A Identidade Online

Se há algo inescapável, é a necessidade humana de vida em sociedade. É através da sociedade e em confronto com ela que, desde crianças, formamos a nossa identidade; nela assimilamos os nossos valores morais e questionamos os daqueles que nos rodeiam. Somos, de facto, o animal social, que criou e foi criado pela comunidade em que habita. Contudo, é também verdade que esta tem por base um conjunto de ideias preconcebidas, as quais podem provocar em alguns de nós uma sensação de deslocamento, resultando na separação do indivíduo e sociedade.

Os avatares e as comunidades online surgem, então, como autênticas máscaras que nos permitem viver uma sociedade à qual nos adaptamos com mais facilidade. As razões para tal podem ser várias: uma deficiência física que é superada através de um personagem equiparável a personagens guerreiras míticas; uma tentativa de auto-expressão que, por receio de inadaptação, é dificultada no mundo real; a busca por um universo extraordinário onde somos mais que humanos. Em suma, uma busca de transcendência; busca esta geralmente focada na participação em MMORPG, jogos online frequentados por múltiplos indivíduos em locais vários, porém conectados em simultâneo.

De certa forma, estas comunidades funcionam quase como o jogo do faz de conta. Fazem lembrar uma espécie de parques infantis nos quais podemos experimentar o papel de outrem; posições de poder estratégico, físico, místico; os últimos sobreviventes, ou parte de uma comunidade de lutadores. Através destes avatares, podemos assumir uma personalidade que não nossa, e reinventarmo-nos. Assimilar novas ideias, novos hábitos, tal como faríamos em criança. Absorver o mundo fictício, ou dele retirar apenas o que nos auxilia no mundo real. Nas palavras empregadas por Sherry Turkle, online life emerged as an “identity workshop”; ou seja, o mundo online surge-nos como uma verdadeira ferramenta de melhoramento pessoal na ponta dos nossos dedos.

Beatriz de Sousa Ferreira

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Questões Acerca dos Meios

O meio é a mensagem, diz a máxima de Marshall McLuhan. O meio é a massagem, diverge uma simplificada e humorosa edição da Penguin Books, publicada pela primeira vez em 1967, para divulgar a mesma ideia às massas que consideravam o original demasiadamente intricado para ser compreensível. De facto, esta pequena frase aparece-nos como suma da doutrina de McLuhan; e em cinco breves palavras, o teorizador canadense convida-nos a observar os meios de comunicação como algo mais que meras ferramentas, alterando talvez de forma definitiva a nossa relação com os mesmos.

Tomemos como exemplo a banalização do smartphone, que nos acompanha de forma tão presente como se de uma extensão do nosso corpo se tratasse. O smartphone é o exemplo máximo do paradigma de transmissão imediata de informação dos nossos tempos: onde quer que estejamos, basta uma simples ligação à rede para termos as principais fontes de informação a nível global na palma da mão. E até desligados da rede podemos consultar determinadas aplicações, ler ebooks, revisitar informação previamente descarregada; não que estar ligado seja tarefa difícil, pois as redes wifi são cada vez mais ubíquas nas nossas cidades.

Mas se um meio tão pequeno é capaz de uma transmissão de dados tão avassaladora, que dizer do seu impacto enquanto aparelho móvel e omnipresente na nossa sociedade? Não terá a sua mera existência mais peso na nossa conceção do universo do que a sua utilização propriamente dita? É que muitas vezes damos por nós a ignorar todas as potencialidades dos novos média, toda a sua capacidade de transmissão e armazenamento da informação, em troca de um uso mais dedicado ao entretenimento e à comunicação. Não será, então, mais marcante para a sociedade as inúmeras possibilidades trazidas pelos novos média do que as mensagens que neles trocamos?

São estas algumas das questões que McLuhan nos faz ponderar, mantendo sempre presente que, por vezes, até os grandes teorizadores se enganam.

Beatriz de Sousa Ferreira

A Linguagem: no Papel e no Teclado

O afastar a mão do papel para a dirigir ao teclado provoca em nós um infindável número de alterações. Deixamos de nos curvar perante o peso da palavra para escrevermos de coluna ereta, e basta um ligeiro desvio do olhar para assimilar o texto na sua totalidade. Relemos, reescrevemos, somos simultaneamente escritor e editor, leitor e crítico. E se deixa de ser credível a imagem do torturado poeta, debruçando-se sobre o manuscrito num gesto de reserva e, conceda-se, uma beleza quase filosófica, surge-nos outra imagem: a do escritor digitando à velocidade da luz, apagando e escrevendo em alternância, tirando proveito de infindáveis aplicações e programas para o seu ofício.

“Throes of Creation”, de Leonid Pasternak

Se a predominância do teclado altera tão grandemente a nossa fisicalidade, será então de prever que esta diferença se reflita também naquilo que escrevemos. Há já várias aulas atrás discutíamos a conceção de Michael Wesch, no seu vídeo The Machine is Us/ing Us, de que a escrita à mão é linear, enquanto a digitalização do texto nos permite uma maior flexibilidade. E, na minha opinião, é impossível não concordar com o autor. Embora Wesch se sirva da borracha para reescrever as suas afirmações, num gesto algo contraditório, penso ser possível comprová-lo.

