A ditadura dos imojis

E se, de um momento para o outro, se iniciasse a inserção dos tão famosos “smiles”, nos variados modelos de escrita do que está à nossa volta ? Ora vejamos, o resultado…

“ – Aqui tem! – dirigiu-se ao padre Terrier, um monge calvo e cheirando um pouco a vinagre, que lhe veio abrir-lhe a porta.
E pousou o cesto na soleira da porta.
– O que é isto ? – questionou Terrier, ao mesmo tempo que se inclinava sobre o cesto e cheirava, supondo tratar-se de víveres.
-O bastardo da infanticida da Rua aux Fers!
O padre remexeu no cesto, até pôr a descoberto o rosto do recém-nascido adormecido.
-Está com bom aspecto! – observou. – Com as faces rosadinhas e bem alimentado.” (…)

“ O Perfume, História de um assassino, de Patrick Suskind ”

Ficaria qualquer coisa deste género:

“ – Aqui tem! 😉
E pousou o cesto na soleira da porta.
O que é isto ? 😕
O bastardo da infanticida da Rua aux Fers! 😅
O padre remexeu no cesto, até pôr a descoberto o rosto do recém-nascido adormecido. 😇
Está com bom aspecto! – 😋 – Com as faces rosadinhas e bem alimentado. 😊” (…)

É flagrante o empobrecimento textual que se verifica num simples excerto. Poderão retorquir, dizendo que assim são mais visíveis as emoções e estados através da utilização “ da carinha correspondente” , contudo, a meu ver, esta só por si torna-se bastante redutora já que a grande ambiguidade leva a que cada um interprete a figura de um modo diferente.
Contudo, não vem de agora a tentativa de “ilustração” das palavras, desde sempre, que o homem procura colmatar a dificuldade que tem em exprimir-se por palavras, ou melhor, exprimir-se com as palavras certas, através da inserção de imagens que correspondam ao que pretendem transmitir. Inicialmente, tal poderia ser justificado, por exemplo na Idade Média, devido da necessidade de “educar” através de imagens, já que apenas uma infima parcela da população era alfabetizada.
De modo algum poderemos querer equiparar a escrita de uma simples sms a um romance, contudo não é o facto de cada vez mais os “smiles” serem utilizados na escrita corrente, mas sim o facto de estes servirem atualmente para substituir palavras, situação que acaba por culminar num progressivo “esquecimento” do lirismo que as palavras em si comportam.

Francisca Cruz

Ditados de McLuhan

Os 3 tópicos assinalados por Marshall McLuhan na sua obra “Understanding Media: The Extensions of Man” , apresentam-se para mim um ótimo de tema de exploração e discussão.

understanding-media_ic

Iniciemos assim pela citação de que “O meio é a mensagem”, no sentido mais simplificado, esta admite que a existência do meio em si converge numa modificação da sociedade. Ora tal é visível e facilmente demarcado nos nossos dias, já que podemos concluir claramente que a existência e aparecimento de um novo meio em si, é só por si factor de significativas mudanças, dependo igualmente do meio a que nos referimos. Esta situação poderá ser observada desde o inicio da história dos media, já que os meios ( na maioria dos casos ) afirmam-se primeiramente pela sua existência o que se traduz numa modificação dos hábitos do ser humano.
No que toca à segunda premissa de McLuhan, consiste em cada vez mais ou média serem extensões do corpo humano, quase como uma figuração do “Inspector Gadget” e de todos os seus utensílios. Cada vez mais os media nos são colocados desse modo, como poderemos exemplificar que o telefone é uma extensão da voz, na medida em que a projecta e refracta por milhares de quilómetros. Ainda como exemplo, poderemos falar da escrita digital. Desde a invenção da máquina de escrever que se assistiu a uma diminuição de elementos escritos à mão, essa influência duplicou com a existência dos computadores, e até mesmo de smartphones, tablet… sendo que apesar de continuarem a ser as nossas mãos que escrevem, estas já não o fazem de um modo direto mas através de intermédio de um objecto.

inspector-gadget

Cada vez mais podemos observar a implicação e relação física do ser humano com os media ou com objetos tecnologicos, sendo que podemos dar como exemplo o iPhone 5S onde o ato de desbloquear a tela inicial é produzido através do reconhecimento da impressão digital do proprietário. Esta situação por exemplo vem criar uma interdependência mutua entre ser humano e o media, acabando por traduzir este último como uma extensão daquilo que naturalmente o homem já possuí, sendo assim,este pode ampliar-se.

