A Linguagem: no Papel e no Teclado

O afastar a mão do papel para a dirigir ao teclado provoca em nós um infindável número de alterações. Deixamos de nos curvar perante o peso da palavra para escrevermos de coluna ereta, e basta um ligeiro desvio do olhar para assimilar o texto na sua totalidade. Relemos, reescrevemos, somos simultaneamente escritor e editor, leitor e crítico. E se deixa de ser credível a imagem do torturado poeta, debruçando-se sobre o manuscrito num gesto de reserva e, conceda-se, uma beleza quase filosófica, surge-nos outra imagem: a do escritor digitando à velocidade da luz, apagando e escrevendo em alternância, tirando proveito de infindáveis aplicações e programas para o seu ofício.

“Throes of Creation”, de Leonid Pasternak

Se a predominância do teclado altera tão grandemente a nossa fisicalidade, será então de prever que esta diferença se reflita também naquilo que escrevemos. Há já várias aulas atrás discutíamos a conceção de Michael Wesch, no seu vídeo The Machine is Us/ing Us, de que a escrita à mão é linear, enquanto a digitalização do texto nos permite uma maior flexibilidade. E, na minha opinião, é impossível não concordar com o autor. Embora Wesch se sirva da borracha para reescrever as suas afirmações, num gesto algo contraditório, penso ser possível comprová-lo.

Lanço então o desafio a quem ler este texto de seguir o exemplo de escritores modernistas como James Joyce ou Marcel Proust, aplicando a técnica pela qual ficaram conhecidos, o fluxo de consciência ou monólogo interior (termos quase sinónimos, embora alguma distinção seja possível), tanto num suporte de papel como em formato digital. Esta técnica consiste simplesmente numa forma narrativa que expõe o raciocínio completo de uma personagem; mas para o efeito, será talvez mais sábio descomplicar e fazer coincidir personagem, narrador e autor.

E entretanto, saltemos para as conclusões: as minhas. O papel pede de nós uma atenção quase total. O fluxo joiceano pertence ao papel porque este nos possibilita uma abstração daquilo que já foi dito antes. O seu resultado é por vezes vago, confuso ou até incoerente, e por isso mais real: ou não é verdade que muitas vezes damos por nós perdidos na nossa própria cabeça, ou mesmo esquecidos dos nossos pensamentos de há segundos atrás? Já escrever no computador é uma tarefa mais lenta e ponderada. Afirmo-o com toda a certeza, porque muitas vezes dou por mim a consultar sinónimos, reescrever frases, ou simplesmente estática em frente ao ecrã. É que o papel permite-nos criar as palavras como se surgissem do nada, enquanto o teclado nós atira para as mãos uma infinidade de ferramentas e diz “agora desenrasca-te que eu fico à espera”.

Se ao papel pertence Joyce, ao reino da máquina corresponde a prosa de Hemingway, com as suas frases curtas e os seus pensamentos breves e claros. É uma abordagem mais racional quando Joyce e Proust primam pela subjetividade; e embora esta última muitas vezes seja bastante críptica, não deixa de nos sugerir uma maior humanidade.

Impõem-se então duas questões. Será o texto digital não apenas fruto, mas também criador da impessoalidade? E a nós, que linguagem nos pertence?

Beatriz de Sousa Ferreira


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