Alter(ated)-ego

Na minha opinião, podemos falar de um avatar como um alter-ego. Uma representação à qual se alicerçam qualidades que transponham as características que temos em comum, homens e mulheres, a finitude e a fronteira entre os limites físicos e temporais. Um avatar que represente o melhor ou o pior dos nossos lados, de forma figurada ou não, que possa simultaneamente corresponder à realidade e à condição da vida humana.

Um avatar pode realmente tomar inúmeras formas. Sejam estes alguns dos exemplos: quando temos a possibilidade de criar uma conta de e-mail, um perfil ou uma página num site de âmbito social e/ou relacional, um perfil ou uma personagem para um jogo, entre tantos mais que nos possam ocorrer.

No entanto, é para mim interessante uma relativamente recente prática na internet, e na esfera do espaço social e digital do século XXI. Tive conhecimento dos Role-Playing Games (da conhecida sigla RPG) através de uma amiga que praticava esta “modalidade”. RPG é uma prática que se pode observar entre pessoas que criam um ou mais avatares (em sites conhecidos como o Twitter ou o Facebook), como que uma comunidade dentro da Internet, que se agrega para integrar uma realidade fictícia. Dentro do espaço digital, proporciona-se um outro de cariz social em que existem personagens onde quem está “atrás do ecrã” tem o conhecimento de que nada do que é dito ou que se possa ver tenha por base algum fundo de verdade.

Ainda assim, no âmbito do jogo, é possível que os avatares/personagens “deixem cair a máscara” entre pessoas que queiram efectivamente conhecer-se e podem fazê-lo out of character (gíria de RPG e outros jogos).

Maria Miguel

ma·ni·pu·lar (do latim manipularis)

Na realidade dos dias que se atravessam, já não é de todo um problema conseguir criar contacto com alguém que esteja noutra cidade, noutro país, noutro fuso horário. Por mais debatido que seja o tema da emergência das novas tecnologias e do que estas despoletaram, apesar de tudo, é relevante sublinhar a qualidade de vida que estas apresentaram a pessoas cujas circunstâncias são – mais, ou menos – idênticas. Familiares emigrados, companheiros separados pelo trabalho ou por outros compromissos evidentes, jovens estudantes separados dos pais lutando por um futuro mais condigno.

A possibilidade de estabelecer uma chamada ou uma video-chamada a grandes distâncias, em tempo real, quase instantaneamente, providencia uma proximidade “artificial” a que Beth Coleman chama co-presença. Esta presença “em conjunto” é fulcral e indispensável nas sociedades actuais, tanto a nível laboral como de carácter familiar. Indispensável a nível de custos (monetários e/ou físicos) ou de tempo, e salvaguarda do mesmo.

A co-presença revela uma importância fundamental nas relações interpessoais. É no olhar e na troca deste que, nos alicerces das relações interpessoais, se constroem e se edificam sentimentos como a confiança, a intimidade, a sinceridade, o conhecimento recíproco, a empatia. É também através do olhar que se geram sentimentos adversos, como o medo, a desconfiança, o controlo.

A título de curiosidade, e exemplificando a importância da co-presença, o sociólogo Georg Simmel, considerava o olhar mútuo um acontecimento social único, e que era através do olhar que se estabelecia uma verdadeira conexão entre indivíduos; considerava inclusivamente que o olhar é uma interacção mais pura e mais directa do que uma normal conversa.

No entanto, este exemplo lembra-nos invariavelmente da cegueira, e da condição daqueles que não podem obter esta aparentemente simples mas poderosa experiência.

Mas será que os verdadeiros cegos são os que não podem ver? Ou os que não podem tocar? Como é realmente percepcionado o mundo? As relações humanas são naturalmente armadilhadas pelos sentimentos que nutrimos uns pelos outros, que nutrimos pelas coisas e pelos lugares. Realmente, com todos os sentidos, para além de depreender o que nos rodeia, temos a tendência a manipular as circunstâncias de forma a facilitar os nossos caminhos e a aproximar os nossos atalhos. Manipular. Mão.

Numa esfera tecnológica como aquela em que hoje vivemos, onde a mudança e a inovação são os motores para cada dia que nasce, penso que o levantamento de dúvidas surge muito mais rapidamente do que o cessar das mesmas.

Maria Miguel

Out with the old, in with the new

New media are doing exactly what their predecessors have done: presenting themselves as refashioned and improved versions of other media, digital visual media can best be understood through the ways in which they honor, rival, and revise linear-perspective painting, photography, film, television, and print.” (Bolter and Grusin, 1999, p.14)

Esta afirmação refuta a ideia de que as novas tecnologias, os novos média, são totalmente novos. A remediação como conceito lógico e até prático, defende que os meios digitais deste século não são mais do que upgrades dos meios anteriores, ou como que versões melhoradas e sucessivamente adaptadas às necessidades do consumidor; com tendência a reunir cada vez mais meios num só aparelho, num só meio.

my-new-camera-phoneO telemóvel é, provavelmente, o exemplo que a maioria de nós mais frequentemente utiliza para sintetizar fisicamente a remediação. Com uma breve viagem no tempo, podemos aperceber-nos de que este pequeno objecto que hoje nos cabe no bolso e que podemos autonomamente levar para qualquer lado, era impensável até há umas décadas atrás. Figurativamente falando, e como forma de perceber a remediação, podemos utilizar o exemplo que dei anteriormente para perceber como é que o conteúdo de um meio está presente noutro, e vice-versa. Um telemóvel do século XXI, e analisando, por exemplo, um telemóvel ou um smartphone desta geração, como lhe queiramos chamar, já seria o equivalente a carregar numa mochila uma máquina fotográfica (já com uma boa resolução), uma máquina de escrever, um papel, uma caneta, uma calculadora, uma lista de contactos, um relógio, um álbum de fotografias, uma bússola, um rádio, entre tantos outros que poderíamos enumerar. Todos estes meios incluídos neste meio “maior”, são o conteúdo que verdadeiramente “sofreu” o fenómeno da remediação por parte de dezenas de empresas que oferecem num único produto, a fusão de tantos outros.

