p r e s e n ç a

É difícil fazer com que as relações interpessoais durem, vai sempre haver o momento em que não vai haver nada para dizer e é nesse momento que os relacionamentos passam maus bocado – quando não ficam suspensos. É aqui que a problemática da comunicação começa. É preciso estar fisicamente presente para manter uma relação (relação de amizade/romântica)? É preciso haver contacto diário?

Para abordar este problema, dou o exemplo de um casal estadunidense. Jesse e Sam conheceram-se via Tumblr, aos 18 anos. Conversavam por telefone, mensagem e Skype. Começaram o namoro a fevereiro de 2011 e o noivado a setembro do mesmo ano. Moram juntos desde 2012 e têm agora 22 anos.

Conheci este caso de relacionamento à distância pelo vídeo “love 2054 miles away”, muito partilhado e falado em 2011, em que Jesse explica o complicado que é estar numa relação a mais de 3305.5 quilómetros de distância.

E estiveram juntos pela primeira vez no verão de 2011.


   How could I love/date a girl I have never met?

Love is a feeling someone gives you, something a person can’t control. It is one thing to love a complete stranger, but I wouldn’t call her a stranger at all. Just because I haven’t physically been there for her, I have been there emotionally and I think that is the most important part of any relationship. Plus, all we do every day is learn about each other because we CAN’T be there physically. So instead of all that physical stuff getting in the way, it opens up so much more time to talk and learn more about each other.

 – Jesse em resposta a uma pergunta anónima via Tumblr


Jesse Ryan resolve um dos problemas propostos por pessoas que não compreendem como é possível a aproximação de alguém sem nunca ter estado com essa pessoa. “… tudo o que fazemos todos os dias é conhecermo-nos porque NÃO PODEMOS estar juntos fisicamente. Por isso, em vez de a parte física se por no caminho, dá-nos muito mais tempo para nos conhecermos.”

Este caso é somente um exemplo, existem muitas relações amorosas à distância que funcionam, existem muitas amizades à distância que funcionam. Já estive dos dois lado da equação, sei como é viver essa experiência. E sou totalmente da mesma opinião de Jesse, existe muito mais tempo para duas pessoas se conhecerem quando não estão fisicamente próximas. Se o físico faz falta? faz, sem dúvida. Não conhecer a textura da pele da outra pessoa nem o seu cheiro custa, não há chamada nem video chatting via Skype que o possa substituir. Mas se depois de as pessoas se conhecerem tiverem oportunidade de estarem juntas, terão muito mais intimidade e confiança no outro.

Carlos Vicente Paredes

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Sinais de fumo ou WiFi?

Não custa conhecer a histórias da escrita e a sua evolução. qualquer manual de história nos apresenta uma cronologia suficiente para que possamos pesquisar e compreender o porquê de a vida e comunicação hoje ser assim. desde há trinta e cinco anos para cá que muita coisa mudou, a Internet teve o seu boom na década de 90 após ter estado em top-secret durante a Guerra Fria. As telecomunicações nunca mais foram as mesmas, o avanço da tecnologia e facilidade de transmitir e receber informação disparou.

Nasci em 1996, ano em que já existiam duas mãos cheias de empresas licenciadas para ativar o aceso à Internet pelos Serviços de Telecomunicações Complementares Fixos em Portugal. Foi um
bom ano para nascer, a Internet ainda não estava enraizada no quotidiano das pessoas. Sinto que tive o melhor dos dois mundos, o pré-Internet e o pós. Poucas crianças terão a oportunidade de ter uma infância tão diversificada como eu e os meus colegas tivemos.

Antes de a minha cidade ter um óptimo acesso de rede por cabo, encontrei um manual de escutismo no qual tinha descrito vários códigos de mensagem. Citando:

Código Braille (Falso)
Data
Alfabeto Invertido
Transposto
Picos de Morse
Passa um Melro
Passa dois Melros
Alfabeto Numeral
Romano-Árabe
Metades
Grelha
Vogais por Pontos
Caranguejo
Frase-Chave-Vertical
Frase-Chave-Horizontal
Frase
Código +3
Código Chinês 1
Código Chinês 2
Angular
Última Letra Falsa
Homógrafo-Traços
Nós de Morse
Batalha Naval – Certa
Batalha Naval – Incerta
Jornal
Vertical
Horizontal
Caracol
Primeira Letra Falsa

Eu e mais três amigos divertiamo-nos a por em código leads de notícias, a organizar caças ao tesouro. Tudo com a ajuda de um simples manual. Nunca fomos muito agarrados ao livro, andávamos sempre com ele à vez, mas passávamos os códigos para um caderno e não lhe tocávamos mais para que a lombada não descolasse. Até ao dia em que alguém se aproximou do final do livro e encontrou uma folha A4  dobrada duas vezes. Eram instruções sobre sinais de fumo; como manter uma boa fogueira e dicas de como comunicar à distância. Sentíamo-nos cowboys, nessa altura.

