o homem continua a estender os seus domínios. E mais do que isso, o ambiente na qual esses meios convivem é afetado de forma, muitas vezes, irreversíveis.

Reúne-se agora em torno do meio, não mais do espetáculo.

Reúne-se agora em torno do meio, não mais do espetáculo.

André Luiz Chaves

#aletradaspessoas

Ultimamente tenho reparado, especialmente em algumas contas da plataforma Instagram de amigos uma imagem que se repete de uma conta para a outra. Trata-se de uma fotografia de um texto escrito à mão que diz:

“Uma coisa que a gente não conhece mais: a letra das pessoas. Essa é a minha, qual é a sua?”

Seguida pela hashtag #aletradaspessoas, a espécie de campanha que se tornou viral no início de março deste ano revela mais do que um modismo. O surgimento da escrita mecânica e cada vez mais seu desenvolvimento em teclas ( de máquinas de escrever à computadores ) até a invenção das telas touch mostram uma defasagem significativa em relação à escrita manual. Apesar de preferir escrever manualmente, e à lápis, o uso do computador, com o tempo alterou a forma que minha letra um dia já teve. E o que antigamente poderia ser compreensível, hoje em dia percebo que se transformou em garranchos identificáveis, muitas das vezes, somente por mim . Atribuo, além da falta de prática cotidiana, o fator da velocidade que cada vez mais parece querer se assemelhar, na minha escrita manual, ao uso que faço do teclado do computador ou do teclado virtual do celular. Sem dúvidas e com alguma prática, as vantagens de se digitar um texto em detrimento de escrevê-lo à mão recaem sobre a questão do tempo – e este cada vez mais escasso na nossa sociedade.

Voltando à campanha.

Resolvi pesquisar mais profundamente para entender da onde vinha essa nostalgia súbita de conhecer a letra das pessoas. Sintoma de uma sociedade ‘online, nonstop and on demand’? Percebi que de súbita essa nostalgia nada apresenta. Em 2012, através da plataforma Tumblr, foi criada a página Minha Letra Cursiva a partir do desejo e curiosidade da autora de conhecer a letra de seus amigos. O que era somente algo restrito a um pequeno grupo tomou força e foi crescendo com cada vez mais pessoas aderindo e enviando suas letras para serem postadas. No Tumblr, as mensagens enviadas eram diversas e cada pessoa poderia – e pode, criar sua própria mensagem para vê-la postada.

a-letra-das-pessoas

A retomada – e digo isto pois foi no Instagram que a ideia do Tumblr teve seu início, da prática através do Instagram, a partir de março deste ano já conta com mais de 20 mil adeptos. O que era uma curiosidade se tornou uma campanha e revela que muito da mecanização que vivemos hoje em dia pode obliterar ações tão humanas quanto a individualidade de uma caligrafia. De um lado, especialistas se baseiam na grafologia – ou análise da personalidade através da caligrafia, para , por exemplo, seleção de emprego. Analisando os maneirismos da escrita de uma pessoa, esta ciência pode observar, além da personalidade, o caráter e possíveis distúrbios. Há testes online onde a pessoa pode comparar sua escrita com as categorias de análise – inclinação da escrita, ligação das letras, direção das linhas, dimensão da escrita, etc., e isso se aproxima da ideia de que a escrita é como uma impressão digital: única e particular.

Por outro lado, a internet transformou bastante a forma com que a gente se comunica e a educação acompanha essa mudança. O Ministério de Educação da Finlândia anunciou em dezembro de 2014 uma medida que vem gerando polêmica: a partir do ano letivo 2016/2017 cadernos e lápis serão substituídos por teclados, computadores e sistemas digitais. O Conselho Nacional de Educação do país indica que a digitação veloz é uma ‘importante habilidade cívica’ que toda criança deve aprender. Outro argumento é que há uma gama de opções de cursos online dos quais as pessoas tirariam maio proveito com uma digitação mais eficiente. Mais nem tudo está perdido. Destinado a uma maior performance em frente à tecnologia, o projeto finlandês ensinará a escrita manual nos dois primeiros anos de estudo e passará a assumir a digitação a partir de então. A prática do movimento manual se dará por meio de atividades paralelas como trabalhos artesanais e desenhos, que permitirão esse desenvolvimento cognitivo. Nos Estados Unidos, essa medida recebeu votos expressivos de escolas que simpatizam com o método.

Para uma melhor compreensão da problemática entre escrever à mão e digitar, o vídeo abaixo é esclarecedor.

 

Vejo essa campanha, mais do que curiosidade ou nostalgia, como uma forma de arquivamento da escrita manual. Agregando diversos tipos de letra, esse arquivo forma-se com a adesão de cada vez mais pessoas cientes, ou não, das mudanças que a tecnologia provoca. Tenho certeza que são momentos como este que se fazem ímpares na história da humanidade: das pinturas rupestres à oralidade, da oralidade para a escrita, dos papiros para os livros impressos e agora do mundo analógico ao mundo digital.

André Luiz Chaves

 

Uma nota sobre as distâncias

“A transcendência das distâncias ganha meu presente e introduz uma suspeita de irrealidade até nas experiências com as quais eu creio coincidir”.

– Maurice Merleau-Ponty

           A citação que abre esta postagem é bastante sintética quando falamos de comunicação nos dias de hoje. A atualização constante dos meios de comunicação do tempo de Merleau-Ponty ( primeira metade do século XX ) encontra no programa Skype o seu ponto mais elevado. Em referência ao uso de outros meios digitais como a rede social Facebook, percebo que no Brasil – em detrimento de Portugal, comunica-se muito mais através desta ferramenta e que muitas relações sociais se confirmam e se desenvolvem pelo ecrã. A “depressão” do século XXI encontra nessa dinâmica o seu porto seguro e é observável uma massificação de sintomas de caráter psicossocial, como a síndrome do pânico, que se desenvolvem, entre outros fatores, a partir da ruptura da convivência real em direção a uma irrealidade.

Sendo de outro país e morando em Coimbra por seis meses, é evidente que a mediação digital está inserida intrinsecamente em meu cotidiano. Seguro de seus pontos positivos, como a comunicação rápida e direta com familiares e amigos brasileiros, também atento para o seu lado “negativo” na extirpação da ideia de distância que se impõe a cada conversa. Entre Portugal e Brasil são três horas, significativas, de diferença. Ou seja, enquanto estou almoçando, meus amigos acabaram de acordar, o que impele um ajustamento de horários que reflete em nossa relação tecnológica.

Transcender a distância me aproxima muito mais de uma vida que deixei em meu país e que só agora, afastado dessa convivência, consigo tomar consciência com muito mais urgência. Sei o que ocorre nas dinâmicas sociais que mantenho com o Brasil em meus círculos de amizade, mas nada posso fazer ou participar a não ser, de fato, saber. Ou seja, o que percebo é uma experiência que se faz irreal posto que não me habilita a tomar partido de sua realidade existencial.

André Luiz Chaves


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