   O último tópico referido por McLuhan consiste na diferenciação entre meios quentes e meios frios, sendo que está é efetivada através da relação “ definição”, “participação”. Podemos-nos assim referir a meio quente como um canal de comunicação de alta definição que requer baixa participação e/ou se centra predominantemente num estímulo sensorial, sendo que ele dá como exemplos a fotografia, a imprensa, a rádio, ou seja, não há qualquer intervenção do Homem no meio. Já por meio frio, McLuhan refere como canal de comunicação de baixa definição que requer grande participação e/ou combina diferentes estímulos sensoriais, exemplificando: o telefone, a fala… Contudo é neste último conjunto, que McLuhan insere a televisão, sendo que atualmente ( e devido à publicação ser da década de 60 ) já se efetivaram mudanças no próprio meio, sendo que a televisão poder ser inserida tanto nos meios quentes ( séries, filmes … ) como nos meios frios ( realityshows, programas em direto).

Em modo de conclusão gostaria igualmente de referir que na caracterização da história dos média, McLuhan enumera a atual como a Era Eletrónica, e refere um facto que a mim me parece de especial importância, já que defende que se assiste a um “declínio do pensamento lógico e linear”, sendo que a meu ver tal situação se deve essencialmente ao facto de cada vez mais termos os meios a “pensar” e “trabalhar” por nós, lá está, como extensões do nosso corpo, onde instintivamente acabamos por os substituir em detrimento dos nossos sentidos naturais.

Francisca Cruz

“ O telefone, a voz, o instante ”

Atualmente, nos tempos que correm, tornou-se banal a audição da voz de alguém que poderá se encontrar a milhares de quilômetros de distância. Contudo, seria de facto interessante, fazermos um exercício de incorporação, e encarnarmos a pele daqueles que pela primeira vez na História assistiram à propagação da voz num tempo e espaço que até então seria impensável que se verificasse. Certamente muitos terão ficado estupefactos com o “transporte” da voz, de um local para o outro, no momento instantâneo sem a presença física dos corpos em questão. O telefone, é assim, um dispositivo de telecomunicações que foi inventado com o propósito de transmitir sons por meio de sinais elétricos.Há muita controvérsia sobre a invenção do telefone, sendo que esta é geralmente atribuída a Alexander Bell.
Contudo recentemente a invenção foi concedida como uma criação de Antonio Meucci, ( por volta de 1860 ) , sendo que esta se deveu a uma necessidade de comunicar com a sua esposa. Contudo em Portugal a
primeira experiência com o telefone deu-se só a 24 de Novembro de 1877, ligando Carcavelos à Central do Cabo em Lisboa.
A voz, para além de uma fonte de transmissão de sentimentos, é um dos mais fortes indicativos dos traços da personalidade de alguém, e é acima de tudo o modo de comunicação por excelência, desde os primórdios, antes da escrita. A primeira grande emoção dos pais é quando os seus filhos começam a falar, como se a partir desse momento integrassem de facto a espécie humana. A condição de ser em permanente estado de comunicação é inerente ao Homem, sendo que o primeiro modo que utiliza para o expressar, e que o faz de uma forma mais pura é através da fala.
O modo como alguém se expressa está igualmente associado às emoções que está sentir naquele momento. O telefone veio possibilitar isso, quase como se trouxesse um pouco da alma com quem se estava a falar no momento. É difícil esconder ou manipular os sentimentos quando somos confrontados com eles no momento, sem maneira de os podermos amadurecer nem camuflar. Não podemos igualmente esquecer o facto do telefone possibilitar uma comunicação relativa ao instantâneo, possibilitando e facilitando não só a comunicação do foro mais pessoal, mas bem como a transmissão de notícias e acontecimentos de importância do foro universal.

