A eficiência é a mensagem – uma breve reflexão sobre parte da teoria de Marshall McLuhan

A propósito do debate suscitado numa das aulas passadas em torno da afirmação de que “o meio de comunicação é a mensagem”, proposta por McLuhan, tenho vindo a reflectir sobre como e em que medida a afirmação de certos meios de comunicação, desde a do telefone ao telemóvel, passando pelo ‘boom’ das redes sociais, tem permitido confirmar esta tese.

De acordo com McLuhan, o “meio”, o próprio sistema ou instrumento de comunicação que utilizamos para comunicar não se reduz a uma mera plataforma material de veiculação de mensagens de conteúdos variadíssimos, mas, muito para além disso, comporta, em si mesmo, um conjunto de valores, reflectindo determinadas tendências sociais, comportamentais, psicológicas e culturais do individuo inserido em sociedade.

Comecemos por analisar a mensagem subjacente ao uso e difusão do telefone fixo. Julgo que não será descabido considerar que a introdução do telefone nos sistemas de comunicação, em finais do século XIX, reflectiu a aceleração do ritmo de vida da sociedade industrializada, da qual emergia uma nova dinâmica social, a vários níveis, que não se compadecia com a morosidade da correspondência pelo correio e de outras formas mais arcaicas. A exigência de rapidez e eficiência subjacente à Revolução Industrial começa a ser induzida nos indivíduos e, tal como sucede em tantos outros processos, generaliza-se, isto é, parte de uma área muito especifica – neste caso, o mundo laboral e as relações comerciais -, para se alastrar a outros círculos, designadamente o familiar e privado, os quais não funcionam de forma estanque, entrecruzando-se entre si. O telefone permitiu, entre muitíssimas outras vantagens, agilizar a comunicação entre familiares separados pela distância de milhares de km, proporcionando rapidez na transmissão de notícias, cuja recepção pelo destinatário não era conseguida, de outra forma, em tempo útil: por exemplo, não seria raro, antes da difusão do telefone, que um emigrante português no Brasil tivesse conhecimento da notícia da morte de um familiar apenas passadas várias semanas após o acontecimento. À medida que se verificam avanços na tecnologia e se encurta o tempo de execução de diversas tarefas, também se criam novas necessidades que se sucedem umas atrás das outras, numa espiral crescente e incessável de exigência.

Se o telefone encurtou distâncias e acelerou a comunicação, o telemóvel veio contribuir ainda mais decisivamente para a ‘ditadura’ da rapidez e instantaneidade da comunicação, sendo simultaneamente causa e consequência da velocidade e imediatismo a que nos habituamos nas mais diversas tarefas e processos do quotidiano da actualidade. Como tudo na vida, os benefícios do telemóvel tornar-se-ão mais ou menos evidentes, consoante o uso que lhe dermos. Se é verdade que o telemóvel permite agilizar e flexibilizar uma série de procedimentos quotidianos, também não podemos deixar de observar que por vezes é convertido num estorvo à eficiência e boa gestão do tempo, quando, por exemplo, o cumprimento de um compromisso marcado com mais de 2h de antecedência fica dependente da confirmação efectiva no minuto anterior à hora marcada de que a outra pessoa se vai encontrar no sítio combinado.

Embora não seja minha intenção, nesta brevíssima reflexão, proceder a uma análise exaustiva e cientificamente suportada acerca dos efeitos sociais e psicológicos da invenção do telemóvel, a verdade é que em diversas situações do nosso quotidiano podemos verificar “empiricamente” que o imediatismo subjacente a esta forma de comunicação (bem como a outras, de que são exemplo as redes sociais) potencia uma forma de estar em relação com os outros por vezes demasiado descomprometida, e paradoxalmente, dependente. Descomprometida, na medida em que, partindo do pressuposto de que toda a gente se encontra conectada 24h por dia, por vezes não são previstas e comunicadas as mais variadas situações com a necessária antecedência, ou então são “desmarcadas em cima do joelho”, seja uma reunião de trabalho, seja um encontro informal entre amigos; dependente, na medida em que muitas vezes essa forma de estar se traduz numa enorme ansiedade e avidez de deter conhecimento sobre tudo o que se está a passar ao mesmo tempo em vinte sítios diferentes, fazendo-nos estar em todo o lado e em lado nenhum, porque não é possível assimilar verdadeiramente tanta informação a acontecer ao mesmo tempo.

Talvez o tomar consciência da mensagem que subjaz aos meios de comunicação dos quais depende o bom funcionamento do nosso quotidiano actual seja o primeiro passo para que possamos encontrar um ponto de equilíbrio na sua utilização que nos permita afirmar: “a dependência não é a mensagem”.

 

Sara Luísa Silva


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