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Creio que seja inevitável que a remediação se torne cada vez mais sintomática, já que a propensão para a globalização está intimamente ligada com os novos média.

Maria Miguel

Luz como identidade

A primeira fotografia.
[link na imagem]

Joseph Nicéphore Niépce, 1826/1827 (?)

Estamos no século XXI e permanece uma incógnita a importância da fotografia. A habituação à imagem, nos seus inúmeros registos, proporcionou um espaço para aquela que se tornou uma ferramenta de representação mais próxima do real, daquilo que o olho humano observa na sua essência. Pondera-se ao longo dos anos toda uma vertente artística, mais do que documental ou científica. São traços breves e que não fazem jus ao crescer da fotografia, mas que nos dão a ideia da sua evolução.

Parece-me sobretudo importante falar da identidade na fotografia.
A representação da personalidade na fotografia, não tem de ser necessariamente um retrato, ou um autoretrato. O “eu” assinala a sua presença de inúmeras maneiras. O “eu” que fotografa, que dá o cunho pessoal e individual à fotografia, o “eu” que é fotografado, o “eu” que estuda o trabalho fotográfico e que o encomenda – sendo este a alma de uma fotografia, por exemplo.

Ainda assim, o registo da imagem foi fulcral em muitos aspectos do nosso dia-a-dia: a importância da fotografia como registo de identidade e qualidade de cidadão (o Bilhete de Identidade), como meio de fixar no tempo a imagem de pessoas e seus contextos geográficos (que, de algum modo, sentenciam a efemeridade da vida), como meio de aprendizagem e conhecimento do passado (relativamente ao aspecto anterior), como movimento artístico e cultural (representativo de dezenas de nações).

Teremos inevitavelmente de referenciar aquele que é dos movimentos actuais mais marcantes desta sociedade tecnológica – a difusão das selfies; e as variantes que agora vão surgindo, numa tentativa de quebra de registo, que mais não é do que uma variação do registo, seja ele individual/colectivo, realista/criativo, entre outros. Este facto pode estar intimamente ligado à lógica da remediação de Bolter e Grusin que, aplicada neste contexto, se traduz na presença do conteúdo e da matéria da fotografia, inseridos nestas que são as novas práticas tecnológicas baseadas nos princípios da fotografia.

É importante considerar a fotografia como elemento fundamental nesta que é a conjuntura social e tecnológica do século XXI; e como esta permitiu e, diga-se, ainda permite ao ser humano adquirir uma percepção do mundo que arrebatou certos padrões de vida antes de esta ter nascido. Ingrato seria negar o seu uso.

Maria Miguel

Ubiquidade como qualidade?

«Dom de estar ao mesmo tempo em vários lugares; omnipresença»

Por entre sílabas e interpretações, a ubiquidade caracteriza a comunicação social e os mass media – se é que em parte se podem considerar sinónimos. Com frequência, têm vindo a ser alvo de grotescas transformações, de modo a alcançar e a abranger até os locais mais inóspitos. No âmbito de pesquisa da nossa disciplina, a intenção nesta temática será focar toda uma cadeia de metamorfoses que ditaram o nascimento desta era digital, e o impacto que tem este carácter omnipresente na vida dos seres humanos no século XXI.

Vemos diariamente a forma como a nossa vida foi facilitada. Seja em relação ao tempo, ao encurtar de distâncias ou de custos. Gosto aqui de exemplificar a Internet, porque no mesmo minuto, tanto posso estar a par de acontecimentos na Austrália, como de um cruzeiro itinerante pelas águas do Pacífico. É essa a realidade da Internet. A omnipresença que esta concede a quem a utiliza.

É então que surge o conceito de omnisciência. O “saber de tudo”, porque temos acesso a uma panóplia de informações, não significa que tenhamos qualquer tipo de conhecimento. A informação é difusa e, também por isso, confusa.

A título de exemplo, houve recentemente um acontecimento terrorista em França. Após o atentado contra o jornal Charlie Hebdo, muitas foram as “facções” virtuais dissidentes que cresceram na web e que esta despoletou. Falo de pessoas que acima de tudo resguardam a liberdade de expressão, ou pessoas que preservam mais o valor da vida humana, ou pessoas que defendem este “não-afrontamento” entre doutrinas. E ainda pessoas que alegam que, através da Internet não se conseguirá elucidar a contento nenhuma das partes, e creio que aqui residirá a iminência da ameaça.

Esta montra de terrorismo a que assistimos quase diariamente na mediação digital tende a tornar-se numa constante, e a Internet revela ser o veículo ideal para isso acontecer; já que a grande maioria da informação que circula não tem obstáculos para circular, e facilmente pode chegar a qualquer lado. Esta é uma outra característica da divulgação massiva de informação na mediação digital; e surge assim, por exemplo, a necessidade de criação de filtros de leitura, isto é, uma boa educação de base, que permita uma navegação mais consciente.

A título de exemplo, na passada quinta-feira, dia 19 de fevereiro de 2015, saiu este artigo relativo a uma estratégia contra esta apologia ao terrorismo, e que o Conselho de Ministros aprovou.

Maria Miguel


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