telefone

Ana Francisca Cruz

fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Telefone

A “caixa” de Pandora

O pequeno aparelho que veio substituir tudo ( ou pelo menos quase). Não nego a sua utilidade, nem o modo como agiliza diversos processos no nosso dia, nem que com ele é possível “viajar” do Porto a Lisboa em segundos. Contudo acho que é necessário ( e entenda-se urgentemente necessário ) não deixarmos que a pequena “ caixinha dos microchips” controle cada ação que fazemos ao longo do dia. A quem é que já não aconteceu, vá-se lá saber por obra do acaso ou talvez vontade própria do aparelho, não tocar o despertador na hora que o era devido… Tragédia das tragédias que faz com que todo o dia esteja já sentenciado por esta “birra” do aparelho teimoso que não tocou.

E é assim que nós, os seres humanos, os ditos dos racionais, nos deixamos dominar pela “vontade própria” do pequeno rectângulo que nos acompanha todos os dias no bolso do casaco. Convém é não esquecermos que como produto de toda uma centelha de evoluções técnicas e científicas , a máquina acabou por adquirir uma característica intrínseca ao seu criador : a de ser falível. Mas a questão preocupante não se baseia nisso, mas sim no facto de termos-nos tornado tão dependentes desse mesmo aparelho que somos incapazes de “reagir” perante uma situação em que este nos falhe, quase como se o mundo fosse acabar apenas pelo simples facto de não termos bateria no telemóvel como se a chamada das nossas vidas fosse realmente perdida nesses 5 minutos de desconexão com o mundo da mediação digital.
É flagrante que por mais que queiramos, já se tornou impossível levarmos uma vida completamente normal sem a presença dos mais diversos aparelhos. A mediação digital tornou-se um essencial em diversos pontos da nossa vida, começando pela educação onde a maioria dos trabalhos já é entregue por e-mail, onde o caderno e a caneta foram substituídos pelo tablet ou pelo computador, sendo que a maioria dos estudantes atualmente já não faz ideia onde se situa a biblioteca da sua escola. E sucessivamente esta cadeia se transpõem para o mundo do trabalho, e para as funções que qualquer cidadão desempenha no quotidiano. A conta da luz ou da água já não chega por carta do correio, mas por e-mail ou uma simples mensagem de telemóvel. Certo tipo de “operações” de pagamentos de impostos já só podem ser realizadas através da internet. A generalidade dos nossos serviços de atendimento ao público é informatizada, sendo que se ocorrer o infortúnio de falhar a energia elétrica criam-se filas enormes e podemos observar todos os presentes a perder a compostura e tornarem-se autênticas “baratas tontas”.

Pois bem, como já referi, não questiono os avanços que ocorreram galopantemente nas últimas décadas, pois o seu objetivo principal ( sendo esse mesmo o objetivo de qualquer invenção ) é o de colmatar as necessidades com as quais nos confrontamos. Contudo não podemos descartar determinados factos óbvios: o isolamento, a quebra das relações pessoais, e o fosso social que tais avanços vieram agravar, sendo que para mim este último ponto é de facto o mais flagrante. Tenhamos em consideração, por exemplos, todos aqueles que nasceram antes desta “ era do progresso” e que hoje em dia são obrigados a lidar com aparelhos com os quais não se encontram minimamente familiarizados para, por exemplo, pagarem as suas contas ( sendo que os seus “velhos” métodos, com todas as reformas tecnológicas, lhes estão completamente vedados ). Tudo isto nos passa totalmente despercebido, tal como não reparamos quando passamos uma hora numa mesa de café onde não ouvimos a voz das pessoas que estão connosco por todos estarmos “ de pescoço vergado”.

Ana Francisca Cruz


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