Nos tempos de hoje não é recorrente comunicar com estas três pessoas que tiveram tanta importância na minha infância, às vezes há uma SMS, combinamos um café, mas mais facilmente procuramos sinais de WiFi quando estamos juntos que comunicação cara a cara.

Carlos Vicente Paredes

Escolhas

“Quando filmas o mundo, sem edições, estás a mostrar a realidade (que pode abrir os olhos a alguns). No entanto, hoje em dia, quando se filma o mundo, há sempre uma edição, uma escolha, uma seleção do que é mais apelativo”
– Rita Sousa, Arte e Design, ESEC

Sortie des Usines Lumière à Lyon

A saída dos operários da Fábrica Lumière, de Auguste e Louis Lumière, foi o primeiro filme projectado na história do cinema, no Salon Indien du Grand Café em Paris. Esta apresentação teve um total de dez filmes em que cada um deles não tinha mais de 17 metros de película (aproximadamente um minuto de duração).

Se compararmos esta primeira sessão com as sessões de hoje em dia, notaríamos que por cada filme de aproximadamente noventa minutos teríamos 1530 metros de fita. Este era um problema na era analógica por vários motivos, entre eles o transporte das bobines e o seu possível incendiamento (dado que o material da película é altamente inflamável). A era digital veio facilitar – em muito – os problemas de distribuição, de películas que partiam, o próprio armazenamento.

Falando agora da citação inicial (Rita Sousa): o cinema, tal como a mediação de informação, resulta de um conjunto de escolhas. Escolhas que precisam de ser tomadas com o intuito apelativo, de ser a forma mais rápida de transmitir aquela informação, do melhor enquadramento ou até mesmo do melhor nível de decibéis. E isto coloca a questão: quão fiável será a escolha de partilha a nível informativo? Quão fiável será a escolha de partilha a nível artístico? O que será melhor deixar implícito? O que será melhor não dar sequer a entender?

Carlos Vicente Paredes

E-mail vs papel e caneta

Sou do tempo em que a Internet não era para toda a gente. Sou do tempo em que ia para casa da minha prima Sara ver vídeos de gatos no Youtube enquanto ela partilhava os mesmos vídeos com amigas via MSN. Sou do tempo em que a mãe da Sara dizia que precisava de fazer um telefonema e nós suspendíamos a sessão do Youtube. Só passados alguns anos é que tive ligação em casa.

Monopolizava o computador da casa, chegava da escola e ia para o computador, saía para o treino de hóquei em patins e ia dormir, nos dias em que não tinha treino e às sextas-feiras ficava ligado até tarde em fóruns, a comunicar no Hi5. Foi assim durante dois anos, depois disso o meu pai decidiu cancelar o contrato da rede.
Passei a estar desligado durante algum tempo. Ouvia rádio, andava de skate e tocava guitarra com amigos. Tive uma fase completamente diferente da anterior, mais afastado dos novos média.
Com quinze anos parti o pé. Falta pouco para fazer quatro anos desse incidente. Estive seis meses sem me conseguir mobilizar normalmente, passei praticamente todo o tempo de recuperação ligado ao laptop. Formspring.me, Skype, Tumblr, Facebook, Blogger e alguns fóruns de discussão foram o que me conseguiram aguentar todo o tempo que estive literalmente parado. Conheci várias pessoas por este meio, umas a 30 quilómetros, 150, 200. Ainda hoje me dou com parte dessas pessoas que me ajudaram na recuperação. Mas não nos limitamos ao chat nem a likes no Facebook. Damos valor ao físico e, por estarmos tão distantes, correspondemo-nos por carta, old school. Guardo cada carta que recebo com um carinho especial, é a única forma não digital de contacto que tenho com a maioria destas pessoas. É sempre mais fácil comunicar assim, sem a língua a pregar-nos partidas. Os sentimentos são extraídos de mais fundo e enterram-se mais em nós quando lidos.

Carlos Vicente


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