Lanço então o desafio a quem ler este texto de seguir o exemplo de escritores modernistas como James Joyce ou Marcel Proust, aplicando a técnica pela qual ficaram conhecidos, o fluxo de consciência ou monólogo interior (termos quase sinónimos, embora alguma distinção seja possível), tanto num suporte de papel como em formato digital. Esta técnica consiste simplesmente numa forma narrativa que expõe o raciocínio completo de uma personagem; mas para o efeito, será talvez mais sábio descomplicar e fazer coincidir personagem, narrador e autor.

E entretanto, saltemos para as conclusões: as minhas. O papel pede de nós uma atenção quase total. O fluxo joiceano pertence ao papel porque este nos possibilita uma abstração daquilo que já foi dito antes. O seu resultado é por vezes vago, confuso ou até incoerente, e por isso mais real: ou não é verdade que muitas vezes damos por nós perdidos na nossa própria cabeça, ou mesmo esquecidos dos nossos pensamentos de há segundos atrás? Já escrever no computador é uma tarefa mais lenta e ponderada. Afirmo-o com toda a certeza, porque muitas vezes dou por mim a consultar sinónimos, reescrever frases, ou simplesmente estática em frente ao ecrã. É que o papel permite-nos criar as palavras como se surgissem do nada, enquanto o teclado nós atira para as mãos uma infinidade de ferramentas e diz “agora desenrasca-te que eu fico à espera”.

Se ao papel pertence Joyce, ao reino da máquina corresponde a prosa de Hemingway, com as suas frases curtas e os seus pensamentos breves e claros. É uma abordagem mais racional quando Joyce e Proust primam pela subjetividade; e embora esta última muitas vezes seja bastante críptica, não deixa de nos sugerir uma maior humanidade.

Impõem-se então duas questões. Será o texto digital não apenas fruto, mas também criador da impessoalidade? E a nós, que linguagem nos pertence?

Beatriz de Sousa Ferreira

A Câmara Digital e a Revolução (ou A Câmara Digital é a Revolução)

Dizia Antoine de Saint-Exupéry que para ver claramente, basta mudar a direção do olhar. Peço então permissão para distorcer este parecer à luz dos dias de hoje: para ver claramente, basta deixar de fiar nos nossos olhos e confiar nesse “olho extra” que é a lente de uma câmara digital.

A câmara fotográfica tornou-se uma tecnologia tão banalmente ubíqua que nos parece anacrónica a sua ausência. Vivemos atualmente uma necessidade intrínseca de criar provas visuais de todos os instantes da nossa existência, que expressamos diariamente nos looks do dia e nas dezenas de selfies que entopem o feed de redes sociais como o Facebook ou o Instagram; somos protagonistas deste fenómeno ao pertencer ao número crescente de criadores do Youtube que trazem as suas vidas ao domínio público na forma de vlogs.

Mas se estas utilizações, cujos méritos também devem ser apreciados e valorizados, dominam uma tão grande porção da Internet, como garantir que outros conteúdos, de cariz mais político ou reivindicativo, cheguem até nós com a mesma facilidade? Como divulgar uma mensagem tão importante quando plataformas como a televisão são cada vez mais desacreditadas, e o mundo da Internet está mais interessado em desvendar a cor de um vestido?

Neste contexto, é fundamental o papel dos vídeos amadores, filmados por meros cidadãos espectadores de situações violentas, como esta, que por vezes os próprios média mais “oficiais” não se atrevem a noticiar de forma crítica.

Porque a dimensão política das tecnologias de comunicação e de informação está inerentemente ligada à liberdade de expressão e de divulgação, é imprescindível que valorizemos a palavra do cidadão face ao relativo silêncio dos noticiários. O caso mencionado de abuso de autoridade policial na cidade de Ferguson, Missouri (EUA) ainda hoje se repercute na vida diária dos seus habitantes; contudo, já há muito as televisões tornaram a sua atenção para outros assuntos.

Torna-se então clara a estreita ligação entre a plataforma interativa que é a Internet e a prática da liberdade de expressão, tão facilitada pela Web 2.0 e a descentralização da informação em rede. Por fim, encontramo-nos capazes de partilhar informação que de outra forma poderia não ser divulgada: rejeitada pelos jornais ou silenciada pelos noticiários. Cabe-nos a nós utilizar a Internet de forma interventiva e chamar a atenção para os flagelos que se passam um pouco por toda a parte, colaborando em defesa da justiça.

Não quero, com isto, insurgir-me contra os usos mais levianos dos média; o bicho humano é, afinal, tremendamente necessitado de entretenimento, e em nada defenderia a minha causa descartar as artes, por exemplo. Contudo, talvez não seja necessário adaptar as palavras de Saint-Exupéry, mas sim compreendê-las face à atual conjuntura social e mediática: para ver mais claramente o mundo, basta descolarmos o olhar plácido da infindável lista de novas apps que surgem diariamente, e dirigi-lo à todo um outro mundo de informação que se encontra à mera distância de um clique.

Beatriz de Sousa Ferreira


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