#aletradaspessoas

Ultimamente tenho reparado, especialmente em algumas contas da plataforma Instagram de amigos uma imagem que se repete de uma conta para a outra. Trata-se de uma fotografia de um texto escrito à mão que diz:

“Uma coisa que a gente não conhece mais: a letra das pessoas. Essa é a minha, qual é a sua?”

Seguida pela hashtag #aletradaspessoas, a espécie de campanha que se tornou viral no início de março deste ano revela mais do que um modismo. O surgimento da escrita mecânica e cada vez mais seu desenvolvimento em teclas ( de máquinas de escrever à computadores ) até a invenção das telas touch mostram uma defasagem significativa em relação à escrita manual. Apesar de preferir escrever manualmente, e à lápis, o uso do computador, com o tempo alterou a forma que minha letra um dia já teve. E o que antigamente poderia ser compreensível, hoje em dia percebo que se transformou em garranchos identificáveis, muitas das vezes, somente por mim . Atribuo, além da falta de prática cotidiana, o fator da velocidade que cada vez mais parece querer se assemelhar, na minha escrita manual, ao uso que faço do teclado do computador ou do teclado virtual do celular. Sem dúvidas e com alguma prática, as vantagens de se digitar um texto em detrimento de escrevê-lo à mão recaem sobre a questão do tempo – e este cada vez mais escasso na nossa sociedade.

Voltando à campanha.

Resolvi pesquisar mais profundamente para entender da onde vinha essa nostalgia súbita de conhecer a letra das pessoas. Sintoma de uma sociedade ‘online, nonstop and on demand’? Percebi que de súbita essa nostalgia nada apresenta. Em 2012, através da plataforma Tumblr, foi criada a página Minha Letra Cursiva a partir do desejo e curiosidade da autora de conhecer a letra de seus amigos. O que era somente algo restrito a um pequeno grupo tomou força e foi crescendo com cada vez mais pessoas aderindo e enviando suas letras para serem postadas. No Tumblr, as mensagens enviadas eram diversas e cada pessoa poderia – e pode, criar sua própria mensagem para vê-la postada.

a-letra-das-pessoas

A retomada – e digo isto pois foi no Instagram que a ideia do Tumblr teve seu início, da prática através do Instagram, a partir de março deste ano já conta com mais de 20 mil adeptos. O que era uma curiosidade se tornou uma campanha e revela que muito da mecanização que vivemos hoje em dia pode obliterar ações tão humanas quanto a individualidade de uma caligrafia. De um lado, especialistas se baseiam na grafologia – ou análise da personalidade através da caligrafia, para , por exemplo, seleção de emprego. Analisando os maneirismos da escrita de uma pessoa, esta ciência pode observar, além da personalidade, o caráter e possíveis distúrbios. Há testes online onde a pessoa pode comparar sua escrita com as categorias de análise – inclinação da escrita, ligação das letras, direção das linhas, dimensão da escrita, etc., e isso se aproxima da ideia de que a escrita é como uma impressão digital: única e particular.

Por outro lado, a internet transformou bastante a forma com que a gente se comunica e a educação acompanha essa mudança. O Ministério de Educação da Finlândia anunciou em dezembro de 2014 uma medida que vem gerando polêmica: a partir do ano letivo 2016/2017 cadernos e lápis serão substituídos por teclados, computadores e sistemas digitais. O Conselho Nacional de Educação do país indica que a digitação veloz é uma ‘importante habilidade cívica’ que toda criança deve aprender. Outro argumento é que há uma gama de opções de cursos online dos quais as pessoas tirariam maio proveito com uma digitação mais eficiente. Mais nem tudo está perdido. Destinado a uma maior performance em frente à tecnologia, o projeto finlandês ensinará a escrita manual nos dois primeiros anos de estudo e passará a assumir a digitação a partir de então. A prática do movimento manual se dará por meio de atividades paralelas como trabalhos artesanais e desenhos, que permitirão esse desenvolvimento cognitivo. Nos Estados Unidos, essa medida recebeu votos expressivos de escolas que simpatizam com o método.

Para uma melhor compreensão da problemática entre escrever à mão e digitar, o vídeo abaixo é esclarecedor.

 

Vejo essa campanha, mais do que curiosidade ou nostalgia, como uma forma de arquivamento da escrita manual. Agregando diversos tipos de letra, esse arquivo forma-se com a adesão de cada vez mais pessoas cientes, ou não, das mudanças que a tecnologia provoca. Tenho certeza que são momentos como este que se fazem ímpares na história da humanidade: das pinturas rupestres à oralidade, da oralidade para a escrita, dos papiros para os livros impressos e agora do mundo analógico ao mundo digital.

André Luiz Chaves

 


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